CIDADES | Fonte: JORNAL DO COMMERCIO

Mães reivindicam direitos

Fonte: JORNAL DO COMMERCIO

Mães de crianças com síndrome congênita do vírus zika se reuniram ontem, no bairro de Peixinhos, em Olinda, para cobrar mais assistência do poder público. De acordo com as mulheres, o fornecimento do leite para os dez meninos que se alimentam por sonda está irregular desde abril. Na última segunda-feira (9), representantes da prefeitura se reuniram com elas e prometeram comprar um lote emergencial de 127 latas do produto até amanhã (12). Ainda segundo elas, a gestão teria alegado que a demora no abastecimento é decorrente do processo de licitação. Por nota, o município respondeu que “a licitação para a compra do leite está em curso normal”.

As famílias não recebem o alimento desde junho, quando administração entregou emergencialmente 127 latas. Antes disso, foram três meses sem o suplemento, que equivale a uma dieta completa. Por conta da falta do produto, o jeito está sendo recorrer a comidas sem o mesmo valor nutricional, como o leite comum, vitaminas, caldo de feijão, achocolatado e até iogurte.

É o caso do pequeno Danilo Miguel, 3 anos, que precisa fazer 6 refeições por dia. “Eu me muito sinto triste e constrangida em vê-lo depender de uma sonda e não ter o suplemento. Já faz um tempo que está nessa compra emergencial, mas não chega. Na última vez, eles só deram 14 latas. De junho até aqui a gente não pegou mais”, disse Ana Paula Albuquerque, 39 anos.

Segundo a gastropediatra e presidente da Sociedade de Pediatria de Pernambuco (Sopepe), Kátia Brandt, uma alimentação incompleta pode acarretar em desnutrição. “A criança desnutrida não tem imunidade nem condição muscular satisfatórias, e em função disso tem maior risco de infecção, problemas respiratórios e musculatura mais frágil.”

As matriarcas pedem maior ação do poder público. É o governo que elas responsabilizam pela condição dos filhos. Transporte para terapia, fraldas descartáveis, seringas, gazes, soro, equipo, e frascos de dieta são algumas das demandas que, não atendidas pelo município, têm de ser arcada com o salário mínimo que ganham do benefício de prestação continuada (BPC). Só a bisnaga usada na sonda de gastrostomia, por exemplo, custa R$ 3 e tem que ser descartada a cada uso.

O que mais pesa, no entanto, é o transporte. Para chegarem às unidades de saúde, muitas em outros municípios, enfrentam sol quente e superlotação dos ônibus. “Algumas mães que deixaram de fazer terapia por isso”, revela Jaqueline Vieira, mãe de Daniel. Com ele, ela se desloca de Peixinhos, em Olinda, até o Barro, na Zona Oeste do Recife, uma média de duas horas e meia de viagem. “Ele já chega cansado, estressado, às vezes com crise convulsiva porque não consegue tomar o remédio na hora certa.”

SUFOCO

Rosana Xavier, 30, tem dois filhos e ninguém para cuidar do mais novo. Daí precisa levá-lo junto para o tratamento da primogênita, Maria Klara, 4, no Centro de Reabilitação, em Bairro Novo. A filha da amiga Aline Nascimento, 25, é atendida no mesmo dia e no mesmo lugar. Os ônibus, no entanto, só têm espaço para uma cadeira de rodas, e passa a cada 40 minutos. “Como ela tem dois filhos, eu deixo ela ir primeiro e ando até a pista para pegar outro”, conta.

“Do BPC (benefício) se compra leite, fralda, o alimento da casa, paga a energia. No caso a gente não vive, tenta sobreviver, porque com esse dinheiro não dá para suprir a casa e uma criança com necessidades especiais”, desabafa Jaqueline Vieira, 28, que cuida sozinha de Daniel, 3 anos.

Gostou ? Então deixe um comentário abaixo.

Clippings