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Boca e glicemia descontroladas

Reportagem: Paloma Oliveto Fonte: Correio Braziliense

Nas manhãs de quarta-feira, a clínica de Odontologia do Hospital Universitário de Brasília (HUB) recebe pacientes que, além do tratamento dentário, fazem acompanhamento do diabetes. A relação da doença endocrinológica com problemas bucais é uma das mais bem-estabelecidas em pesquisas que investigam o impacto da periodontite e das cáries no organismo como um todo e vem sendo estudada há mais de meio século. O Projeto Diabetes, iniciado em 2005, não apenas presta um serviço clínico à população, mas tem ajudado a entender melhor os mecanismos por trás dessa associação e já resultou em artigos publicados em revistas científicas internacionais.

Dez professores, cinco especialistas e 10 pós-graduandos participam do projeto de extensão, que atende a uma média de 100 pacientes. “Quando começamos, era um projeto bem menor. Mas percebemos que ele não poderia se resumir ao atendimento clínico. Por isso, foram sendo inseridas diferentes abordagens científicas”, explica a coordenadora, professora Maria do Carmo Machado Guimarães. Ela conta que, atualmente, há nove pesquisas em andamento. Algumas tiveram resultados preliminares publicados e apresentados em congressos, enquanto outras estão em fase de publicação.

Um dos estudos que deve ser divulgado em breve em uma revista internacional investiga os níveis de citocinas inflamatórias em diabéticos com doença periodontal. A pesquisa, da aluna de mestrado Mariana Caldas de Oliveira Mattos, avalia os marcadores de inflamação na saliva e no plasma dos pacientes. “A periodontite é a sexta maior complicação do diabetes. Já se sabe que a melhora do controle glicêmico também melhora a doença periodontal, mas queremos ver o inverso”, explica a estudante da pós-graduação. “A ideia é descobrir se o tratamento periodontal consegue melhorar o controle glicêmico”, diz.

A pesquisa envolve 47 pessoas, divididas em quatro grupos: saudáveis (para comparação), pacientes só com diabetes, pacientes só com periodontite e aqueles com ambas as condições. Exames de sangue e saliva que serão avaliados por uma equipe da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) do Rio de Janeiro permitirão descobrir se a redução das inflamações características da doença bucal terão impacto sobre as taxas de glicemia das pessoas com diabetes.

De acordo com um artigo da Associação Dental Norte-Americana, estudos internacionais realizados nos últimos 50 anos indicam que o risco de desenvolver cárie, gengivite e periodontite é maior em pacientes com diabetes que têm controle glicêmico pobre; aqueles que fazem um manejo adequado da doença apresentam menos problemas bucais. A Terceira Pesquisa Nacional de Saúde e Nutrição dos Estados Unidos, que incluiu milhares de pessoas, mostrou que diabéticos com taxas descontroladas têm até três vezes mais periodontite, comparados aos que mantêm os níveis adequados e às pessoas saudáveis. O controle pobre da glicemia também elevou a probabilidade de perda dental progressiva e destruição do osso alveolar, que dá sustentação à dentição.

Ozonioterapia Há diversos mecanismos que podem explicar a associação. Tanto a periodontite quanto o diabetes, especialmente do tipo 2, têm importantes componentes inflamatórios. No geral, a doença periodontal eleva níveis de citocinas pró-inflamatórias, uma resposta do corpo para combater infecções, o que pode aumentar a resistência à insulina em pacientes de diabetes, cujas células do sistema imunológico já exacerbam a produção dessas substâncias. Isso poderia explicar por que pessoas com diabetes e periodontite têm maior dificuldade de controlar o índice glicêmico, comparadas àquelas que têm a doença endocrinológica, mas estão com a saúde oral em dia. “O controle glicêmico não depende apenas do tratamento bucal, mas percebemos a importância do tratamento como uma forma de melhorar a saúde do paciente e elaborar outras estratégias terapêuticas”, explica a periodontista Daniela Corrêa Grisi, voluntária no projeto do HUB.

Também está em curso no hospital universitário um estudo que avalia os aspectos microbiológicos dos pacientes de diabetes e doença periodontal, com objetivo de verificar se há diferenças na microbiota de pessoas que têm as duas condições, comparado a indivíduos saudáveis (Leia amanhã sobre microbiota e periodontite). Outra pesquisa avalia o impacto da ozonioterapia – técnica que emprega oxigênio e ozônio para modulação do estresse oxidativo e combate a inflamações – no controle glicêmico e na doença periodontal. “Pacientes com diabetes não têm muita resposta ao tratamento não cirúrgico da periodontia. Queremos verificar se, como adjuvante, a ozonioterapia pode impactar no resultado”, diz a periodontista Elisa Grillo, que conduz esse estudo no HUB.

