CIDADES | Fonte: JORNAL DO COMMERCIO

“Só quero a felicidade dele”

Quando eu engravidei, já se falava sobre microcefalia, mas achei que não iria acontecer comigo. Estava tudo bem até a metade da gestação. Antes disso, só manchas vermelhas na pele tinham aparecido. Coçavam muito e nada mais. Mas, aos 5 meses de gravidez, já estava internada no Imip porque comecei a perder muito líquido (amniótico, importante para o desenvolvimento do bebê). Durante os ultrassons, já se dizia que a cabeça dele era pequena, mas eu não entendia muito bem. Com 35 semanas de gestação, ocorreu o parto (prematuro). Arthur precisou ficar um mês internado, tomando antibióticos. E os médicos analisavam bastante tudo o que meu filho tinha. Desde que fomos para casa, ele já foi internado três vezes por causa de pneumonia. Apesar de todas as dificuldades, a gente vê pelo olhar que crianças como ele querem viver, independentemente de não andarem e não falarem. Arthur mesmo é uma simpatia. A todo instante, está alegre, rindo, interagindo com todos ao redor. Às vezes, estou triste e olho para ele. Tudo passa. Para mim, cada dia vivido é uma vitória; o fato de ele acordar é uma vitória. E Arthur vai mostrando que aprende coisas novas e reage aos problemas. Vejo a microcefalia como algo ainda novo para mim; estou aprendendo aos poucos. Tudo isso me ensinou a ser humilde, a dar valor a coisas pequenas, à nossa casa e à família. É com Arthur que faço todo o meu dia. Ao acordar, ele toma a medicação (para evitar convulsões) e, depois de um tempo, come. Espero ele descansar um pouco e já começo a fazer as atividades de estimulação que aprendi. Brincamos e conversamos muito. Ele gosta de repetir ‘au, au’. Quando vejo que ele está cansadinho, paramos. Também respeito a hora do soninho dele durante o dia. Depois do banho, ele logo dorme tranquilamente. Moro em Caruaru (cidade no Agreste de Pernambuco) e, a cada sexta-feira, venho com ele ao Recife, para as terapias de reabilitação em grupo, com atividades de fono e fisioterapia. Quando precisamos ficar mais de um dia no Recife, dormimos numa casa de apoio. O que mais tem me preocupado é que ele ainda tem muito refluxo e parece que está se esquecendo de comer, mas sempre estimulo para isso não acontecer. Os médicos estão analisando se ele vai precisar usar sonda para se alimentar melhor. Quando penso nesse tempo todo que vivemos, desde o dia em que soube estar grávida, eu só me lembro de uma fase em que fiquei muito abalada. Foi no período que eu passei internada por causa do meu quadro de saúde, pois só pensava em salvar Arthur. Sempre que os médicos falavam ‘ou você ou ele sobreviverá’, eu não cansava de pedir a Deus que deixasse meu filho viver. Felizmente estamos nós dois hoje aqui. E é a felicidade dele a única coisa que eu espero daqui pra frente.

l Rosália Cândido da Silva, mãe de Arthur Cândido, em depoimento a Cinthya Leite

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