OPINIÕES | Fonte: JORNAL DO COMMERCIO

Sinais de doença da alma

Uma lamentável tragédia familiar em Pernambuco escancara as condições traumáticas de trabalho e sobrevivência de servidores públicos que carregam a mais difícil tarefa social: a segurança de todos. O que aconteceu em nosso Estado – envolvendo uma relação tumultuosa e fatal de um sargento da Polícia Militar e seus filhos – é um dos sintomas mais graves de uma doença da alma resultante da natureza do trabalho e suas circunstâncias em todo o País. É alarmante saber que essa doença vem sendo amplamente diagnosticada em todos os Estados brasileiros há muito tempo e ainda não ocupa um ponto crítico nas preocupações nacionais.

São sinais da doença a depressão, a síndrome de pânico, o alcoolismo, o uso de drogas, a ansiedade, a desesperança, a irritabilidade. Há indicadores levantados por órgãos como o Grupo de Estudo e Pesquisa em Suicídio e Prevenção, tendo como objeto o suicídio policial no Brasil: foram consultados 18.007 policiais militares em 2015, dos quais 650 tentaram suicídio e 3.225 cogitaram o suicídio. Da Associação dos Praças, Policiais e Bombeiros Militares de Minas Gerais, mais sinais de um mal que corrói o corpo de responsáveis pela segurança pública: mais de 20% desses servidores são afastados por problemas psicológicos.

As causas desses males já foram firmadas em pesquisas: segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 76% dos policiais já foram vítimas de ameaças em decorrência da profissão e 70% tiveram colegas mortos em serviço. Qual outra profissão está sujeita a esse clima de terror? Como imaginar que seus agentes sobrevivam em condições normais? Não é fator evidente de instabilidade emocional o agente público ter que andar armado mesmo quando está de folga, para se defender e proteger a família? A Associação dos Cabos e Soldados da Polícia e Corpo e Bombeiros Militar do Amazonas trabalha com informações que devem estar presentes em todas as associações similares no País, por serem evidentes: o desgaste físico e mental, os riscos da profissão e a falta de equipamentos necessários são responsáveis pelos inúmeros policiais sofrerem com transtornos mentais. O Grupo de Estudo e Pesquisa em Suicídio e Prevenção, nascido em colaboração com a Polícia Militar do Rio de Janeiro e Universidade do Rio, dá como fator facilitador dos suicídios o acesso a armas de fogo.

Isso leva a uma reflexão da maior urgência: o presidente eleito acenou durante a campanha eleitoral com o propósito de facilitar o uso de armas de fogo pelos “homens de bem”, o que constitui uma grave possibilidade, já a partir de 2019, do fim do Estatuto do Desarmamento. Quando agentes públicos treinados e autorizados por lei a portarem armas são vítimas delas matando ou sendo mortos – em 2017 foram mortas por policiais 5.012 pessoas e 385 policiais foram assassinados – o que esperar de uma sociedade estimulada a andar armada, criando-se uma tolerância nacional de excludente de ilicitude com base no artigo 23 do Código Penal?

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