Um dos pacientes do Projeto Diabetes é a cabeleireira Maria Gorete Gomes, 61 anos. A moradora da Asa Sul tem diabetes 1 e, há um ano, procurou a clínica do Hospital Universitário de Brasília, por recomendação da médica que a acompanha, para tratamento de cáries de um canal. Agora, ela passa por um procedimento a laser com objetivo de aumentar a salivação, pois pacientes de diabetes têm produção reduzida de saliva, o que predispõe a proliferação de bactérias, uma outra linha de pesquisa na instituição. “Na segunda sessão, eu já senti uma melhora grande. Minha boca sempre foi muito seca, e isso incomoda bastante”, conta Maria Gorete.

Além da doença periodontal, o diabetes está relacionado a cáries, infecções nos dentes causadas por placas bacterianas. Um dos estudos produzidos pelo Departamento de Odontologia da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade de Brasília (UnB) que será publicado em uma revista científica fez uma revisão de pesquisas que buscaram descobrir se há associação entre a doença endocrinológica e a incidência de cáries. O estudo, de alunos de iniciação científica e da pós-graduação, foi coordenado pela professora Nailê Damé-Teixeira e concluiu que as cáries são influenciadas pelos níveis de controle glicêmico. “As cáries podem ser um importante sinal oral de diabetes mellitus não controlado. Estratégias individuais e populacionais para controlar o consumo de açúcar deveriam ser adotadas para controlar ambas as doenças”, diz o artigo.

Também o estresse Até o estresse está relacionado à saúde bucal. “Se uma pessoa passa por estresse constante, o corpo dela liberará determinados hormônios, como hidrocortisona e cortisol, além de produzir um alto nível de adrenalina. Essas substâncias são responsáveis por regular funções corporais, como o sistema imune. O estresse desencadeia um efeito pró-inflamatório, o que, aliado aos maus hábitos de higiene bucal, tornam o organismo mais sensível às chamadas doenças infecciosas, como também acompanha um significativo aumento da percepção da dor e do sofrimento. Além disso, pessoas estressadas tendem a negligenciar a higiene oral e a aumentar a frequência de maus hábitos que prejudicam a saúde bucal, como o consumo de álcool e tabaco, que é um prato cheio para as doenças orais”, afirma o cirurgião-dentista Robson André Mendes Pacheco, de Natal.

Três perguntas para

Elisa Grillo, Periodontista da Perio Life e pesquisadora voluntária do Hospital Universitário de Brasília (HUB) Um estudo da Universidade de Hong Kong afirma que, mundialmente, o fardo da doença periodontal aumentou 57% entre 1990 e 2010. Pensando na realidade brasileira, há falta de informação e de acesso aos tratamentos odontológicos?O aumento da prevalência da doença periodontal é uma tendência mundial que está, entre outros fatores, ligado ao aumento da expectativa de vida. Em relação à realidade brasileira, há tanto falta de informação quanto falta de acesso a tratamento. Para ilustrar a falta de informação em relação à saúde bucal, basta observar que a grande maioria das pessoas acredita que ter sangramento gengival é normal, desconhece que esse é o principal sintoma das doenças periodontais. A falta de informação aliada à falta de acesso a tratamento são representadas pelos dados da Pesquisa Nacional de Saúde Bucal do Ministério da Saúde 2010, apontando que 83% dos adultos de 35 a 44 anos e 98,2% dos idosos de 65 a 74 apresentam alguma alteração periodontal.

Das comorbidades associadas à periodontite, quais as que já se tem uma boa dose de certeza de que são causadas ou facilitadas pela doença?Diabetes e doenças cardiovasculares são as condições associadas à doença periodontal mais embasadas por evidências científicas consistentes. Inclusive, a doença periodontal é considerada a sexta complicação clássica do diabetes mellitus. Há uma extensa lista de outras associações sistêmicas da doença periodontal com fortes indícios, mas ainda com estudos em andamento.

Há um diálogo contínuo entre médicos e dentistas, seja no dia a dia dos clínicos, seja na área acadêmica?O diálogo entre médicos e dentistas ainda é muito raro. Atualmente, ocorre quando o dentista necessita de informações sobre a saúde geral do seu paciente já comprometido sistemicamente e que será submetido a um procedimento cirúrgico, geralmente extração ou instalação de implantes, indicando que houve falhas na prevenção de doenças. Certamente, esse diálogo seria mais benéfico para o paciente se acontecesse mais cedo, na esfera da prevenção e da educação. Outro passo importante nesse sentido seria o encaminhamento protocolar dos pacientes com diabetes e portadores de doenças cardiovasculares para avaliação e tratamento periodontal. A aproximação das diversas áreas é um dos pilares para promoção de saúde.

Leia amanhãEstudos sobre microbiota têm resultados terapêuticos promissores.

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