CIDADES | Fonte: Jornal do Commercio

Saúde e educação contra o suicídio

Falar sobre suicídio é delicado, especialmente quando o assunto permeia o universo das crianças e dos adolescentes. Mas é essencial quebrar o silêncio em casa, no trabalho e na escola. Apesar de não ser uma responsabilidade direta dos profissionais de educação, lançar mão de medidas de prevenção também pode ser uma tarefa do professor, capaz de amadurecer o olhar para reconhecer possíveis fatores de risco, conversar com as famílias e sugerir encaminhamento dos casos que precisam de apoio para profissionais de saúde mental, como psiquiatras e psicólogos. Dados da Secretaria de Saúde do Recife revelam que, na faixa etária de 5 a 19 anos, foram notificados 1,1 mil casos de tentativas de suicídio (76% no sexo feminino) entre os anos de 2010 e 2018.

“Na lista das nossas atividades alusivas ao Setembro Amarelo (campanha de conscientização sobre a prevenção do suicídio), está a capacitação de profissionais que não se limitam a áreas da saúde. Estamos fazendo parceria com escolas da rede municipal, pois entendemos que pedagogos podem perceber sinais de alerta em crianças e adolescentes, como isolamento social, depressão e abuso do consumo de bebida alcoólica”, destacou o secretário de Saúde do Recife, Jailson Correia, que participou ontem de encontro sobre o tema, no auditório do Banco Central, em Santo Amaro, área central do Recife.

Na ocasião, foi iniciado o trabalho de capacitação de profissionais da Rede de Atenção Básica, da Saúde Mental e da Secretaria Municipal de Educação.

“Existe o receio de o professor falar sobre o assunto, mas precisamos desconstruir isso. Não é uma tarefa fácil, mas já observamos avidez desses profissionais pela possibilidade de lidar da forma correta com o tema, sem estigmas.

A ideia é somar, multiplicar essa ação com outras já existentes, como as das entidades médicas e a do CVV (Centro de Valorização da Vida).” O secretário alertou para os números, ainda que subnotificados, de mortalidade por suicídio na capital pernambucana. “A cada semana, nove pessoas tentam tirar a própria vida e uma morre por suicídio na cidade. Precisamos agir.”

ALTA TAXA Dados do Ministério da Saúde, divulgados em setembro de 2017, apontam que o suicídio é a quarta causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos. Nessa faixa etária, esse tipo de morte é maior entre os homens, cuja taxa é de 9 mortes por 100 mil habitantes. Entre as mulheres, o índice é quase quatro vezes menor (2,4 por 100 mil). A média nacional é 5,5 por 100 mil. Em números absolutos, Pernambuco é o 10º Estado brasileiro com mais casos de suicídios.

O total de casos acumulados entre 2011 (ano em que a notificação de tentativas e óbitos passou a ser obrigatória no Brasil em até 24 horas) e 2015, no Estado, aponta 1.688 mortes decorrentes do ato – uma média de 337 casos anualmente. Em todo o território nacional, no mesmo período, morreram 55.649 pessoas por suicídio.

“Para mudar esse cenário, é preciso engajar toda a sociedade civil, lutar em prol da prevenção para que desfechos desfavoráveis não aconteçam.

Antigamente falar sobre o assunto era tabu, mas agora sabemos que conversar é essencial. Outras especialidades médicas, além da psiquiatria, estão sendo estimuladas a tratar de tudo o que envolve o tema”, salientou a psiquiatra Milena França, da diretoria da Sociedade Pernambucana de Psiquiatria (SPP), em entrevista ontem ao programa Casa Saudável, da TV JC. Médica do Hospital Ulysses Pernambucano, no bairro da Tamarineira, Zona Norte do Recife, Milena ainda destacou que um dos mitos sociais em torno do suicídio é o fato de que a pessoa com a intenção de tirar a própria vida não avisa nem fala sobre essa possibilidade.

Ela ressaltou que parentes e amigos de pessoas com comportamento suicida devem considerar todos os sinais de alerta que podem indicar que alguém pensa em tirar a própria vida.

AMBIVALENTES “Pessoas em risco têm um sentimento de ambivalência: elas querem morrer e, ao mesmo tempo, não desejam realizar o ato. Nessas situações, se chegarmos para falar com elas com uma abordagem delicada e com empatia, temos a chance de salvar vidas”, disse Milena, reforçando a necessidade de se apagar a ideia de que os casos de morte por suicídio (e as tentativas) estão relacionados à fraqueza ou à coragem. “São situações em que vêm um sentimento de dor inexplicável e um desespero enorme. A pessoa se sente aprisionada. Por isso, é importante estimular a sociedade a falar, a abordar as pessoas (em risco) de maneira que se sintam acolhidas.” O coordenador nacional da campanha Setembro Amarelo, Antônio Geraldo da Silva, ressalta que a prevenção dos casos tem valor imenso. “O suicídio é uma emergência médica e, por isso, é fundamental o papel de todos nesta mobilização, com ações efetivas de orientação sobre o risco”, diz Antônio Geraldo, presidente eleito da Associação Psiquiátrica da América Latina (Apal). “Se alguém tem um pensamento suicida, tem que ser encaminhado para uma emergência médica. É preciso cuidar porque, se nada for feito, a morte certamente vai ocorrer. Também é necessário ficarmos atentos aos transtornos mentais (como distúrbios de humor e uso abusivo de substâncias psicoativas), presentes em quase todos os casos de suicídio“, alerta o psiquiatra.

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