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A saúde na era digital volta ao básico

Fonte: Estadão

É irreversível. Vivemos, corpo e mente, mergulhados em tecnologia de forma cada vez mais profunda e radical. Hoje, tudo passa pelo celular e pela conectividade – dentro dos hospitais, consultórios médicos e salas de aula, não seria diferente. A telemedicina , termo amplo que designa justamente as novas formas de mediação entre profissionais da saúde e pacientes, tem revolucionado a saúde pública de forma radical.

No Brasil, a primeira tentativa de regulamentar práticas de teleatendimento médico pelo Conselho Federal de Medicina (a resolução 2.227/18) foi aprovada em fevereiro de 2019 e derrubada no fim do mesmo mês, por mobilização dos próprios médicos, que afirmaram não ter sido consultados. É muita mudança em jogo, trazendo dúvidas de toda sorte. Pôr para funcionar as novas ferramentas tecnológicas em um país carente com dimensões continentais, onde faltam médicos, postos de saúde e água tratada, por exemplo, é desafiador. A integração entre a tecnologia e o foco na atenção primária podem ser a chave para assistir melhor a população, afirmaram os convidados palestrantes no Estadão Summit Saúde 2019 .

Nas salas de aula. Atenção primária é saúde em estado bruto: ações e estratégias que antecedem o atendimento médico e hospitalar propriamente dito. Identificação e prevenção de doenças, triagem dos casos e encaminhamento às unidades de atendimento, além do esclarecimento de dúvidas, fazem parte de seu escopo.

Nos cursos de Medicina, o debate e o ensino da atenção primária ganharam espaço nos últimos dez anos. Apesar de a especialização na área de saúde da família e comunidade só ser feita durante a residência (não obrigatória), a grade curricular passou a incluir disciplinas sobre o assunto, como explica o presidente da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade, Daniel Knupp, que participou do evento.

“O ensino da atenção primária é importante desde o início da graduação, uma vez que o aluno de Medicina precisa desenvolver um rol mínimo de competências para o exercício da profissão.” Knupp diz que as faculdades particulares saíram na frente no processo de readequação da grade curricular. A maior parte dos cursos, atualmente, dedica de um a dois semestres dos seis anos da graduação para abordar temas relacionados à atenção primária.

Segundo Knupp, as faculdades públicas e as com cursos tradicionais têm levado mais tempo para se adaptar. Acabam formando mais especialistas. Ele acredita que um dos motivos é o fato de haver poucos professores com formação na área de saúde de família nessas instituições. “Temos 3 mil vagas para residentes em medicina de família por ano no Brasil, o que dá 10% do total de vagas de residentes“, diz Knupp. “Em países como Canadá, Espanha e Portugal, os números variam de 30% a 50%. Estamos no patamar dos EUA. É razoável por não ser obrigatório, mas é o mínimo.”

Interesse renovado. A coordenadora do curso de Medicina da Universidade de Santo Amaro (Unisa), Jane Armond, que esteve no Summit Saúdecomo ouvinte, conta que, quando começou a dar aulas, 30 anos atrás, o interesse dos alunos pelo tema era pequeno. “A maioria queria se especializar em uma área que remunerasse bem. O cenário tem mudado e os alunos, desde o começo do curso, passam a ter contato com essa frente e a frequentar Unidades Básicas de Saúde (UBS). Eles ganham experiência e não precisam chegar à residência para vivenciar o dia a dia de um médico.”

Apesar da pouca sincronia entre os currículos das universidades particulares e públicas na área de atenção básica, as públicas têm apresentado iniciativas de relevo. O câmpus de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP) conta com o Centro de Atenção Primária, que tem como principal o objetivo reforçar a educação nessa área, independentemente do semestre em que o aluno esteja.

No câmpus de Santos (SP) da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), no Programa de Residência Multiprofissional de Atenção à Saúde, e na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com o Laboratório de Estudos em Atenção Primária, o foco está mais voltado a médicos em residência.

Já a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) organiza desde 2017 a Mostra de Atenção Primária à Saúde e estimula futuros médicos a contarem as experiências vividas dentro do Sistema Único de Saúde (SUS) em Belo Horizonte. Em Salvador, a Universidade Federal da Bahia (UFBA) também investe em atenção primária por meio do Instituto de Saúde Coletiva, que, além do atendimento à população, busca formar profissionais voltados à área.

Mais saúde, menos doentes. O investimento em atenção primária no ambiente corporativo também vem mostrando resultados positivos. De acordo com Sidney Klajner, presidente do Hospital Israelita Albert Einstein, esse tipo de ação é oferecida a cerca de 14 mil colaboradores da instituição, além de seus 16 mil dependentes.

Klajner conta que investir em prevenção entre os funcionários e seus parentes fez cair em 20% a busca por consultas médicas e por internações. “Usamos essa nossa expertise em tecnologia e organização e, além da melhoria interna, passamos a oferecer esse serviço para outras companhias, ampliando para cinco unidades de atenção primária do Einstein dentro da cidade de São Paulo. Até o fim de 2019, planejamos abrir mais duas”, revela.

