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Definir um salário mental e fazer o bem

Fonte: Jornal do Commercio

cinthyaleite@casasaudavel.com.br

Certamente a lição de mais excelência e abnegação que o professor e médico Fernando Figueira deixou para os discípulos foram os ensinamentos sobre “salário mental” – a maior recompensa que a medicina social, plantada no Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (Imip), pagava aos seus profissionais. Em artigo publicado neste JC , no dia 30 de abril de 2010, o médico e ex-presidente da instituição Gilliatt Falbo, atualmente coordenador acadêmico da Faculdade Pernambucana de Saúde (FPS), relata o primeiro contato com o professor, que o apresentou a esse tipo de recompensa. “Para se compreender o valor dessa moeda se carece de consciência, amor, compaixão e muitas vezes de tempo. Tempo”, escreveu Gilliatt Falbo para explicar como o “salário mental” é aquele que só se presta para fazer o bem.

O médico Otelo Schwambach, 77 anos, um dos primeiros a fazer residência pediátrica com Figueira, relembra com carinho como o professor fazia menção a esse tipo de gratificação. “Ele dizia que todos nós precisamos ter o nosso salário mental, que recebemos sempre que fazemos aquilo que nos agrada e nos faz bem. O meu é ir a Chã Grande (município do Agreste de Pernambuco) todas as sextas-feiras. Na cidade, trabalho como voluntário num posto de saúde atendendo as crianças e suas famílias. Elas ficam extremamente felizes com essa assistência, que não difere em nada da que dou aos meus pacientes do consultório particular. Estou certo de que é um trabalho que faz mais bem a mim do que a elas”, relata Otelo Schwambach sobre a forma com que retribui todos os ensinamentos que recebeu do professor.

Também discípulo de Figueira, o pediatra Marcello Pontual, 76 anos, contemporâneo de Otelo, chegou ao Imip em 2 de janeiro de 1966. Desde então, nunca tirou o pé do instituto, do qual é voluntário até hoje. Pela admiração que tem pelo mestre e seriedade do trabalho realizado no Imip, continua a atender no Ambulatório de Nefrologia Pediátrica às segundas e quartas-feiras pela manhã. “O professor me deslocou para o serviço. Fui ficando por necessidade e depois veio uma paixão imensa pelo o que eu fazia”, conta Marcello Pontual, que também alimenta o seu “salário mental” às sextas, quando são realizadas as reuniões clínicas no Imip. “Tenho que retribuir à sociedade tudo aquilo que dela recebi em excesso. E faço questão de lutar para manter a ideia viva do professor, com foco no trabalho social que ele tanto valorizou”, acrescenta.

O pediatra João Guilherme Alves, 64 anos, diretor de Ensino do Imip, também só exala admiração ao falar sobre Figueira, de quem segue doutrinas desde os tempos de faculdade. “Já nos primeiros contatos com o professor, o encanto foi tamanho que nem sei explicar. Tive o privilégio de diariamente ele me chamar para conversar. Com ele, aprendi que não precisamos saber só de medicina. O professor era firme ao dizer que o médico tem o compromisso de conhecer a sociedade em que vive. Então, ele chamava profissionais de outras áreas para ministrar aulas”, diz João Guilherme. Ele conta que até dom Helder Camara (arcebispo emérito de Olinda e Recife) era convidado para conversar com os residentes. Apenas 30% do corpo docente, segundo recorda, eram compostos por médicos. “Os demais professores convidados eram sociólogos, antropólogos, economistas, psicólogos e filósofos”, diz João Guilherme sobre o pioneirismo de Figueira ao desenvolver uma reflexão interdisciplinar e crítica do processo saúde/doença nas dimensões sociais, econômicas e políticas.

“Ele dizia que o médico que só sabe medicina sabe muito pouco. Por isso, deveria contar com conhecimentos humanísticos para se compreender as verdadeiras causas das doenças”, salienta João Guilherme, sem deixar dúvidas de que, para se sensibilizar à dor alheia e praticar a solidariedade louvada pelo professor, também é necessário se debruçar em tratados não médicos.

Profissionais de

outras áreas eram convidados a falar

aos alunos para que a visão deles não ficasse restrita à medicina

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