OPINIÃO | Fonte: O IMPARCIAL

Médicos com nota vermelha

Fonte: O IMPARCIAL

É preocupante. Talvez o adjetivo seja fraco para qualificar notícia divulgada pelo Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) na semana passada. Mais da metade dos médicos formados na mais rica unidade da Federação tiraram nota vermelha no teste a que se submeteram para avaliar o conhecimento adquirido no curso. Em bom português: foram reprovados.

Não é a primeira vez que o resultado acende o sinal de alerta. Desde 2005, quando o exame começou a ser aplicado, a exemplo do que faz a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), o mau desempenho é uma constante. Mas, ao contrário da OAB, o Cremesp não tem o poder de impedir que os recém-formados entrem no mercado de trabalho.

E, conclusão lógica, ponham em risco a vida da população.

Não só. Diagnósticos malfeitos agravam o quadro do paciente, não só porque a medicação prescrita é inadequada mas também porque retardam o tratamento correto. Além disso, sobrecarregam a rede de saúde, já incapaz de responder à demanda crescente, e constituem generosa fonte de desperdício.

É o que se deduz quando se sabe que 70% dos profissionais testados não souberam o que fazer diante de uma crise de hipertensão, doença que acomete a quarta parte da população brasileira; 71% mostraram-se incapazes de identificar e tratar a hipoglicemia de recém-nascido, corriqueiro em bebês; e 80% ignoraram como interpretar uma radiografia ou aplicar os protocolos de tratamento de idosos.

O despreparo promove a corrida a exames laboratoriais ou de imagem desnecessários.

O laudo, em vez de confirmar o diagnóstico, tornou-se o mecanismo para chegar a ele. Ocorre, porém, que raros são os médicos aptos a associar os resultados e chegar a conclusão que permita orientar o paciente para o caminho da saúde.

Segundo o Conselho Federal de Medicina, o Brasil é o país que tem o maior número de faculdades de medicina do mundo – mais de 300. Ultrapassa a Índia, cuja população atingiu cifra superior a 1,3 bilhão de habitantes. A proliferação de cursos, contudo, não se traduziu em melhor prestação de serviço aos brasileiros, porque a maior parte das novas escolas não atende às diretrizes curriculares e aos pressupostos mínimos para a formação do profissional.

Resultado: instituições desqualificadas (a maior parte, sem hospital-escola), aliadas a corpo docente despreparado, entregam à sociedade médicos malformados.

Impõe-se reagir. De um lado, melhorar os métodos de ensino e exigir mais rigor no sistema de avaliação. De outro, ampliar o exame para todo o território nacional.

Mais: o mercado tem de fazer a sua parte.

Faculdades de excelência, como USP, Unicamp, Unifesp e Santa Casa exigem aprovação no teste do Cremesp para credenciar o estudante a disputar residência médica. Há que se premiar a qualidade e corrigir os erros.

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