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Zika atrasa desenvolvimento

Fonte: Jornal do Commercio

Um estudo desenvolvido por um grupo de pesquisadores de diversas instituições no mundo, incluindo o Brasil, revela que cerca de 30% das crianças expostas ao zika durante a gestação, que nasceram aparentemente saudáveis (sem microcefalia, por exemplo), podem apresentar atraso no desenvolvimento ao longo da primeira infância. A pesquisa, publicada segunda-feira (8) na revista científica Nature Medicine, traz resultados da evolução de 216 crianças que foram acompanhadas desde o período em que suas mães tiveram confirmação laboratorial de zika durante a epidemia de 2015 e 2016 no Rio de Janeiro.

O trabalho mostra que 31,5% das crianças entre 7 e 32 meses de vida tiveram neurodesenvolvimento abaixo da média e/ou avaliações auditivas ou visuais anormais. Distúrbios comunicativos foram os mais frequentes, afetando 35% de 146 crianças analisadas. “Os resultados mostram que esse grupo (exposto ao zika na gestação e sem microcefalia) precisa ser examinado periodicamente porque, se identificarmos atraso de desenvolvimento precocemente, essas crianças podem se beneficiar com estimulação”, diz a pediatra e pesquisadora da Fiocruz do Rio de Janeiro, Maria Elisabeth Moreira, uma das principais autoras do trabalho.

Com base nesses achados, ela destaca a importância de se acompanhar essas crianças até a idade escolar. “Se observarmos atraso de aprendizado, podemos fazer encaminhamento para estimula-ção correta em centros adequados. O grupo de crianças que participa da nossa pesquisa será acompanhado até o terceiro ano de vida, mas estamos conversando com as mães para continuarmos o estudo até os 7 anos de idade”, frisa.

O trabalho ainda menciona o caso de duas crianças que nasceram com microcefalia sem necessariamente apresentar desenvolvimento anormal do cérebro pela infecção do zika. No segundo ano de vida, ambas tiveram resultados normais em exames neurológicos, avaliações auditivas e oftalmológicas. “Elas nasceram com redução de perímetro cefálico por causas específicas. Uma delas tinha uma diminuição de crescimento intraútero, mas não necessariamente uma destruição do parênquima (tecido) cerebral pelo vírus. A outra criança tinha uma patologia que chamamos de craniossinostose (condição em que há fechamento precoce dos ossos do crânio do bebê), o que era passível de uma correção cirúrgica”, explica Maria Elisabeth.

A pesquisadora reforça que ambas as crianças foram expostas ao zika dentro do útero, mas provavelmente não chegaram a ser infectadas. “Elas não apresentavam a microcefalia típica das crianças afetadas pelo vírus. Ou seja, não tinham a destruição do parênquima cerebral nem mesmo alteração nos exames de imagem (cerebral). Não se trata de uma reversão da microcefalia causada pelo zika, pois essas crianças muito provavelmente podem não ter sido infectadas; apenas foram expostas”, salienta Maria Elisabeth.

8 das 216 crianças, de mães que tiveram diagnóstico laboratorial positivo de zika na gestação, apresentaram microcefalia. Entre elas, duas que provavelmente podem não ter sido infectadas; apenas expostas dentro do útero ao vírus

3 crianças expostas ao zika dentro do útero, que nasceram aparentemente saudáveis, apresentaram sinais do transtorno do espectro autismo no segundo ano de vida, segundo o mesmo estudo publicado na Nature Medicine

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