CIDADES | Fonte: JORNAL DO COMMERCIO

Cada criança no seu ritmo

ACOMPANHAMENTO Aos 2 anos, dizem especialistas, é possível avaliar evolução do paciente com zika e indicar melhor tipo de reabilitação

No 2º dia da série, que vai até segunda-feira vamos conhecer a história de Arthur Cândido, 1 ano e 4 meses, que todas as semanas sai de Caruaru (Agreste), para terapias no Recife. São atividades que têm ajudado o pequeno a alcançar habilidades sociocognitivas.

Nenhuma criança é idêntica a outra. Cada uma tem seu ritmo e deve ser respeitada em seu desenvolvimento. Quem tem filho já ouviu ou falou sobre isso. Ao longo dos primeiros mil dias de vida (e dos subsequentes) dos bebês que nasceram com a síndrome congênita do zika, as famílias também questionam o que podem esperar nos primeiros anos. Elas vão sustentar a cabeça, rolar, sentar, engatinhar e andar? Ou o vírus é tão agressivo a ponto de bloquear esses marcos do desenvolvimento?

“Já é consenso que, quanto mais precoce a infecção pelo vírus na gestação, maiores as interferências na maturidade do cérebro. E a forma como cada criança evoluirá depende do potencial de cada uma. Aos 2 anos, dá para avaliar o prognóstico (evolução). Com base nisso, indicamos o tipo de reabilitação (motor, visual ou cognitivo)”, esclarece a neuropediatra Vanessa Van Der Linden, uma das primeiras especialistas a estabelecer a associação entre o zika e a explosão dos casos de microcefalia.

Com a experiência de quem acompanha cerca de 130 crianças com a síndrome congênita do zika (muitas atendidas no Hospital Barão de Lucena, na Iputinga, Zona Oeste do Recife), a médica chama a atenção para o fato de o vírus – mais que destruir o cérebro – levar a um transtorno no desenvolvimento, o que causa atraso sociocognitivo. “Há crianças com habilidades motoras boas e até andam, mas quando perguntamos pela mãe, elas não identificam.” São casos em que a cognição (processo da aquisição do conhecimento através de percepção, atenção, planejamento e interação) se mostra comprometida.

“Outros pacientes mal sentam porque têm problema motor mais intenso, mas aparentemente a parte cognitiva é boa. Eles interagem e já estão falando. Isso é bom porque, com melhor desenvolvimento cognitivo, é mais fácil ‘organizar’ a coordenação motora”, acrescenta a neuropediatra.

Acometido pela zika, Arthur Cândido, 1 ano e 4 meses, é um dos pequenos que têm habilidades sociais amadurecidas. Fixa o olhar, sorri, reage a estímulos e identifica a mãe, além de adorar usar repertório próprio de ruídos, suspiros e balbucios. E fez tudo isso em consulta, no último mês, no Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (Imip), nos Coelhos, Centro do Recife, onde nasceram 88 dos 437 bebês (casos confirmados) com a síndrome congênita do zika desde o início da mudança no padrão de ocorrência da microcefalia, em agosto de 2015.

“Arthur acompanha (pessoas e objetos), vira em direção ao som e reconhece a mãe. Isso é fundamental para o desenvolvimento. É assim que conseguimos avaliar a parte cognitiva. Percebemos que, apesar de Arthur ter doença séria e grave, com limitações, a cognição é menos comprometida, em comparação a outras crianças com a síndrome”, diz o neuropediatra Lucas Alves, do Imip.

Para o médico, o que mais tem interferido no amadurecimento do menino são convulsões – consequência da extensão dos danos sofridos pelo cérebro por causa da infecção. “Ele tem três crises por semana e vai tomar nova medicação para evitá-las. Se elas forem controladas, os aspectos sociocognitivos de Arthur podem melhorar. Como ele não completou 2 anos, tem uma janela de oportunidades para o desenvolvimento, com reforço na reabilitação”, acrescenta Lucas Alves.

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