MATÉRIA ESPECIAL DESTE DOMINGO (16/06) | Fonte: Jornal do Commercio

Uma ameaça à dignidade

A superlotação nas maternidades de Pernambuco tem transformado cadeiras de acompanhante e ambulância em leitos para as mulheres darem à luz um bebê. É uma ameaça ao direito de nascer com dignidade, em ambiente seguro com instalações bem equipadas e com equipes profissionais sem sobrecarga de trabalho. A denúncia é do Sindicatos dos Médicos de Pernambuco (Simepe), que está em campanha pelas vidas de gestantes e recém-nascidos nas unidades da rede pública do Estado.

Do interior à capital pernambucana, segundo o órgão de classe, são necessárias melhorias urgentes na assistência materno-infantil, que tem sofrido com problemas graves nos serviços de risco habitual (atendem casos em que mãe e filho não apresentam problema de saúde) e nas maternidades de alto risco – aquelas que recebem gestante com possibilidade ter parto prematuro ou de ter complicações decorrentes de alguma doença, como diabetes ou hipertensão. “A taxa geral de ocupação das maternidades do Estado chega a 200%, mas se isolarmos por serviço, esse índice chega a 300% em algumas unidades. O mais grave é que esse percentual é uma constante. Não é um evento isolado, é uma rotina. Na primeira sexta-feira deste mês, uma colega informou que uma maternidade na capital estava com 15 mulheres. Dessas, seis em pé. Isso é lamentável”, destaca a obstetra Cláudia Beatriz Andrade, presidente do Simepe.

A médica reforça que tem acompanhado o cenário com bastante preocupação e que já acionou várias instituições para fazer denúncias e também levar propostas para melhorar a assistência desde o pré-natal. Em maio, a movimentação do órgão de classe começou a ganhar mais força, quando solicitou reunião com o Conselho Regional de Medicina de Pernambuco para dar voz a médicos da rede estadual de saúde, que denunciaram piora da superlo-tação das maternidades de alto risco naquele mês. Os profissionais sinalizaram falta de espaço, inclusive nos corredores, para atendimento nos Hospitais Barão de Lucena (no bairro da Iputinga, Zona Oeste do Recife) e Agamenon Magalhães (na Tamarineira, Zona Norte da cidade).

“Do jeito que está, não pode continuar. A mulher tem o direito de ter o bebê com dignidade. Sim, esse cenário passa por uma questão de (falta de) dignidade humana. Não tenho dúvidas de que, a qualquer momento, há mulheres em cadeiras de roda ou no chão no Cisam (Centro Integrado de Saúde Amaury de Medeiros, no bairro da Encruzilhada, Zona Norte). Além de tudo, esse cenário deixa os profissionais em um nível de estresse altíssimo”, frisa o médico André Dubeux, segundo secretário do Cremepe.

CEGONHA

Ele toca num ponto que vem sendo discutido durante reuniões com diretores de maternidades ligadas às gestões estaduais e municipais: a estratégia de vinculação, que faz parte da Rede Cegonha – iniciativa do Ministério da Saúde cuja finalidade é organizar a atenção à saúde materno-infantil no País. Para os especialistas, essa é uma proposta que atualmente não sai da teoria, mas que precisa ser colocada em prática. É fundamental, diz ela, garantir o direito da gestante conhecer e estabelecer vínculo antecipado com a maternidade em que receberá assistência no parto e no puerpério (período de 45 dias após a mulher dar à luz um bebê). “A gestação tem hora para começar e terminar. É um evento previsível. Não tem por que as autoridades não organizarem essa rede”, acrescenta André Dubeux.

O secretário de Saúde de Pernambuco, André Longo, revelou preocupação com a rede materno-infantil desde o início de sua gestão, em janeiro, quando garantiu que a assistência a essa área é prioridade. Ele informa que, para mudar a atenção ao parto, é necessário investir na assistência através de cooperação com os municípios e evitar que as gestantes saiam do interior para maternidades da capital.

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