NOTÍCIA | Fonte: G1 Pernambuco

Mães adaptam vida para ajudar filhos com microcefalia a se desenvolverem em Pernambuco

Largar o trabalho, os estudos. Mudar a rotina em nome dos filhos. Muitas mães fazem isso, principalmente, nos primeiros meses de vida do bebê. Depois, conciliam tudo e parecem não cansar. Em Pernambuco, existem mães que mudam a rotina por necessidade, e sabem que vai ser assim por anos.

Ao invés de reclamar, sentem-se orgulhosas com as lutas e vitórias diárias dos filhos que nasceram com microcefalia, síndrome congênita do vírus da zika que altera a circunferência do crânio da criança.

Inabela Souza da Silva, Rosilene Maria da Silva, Isabela Albuquerque, Germana Soares, Joana D’Arc Benjamim… Elas ouviram o diagnóstico que nenhuma mãe gostaria de ouvir. “[Disseram que ele] não ia chegar até um ano e, se chegasse, ele iria viver em estado vegetativo, não iria andar, não iria falar”, lembra Germana, mãe de Guilherme.

Rosilene, mãe de João Miguel, também guarda na memória o dia que recebeu a notícia. “[Disseram que] ele tinha microcefalia, que ele não ia viver muito tempo. Nem imaginava ele andar, interagir do jeito que ele está hoje. Para mim é surpresa. Para quem acompanha ele, desde que ela nasceu, também é surpresa e ele só evoluiu.”

Quem poderia imaginar que essas as crianças que nasceram com microcefalia um dia pudessem caminhar? Elas conseguiram o improvável e superaram mais um limite. Andryel é outro exemplo. Cheio de energia, não para um minuto.

Cada conquista das crianças reflete o esforço e a dedicação das mães. Mulheres incansáveis, de uma realidade difícil, mas capazes de reagir diante da necessidade de dar uma vida melhor aos seus filhos.

Cantinho da Grazi

Inabela Souza da Silva, 33 anos, mãe da Graziela, de dois anos e 4 meses, mora numa casa simples, no alto de uma barreira, na Linha do Tiro, Zona Norte do Recife. Lá, tudo gira em torno da Graziela.

Inabela deixou o emprego de vendedora para se dedicar inteiramente à filha, que nasceu com microcefalia. Ela criou um espaço de reabilitação dentro de casa, com dezenas de objetos que servem para os exercícios de estimulação.

“Eu tentei fazer o cantinho da Grazi. Eu fui vendo no centro de reabilitação, onde ela faz [terapia], que eu poderia ter várias coisas dentro de casa, já que lá é uma vez, duas, três por semana. Então eu pensei: ‘eles me ensinam e, eu fazendo em casa, tenho uma dupla estimulação’”, explica.

Diariamente, as duas passam horas repetindo os exercícios. Os estímulos estão dando resultado. “Hoje ela já enxerga o amarelo, o laranja, o verde”, comemora Inabela.

As mães aprenderam com os especialistas que, quanto mais precoce e mais frequente for a estimulação, melhor para o desenvolvimento da criança. É por isso que elas correm contra o tempo para não desperdiçar as chamadas janelas de oportunidade, que é quando o cérebro mais se desenvolve e vai até os três anos de idade.

Rotina de maratonista

É por isso que a agenda do Guilherme é digna de um pequeno maratonista. Ele tem terapias todos os dias. A mais recente é uma intensiva numa gaiola com elásticos e um macacão especial para estimular os movimentos. A germana acompanha cada conquista do filho. “Os avanços de Guilherme são imensos e só está começando”, afirma Germana.

Germana conseguiu atendimento para o Guilherme, mas não ignora o sofrimento de mães que não podem dar aos filhos as mesmas oportunidades. Para ajudar outras famílias, ela criou a União das Mães de Anjos (UMA), uma rede de apoio que envolve 399 mães de crianças com microcefalia em Pernambuco.

“Acaba que essa assistência [do governo] fica para poucos. Para aquelas pessoas que têm um pouco mais de informação e têm um pouco mais de condição de correr atrás. Então, isso me revoltava a um ponto de resolver sair da invisibilidade, daquela postura de solidão, de coitada, de vítima e se tornar uma protagonista da história do meu filho”, explica.

Matheus começou a reabilitação com apenas um mês de vida. Isabela correu atrás das terapias para que o filho pudesse ter uma qualidade de vida melhor. Ele foi o primeiro a frequentar a escolinha e adora. As crianças têm o maior carinho com ele. Esta inclusão é tudo o que uma mãe espera para o filho.

Matheus já consegue ficar de pé sozinho por alguns minutos. O próximo desafio é conseguir andar. No que depender das mães, não há limites.

“Eu quero que ele seja feliz. Se ele viver dez anos comigo, se ele viver mil anos, eu quero que ele seja feliz. Andando, não andando, falando, não falando, que ele viva comigo o tempo que viver”, diz Germana.

“Eu vou para onde ela for. O tempo dela é o meu tempo, eu só vou parar quando a minha filha parar. Enquanto ela não parar, eu também não desisto”, afirma Inabela.

A União das Mães de Anjo precisa sempre de doações. O grupo tem sede na rua André Dias Figueiredo, 152, no bairro do Barro, na Zona Oeste do recife. Outras informações podem ser obtidas pelo telefone (81) 3019-6396.

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