Ele ainda defende que a orientação correta, o manejo de doenças crônicas e a promoção e prevenção da saúde melhoram a eficiência do sistema de saúde. “O paciente tem o dever do autocuidado”, enfatiza Klajner.

Antes do especialista. O Hospital Sírio-Libanês também passou a concentrar esforços na promoção da atenção primária. De acordo com Paulo Chapchap, diretor-geral da Sociedade Beneficente de Senhoras da instituição, esse cuidado consegue resolver de 80% a 85% dos problemas de saúde.

O Sírio mantém, em parceria com o Ministério da Saúde, o Regula+Brasil. O programa atua como um ente regulador entre o atendimento na atenção básica e o encaminhamento para consultas de média e alta complexidade.

“O paciente que necessita do encaminhamento especializado passa de imediato por uma avaliação feita por uma equipe de médicos, que participam do núcleo remoto de regulação proposto no projeto”, explica Chapchap. “Esses profissionais, de forma integrada a uma rede de telemedicina, avaliam o caso do paciente a partir de protocolos de saúde, com o objetivo de acelerar o processo de direcionamento aos ambulatórios especializados.”

No encaminhamento, os médicos já indicam a prioridade do caso dentro de uma escala que vai de um a quatro, de acordo com a gravidade da condição. A ação permite ainda que, em caso de dúvida sobre diagnóstico ou exames, os médicos do núcleo remoto de regulação entrem em contato com o profissional da Unidade Básica de Saúde (UBS) para discutir o caso. A medida evita que o paciente seja encaminhado de forma desnecessária ao especialista, além de reduzir filas de espera no atendimento.

A atenção primária também é oferecida pelo hospital a empresas por meio do programa Saúde Corporativa, que designa profissionais para cuidar da saúde dos funcionários e de seus dependentes, acompanhando-os no decorrer da vida. Esses médicos têm acesso a todo o histórico de saúde dos colaboradores, o que facilita na tomada de decisões e aproveitamento melhor da consulta.

A relevância da declaração de Alma-Ata. Até 1978, a atenção primária não figurava entre as principais frentes de atuação dos órgãos de saúde. Foi neste ano que, após a Conferência Internacional de Cuidados Básicos de Saúde, realizada na cidade de Alma-Ata, no Casaquistão, a comunidade médica passou a se interessar mais pelo tema. Daniel Knupp acredita que a atenção primária se desenvolve em tempos de crise e em regiões e países em que os serviços de saúde são mais frágeis. O momento atual é propício à volta da atenção básica. “O Brasil possui um ótimo exemplo, que é o programa Saúdeda Família. Com 30 anos de funcionamento e apesar de todas as dificuldades, vem apresentando resultados muito bons”, diz Knupp. “Desde sua criação, em 1990, o Sistema Único de Saúde também vem contribuindo para o crescimento da atenção primária mais resolutiva, que ajuda a romper a imagem do médico especialista. Aqui, ele não precisa resolver problemas. Ele precisa é cuidar da pessoa.”

Três perguntas para Fábio Ortega. Um dos criadores do canal Doutor Ajuda, que traz explicações sobre doenças com foco em prevenção, Ortega participou do Summit Saúde em painel sobre comunicação e empatia.

1. Quais os desafios da saúde na era digital? No sistema público, sem dúvida nenhuma o principal desafio é integração: posto de saúde, centro de saúde e hospital público precisam estar integrados pela informática. Dessa forma, as informações podem alimentar bancos de dados que, em um futuro não tão distante, podem ajudar a construir ferramentas de inteligência artificial. No sistema privado, é preciso entender que, com a aquisição de prontuários eletrônicos e mais tecnologia de análise de gastos, haverá melhoria na estimativa dos custos e um melhor entendimento sobre os gastos na saúde. Em suma, a maneira de ser médico vai mudar.

2. Como o Brasil deve enfrentá-los? O Brasil tem um sistema de saúde ruim e grande parte dessas inovações vem para melhorar. Mas existe um problema no País, no dinamismo de várias áreas. Há problemas políticos, corporativos e jurídicos, que podem atrapalhar tudo isso. O ideal é que fôssemos tão dinâmicos quanto as próprias inovações.

3.O que levou do evento? Foi muito melhor do que eu imaginava. Gostei da abrangência do Summit. Isso faz com que todo mundo que trabalhe com saúde tenha uma noção do que virá e possa se preparar para o que vai acontecer. No fim, a sensação que dá é de que a saúde vai passar por uma revolução, do ponto de vista macro. Como coordenador do Canal Doutor Ajuda, nossa missão é sermos agentes transformadores. Levo comigo várias ideias e projetos que podem ampliar nosso escopo de atuação.

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