ARTIGO

Alerta para o glaucoma

Roberto Galvão
MÉDICO

Neste começo de século, a doença ocular chamada glaucoma, tornou-se a maior causa de cegueira evitável do mundo. Ela é evitável, porém não reversível. Por si só, esta constatação deveria ser o suficiente para torná-la um problema de saúde pública. No geral, o glaucoma cursa em silêncio, isto é, sem sintomas, e vai roubando a visão lentamente. Estas palavras de Moacyr Scliar, no seu livro A Paixão Transformada podem ser aplicadas perfeitamente ao mal sobre o qual nos estamos referindo “A doença nasce em silêncio…. Quietamente, imperceptivelmente, implacavelmente.” (A liberdade com a língua é do Moacyr !).

Quando o portador de glaucoma percebe haver algum erro com os olhos, já há uma perda de 40 a 50% das fibras nervosas que constituem o nervo óptico (via que conduz as impressões visuais do olho até o cérebro). Por esta razão, quanto mais cedo for feito o diagnóstico, mais possibilidades de ajudar os pacientes.

Para terem uma idéia de números, numa região metropolitana de 3 milhões de habitantes, espera-se encontrar cerca de 60 mil portadores de glaucoma, dos quais, 30 mil não têm a mínima idéia de serem portadores do mal. Além disso, dificilmente os demais 30 mil têm acesso a serviços e profissionais com treinamento adequado para levar a cabo um diagnóstico e tratamento com êxito.

Em palestras ocasionalmente feitas para pessoal não médico, temos procurado alertar para os chamados fatores de risco que podem fazer uma pessoa ter mais tendência a ter glaucoma. Um dos mais importantes é a história familiar. Isto é, a existência de um glaucomatoso entre os familiares, aumenta a possibilidade de desenvolver a doença. Não é que ela seja contágiosa, mas tem uma parcela hereditária significativa. A maior parte dos glaucomas é acompanhada de aumento da pressão dos olhos, assim, a avaliação deste dado e exame do nervo óptico são decisivos para detecção do glaucoma.

Acreditamos ser dever dos oftalmologistas, tanto gerais como especializados, procurar mostrar às autoridades de saúde dos estados nos quais exercem suaprofissão, que o glaucoma não tratado de maneira adequada leva à cegueira, de um ou dos dois olhos e, portanto, é um problema de saúde pública, sim! Este trabalho visa proporcionar à população economicamente mais desprovida, o acesso a medicamentos que lhe permita preservar o dom inestimável da visão.

Como presidente da Sociedade Brasileira de Glaucoma, temos colocado, em todo o país, duas preocupações principais nas nossas atividades por todo o país. A primeira delas é tornar accessíveis à nossa população os medicamentos mais eficientes, através de doações do poder público. A segunda, através de cursos, congressos, simpósios e palestras não só para estudantes como para médicos oftalmologistas, permitir a capacitação dos mesmos para o tratamento e acompanhamento. Esta é a missão que temos de assumir.

A boa notícia é que a doença pode ser controlada. O glaucoma é crônico, quer dizer, para toda a vida e de evolução lenta. Entretanto, é possível conviver com ele desde que a pessoa tenha sido diagnosticada com precocidade, faça uso dos medicamentos com regularidade e obedeça às visitas agendadas com seu médico. Sabemos e não é demais repetir que, quanto mais cedo for feito o diagnóstico, menos possibilidades de lesões no nervo óptico e mais possibilidades de ajudar os pacientes.

Prevenir, como sempre, é a melhor medicina; temos tantos novos recursos para o tratamento, então por que não tentar minimizar a gravidade do problema? Saúde tem que ser prioridade sempre.

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