BRASIL | Fonte: Correio Braziliense

40 anos de evolução em transplante

Há 40 anos era realizado no Brasil o primeiro transplante de medula óssea, ou de células-tronco, utilizado para tratar doenças oncohematológicas, hematológicas, imunológicas e hereditárias. Desde a primeira vez em que o procedimento foi feito, em Curitiba, pelos hematologistas Ricardo Pasquini e Eurípedes Ferreira, houve um aumento exponencial do número de transplantes realizados e hoje o Brasil tem o terceiro maior banco de voluntários para doação no mundo.  Há, atualmente, quatro milhões de pessoas cadastradas para doar medula óssea. O Registro Nacional de Doadores Voluntários de Medula Óssea (Redome) foi criado em 1993, para reunir informações de pessoas dispostas a doar medula óssea para quem precisa de transplante.

Nos últimos anos, também houve a chegada de novos medicamentos e modalidades terapêuticas utilizadas no tratamento de doenças que afetam as células do sangue, anteriormente consideradas incuráveis, como leucemia e linfoma. Brasília sediou, na última semana, o XXIII Congresso da Sociedade Brasileira de Transplante de Medula Óssea, com autoridades nacionais e internacionais debatendo a modernização das técnicas para tornar o procedimento cada vez mais seguro e como melhor tratar os pacientes.

O transplante haploidêntico é outra modalidade inovadora que se tornou uma alternativa para pacientes que não encontram doador compatível. Neste caso, o doador deve ser alguém da família, de preferência pai, mãe ou irmãos, que tenha pelo menos 50% de compatibilidade com o receptor. Nos primeiros transplantes haploidênticos, a medula era colhida do doador e levada para o laboratório onde se retirava um tipo de célula chamada linfócito, que poderia atacar o corpo do paciente, reconhecendo-o como estranho.

Além de caro e demorado, a técnica levava a outro problema. O paciente ficava sem essas células, que servem para defendê-lo contra infecções, até mesmo as mais simples, como gripe. A novidade, que barateou e melhorou os resultados desse tipo de transplante, é dar para o paciente a medula do jeito que ela é colhida e deixar que ela reconheça o paciente como estranho. Três dias depois, é injetado um medicamento quimioterápico que age, principalmente, sobre as células que estão se multiplicando.

Compatibilidade De acordo com o presidente da Sociedade Brasileira de Transplante de Medula Óssea e coordenador de Hematologia e Transplante de Medula do Hospital Israelita Albert Einstein, Nelson Hamerschlak, a evolução do procedimento é revolucionária. “A chance de encontrar alguém 100% compatível fora da família é de 1 em 20 mil. Dentro da família, tem 25% de chance. Se no passado era muito difícil encontrar um doador pela dificuldade de compatibilidade, hoje é praticamente impossível você deixar de fazer um transplante por falta de doador”, diz.

A paciente Luciene Ferreira, de 46 anos, foi a primeira a realizar o procedimento na rede particular em Brasília. Com um quadro de anemia aplástica grave, ela teve o suporte e a mobilização de uma grande equipe no Hospital Brasília para realizar o procedimento. A doadora foi a irmã mais nova de Luciene, de 43 anos.

“Foi um sucesso. Eu fiquei até surpresa, poderia ter inúmeras reações e tive muito poucas. Eu me senti muito segura, a minha irmã estava mais tensa do que eu, com medo de ter algum problema nos exames e ela não poder ser a minha doadora. Mas, graças a Deus, deu tudo certo”, afirma. “Passamos por um processo de quase três meses de exames e, quando soubemos que estava tudo bem, realizamos o transplante. Também fui bastante preparada e estava ciente das chances, mas venho me recuperando muito bem”, acrescenta a paciente, que voltou para casa há dois meses.

LegislaçãoA terapia celular é o que há de mais novo no tratamento de doenças hematológicas. O novo tipo de abordagem não é um produto que está na prateleira, consiste na coleta das células que são mandadas para a indústria farmacêutica, modificadas geneticamente e devolvidas para a reinjeção no paciente. Além de um tratamento caro, o Brasil ainda esbarra com problemas da infraestrutura e legislação para a sua implantação.

“O grande empecilho que não deixa essas tecnologias entrarem no país são as adaptações que precisam ser feitas nas leis. Além de serem caríssimas, mesmo em países desenvolvidos, o acesso é difícil de ser abordado, fora os ajustes regulatórios. Como é muito novo, a legislação não prevê, mas vem sendo discutida no Ministério da Saúde a viabilização de entrada de tratamento dessa estratégia no Brasil”, explica a coordenadora da unidade de transplante de medula óssea do Hospital Brasília, Andressa Melo.

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