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A cura que vem da tilápia

Fonte: JORNAL DO COMMERCIO

QUEIMADURA Médico pernambucano usa pele da espécie de peixe como poderoso curativo biológico. Testes em humanos começam no segundo semestre

O tratamento de queimados com curativos e pomada pode estar com os dias contados se depender do cirurgião plástico pernambucano Marcelo Borges. Ele é idealizador do estudo pioneiro no mundo que propõe o uso da pele de tilápia como curativo biológico temporário nos pacientes. O novo método promete diminuir a dor, o risco de infecção e melhorar a cicatrização das feridas. Os testes em humanos vão começar no segundo semestre deste ano. Se os resultados forem positivos, a tecnologia pode chegar na rede pública de saúde em três anos.

“A pele da tilápia funciona como um tampão feito com tecido vivo. Depois que o médico fizer a raspagem cirúrgica para retirar a pele morta do paciente, a ferida será coberta com a pele do peixe. Enquanto o material estiver sobre o queimado, vai proteger a área afetada como se fosse a própria pele da vítima”, explica Marcelo Borges, que também é coordenador do SOS Queimaduras e Feridas do Hospital São Marcos, localizado no bairro do Paissandu, na área central do Recife.

Entre os benefícios da nova tecnologia estão a proteção contra infecções e a eliminação da dor, porque as terminações nervosas não ficam expostas com esse procedimento. A perda de líquido também é minimizada. “Uma pessoa queimada, que teve mais de 30% do corpo atingido, chega a perder de três a quatro litros de água por dia, pelas queimaduras. Com as feridas cobertas, isso não vai mais acontecer”, pontua Marcelo Borges.

A ideia para a pesquisa surgiu depois que o cirurgião leu, em 2011, reportagem do JC sobre o uso de couro de tilápia na produção de artesanato. “Eu pensei que se a pele do peixe tinha delicadeza suficiente para virar um acessório feminino, também poderia ser usada como cobertura para uma ferida”, lembra. Como Borges já tinha experiência com o uso da pele de rã como curativo em pacientes vítimas de queimadura, o experimento com a pele do peixe ficou mais fácil. E, no decorrer dos estudos, a tilápia mostrou ser uma melhor opção de tratamento.

De acordo com o cirurgião, o habitat da rã traz muito risco de contaminação, sobretudo pelo vírus do mal da vaca louca, que não tem cura. No ambiente aquático, é possível ter maior controle sobre o animal. Além de todos os cuidados durante a criação, a pele do peixe é esterilizada antes de ser usada como curativo biológico. O processo de descontaminação foi adaptado dos conhecimentos que Marcelo Borges adquiriu no Banco de Pele do Instituto Materno-Infantil Professor Fernando Figueira (Imip).

A pesquisa, que tem DNA pernambucano, entretanto, não está sendo desenvolvida no Estado por falta de apoio. As duas primeiras fases, chamadas Tilápia Hands On, foram tocadas no Recife, mas esbarraram na falta de apoio financeiro. O cirurgião prefere não se ater ao período de dificuldades. “Sabe aquela expressão popular que diz santo de casa não faz milagre? Foi isso”, resume o pesquisador.

O projeto ganhou impulso com a ajuda do presidente do Instituto de Apoio ao Queimado do Ceará, Edmar Maciel, que articulou parceria financeira com a Companhia Energética do Ceará (Coelce/Aneel) e apoio técnico do Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos (NPDM) da Universidade Federal do Ceará (UFC). Até agora, já foram realizadas 10 etapas do estudo pré-clínico, todas com sucesso.

A previsão é iniciar os testes em humanos a partir do segundo semestre deste ano. Marcelo Borges não esconde a animação com os resultados da pesquisa. “Temos todas as condições para sair do atraso tecnológico que o Brasil vivencia há mais de 40 anos no que se refere a alternativas de cobertura cutânea para queimaduras e feridas”, garante. Será, no mínimo, um ano de testes em mais de 500 pacientes espalhados pelo País. Se a eficácia for comprovada, em três anos o material pode estar acessível a pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS), estima Marcelo Borges.

HERANÇA

A pesquisa em torno da pele de tilápia como curativo biológico quer ir além dos limites de um hospital. A preocupação dos profissionais envolvidos é gerar benefícios sociais, econômicos e ambientais para o Brasil. “Em larga escala, a demanda por tilápia vai incrementar a renda dos pescadores não só pelo aumento da produção, mas porque eles passarão a lucrar com um material que antes seguia diretamente para o lixo. E a quantidade de resíduo ambiental também vai ser minimizada”, pondera o cirurgião Marcelo Borges.

Atualmente, as tilápias usadas na pesquisa são oriundas do Açude Castanhão, na cidade de Nova Jaquaribara, distante 250 quilômetros de Fortaleza. A pele só é retirada quando o peixe alcança o peso de 1,2 quilo.

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