OPINIÃO | Fonte: Jornal do Commercio

Rostand Paraíso (1930-2019)

Fonte: Jornal do Commercio

FÁTIMA QUINTAS

fquintas84@terra.com.br

Hora de reflexão; de externar sentimentos sem medo de íntimos desabafos. Há momentos na vida que a palavra é insuficiente para falar da dor que invade o peito. Confesso a minha dificuldade em traduzir a emoção que agora se me abate. Rostand Paraíso partiu na noite de 9 de julho como uma nuvem que se move no céu, mas que se perpetua na beleza da difusa rotatividade. Vejo-a distante, não posso tocá-la; escuto, entretanto, o murmúrio que advém do silêncio meditativo. Entre sussurros interiores, a lágrima desce. Então sou capaz de unir as mãos e rezar uma prece de lembranças.

Foi assim, Rostand. Conversamos muito na tarde de segunda-feira, véspera da sua despedida. Rosto sereno, olhos atentos, frases amenas. Nunca o vi em descompasso, sempre a contornar o próprio destino, envolto na chama da paz. Conseguia reverter as difíceis circunstâncias, distante de inúteis reverberações.

Chegava cedo às sistemáticas reuniões da Academia Pernambucana de Letras. Sentava-se à mesa redonda da secretaria, aguardava a chegada dos companheiros. Ao descer do carro, eu já o procurava para o bate-papo inicial. Polidez inenarrável, íntegro, ético, pleno de carinho, trazia com frequência novidades ou recorria ao passado como se lá atrás, na gruta da recordação, habitassem segredos e dogmas. Certa vez me disse “Sou indisciplinadamente disciplinado”. Amava a rotina. Considerava-se romântico, por vezes, pragmático. Sua Pasárgada? Uma cidadezinha ao norte de Portugal.

Um dia indaguei: “Que livro gostaria de escrever que ainda não escreveu?” Respondeu sem tergiversar: “Acho que escrevi sobre tudo que gostaria. (…) Ouço já o toque de recolher, título, aliás, do meu 15º — e, provavelmente, o último — livro”. Médico exemplar, escolheu a Literatura na travessia do Sonho. E os devaneios cresceram na linguagem bela, simples e definitiva de seus escritos.

Três filmes o marcaram: “Perfume de Mulher”, “Meia-noite em Paris” e “Casablanca”. A conversa prosseguia em um à vontade extraordinário. Sentia ele prazer em dialogar, ainda que se guardasse num refúgio jamais revelado. Dotado de inúmeras virtudes, pleno de sabedoria, nunca relaxou a intensa dignidade. Dois aspectos chamavam a atenção na sua timidez diuturna: a prudência e o silêncio. Ambos em comunhão reservada, a enobrecer a discrição dos dias.

A saudade me traz o vazio da ausência. Olho a nuvem, ela continua no céu. Dou adeus. E de longe, ouço a introvertida confissão: “Fátima, viver é confiar no mistério”.

l Fátima Quintas é da Academia Pernambucana de Letras

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