Próteses reabilitadoras devolvem autoestima para pacientes com câncer

Reportagem: Alice de Souza Fonte: Diario de Pernambuco

O técnico agrícola aposentado Jairo Silva, 60 anos, já teve diversos diagnósticos de câncer. De todas as notícias relacionadas à doenças recebidas nos últimos 13 anos, a única que abalou a autoestima dele foi quando, numa consulta ao oftalmologista, soube que precisaria retirar o globo ocular direito. O entusiasta da vida e atleta nas horas vagas não contava perder um integrante do par de olhos azuis. Foi para a cirurgia angustiado e ficou impactado com o vácuo a primeira vez em que se olhou no espelho. Dias depois, soube que a história não terminaria desse jeito e que era possível recuperar o globo ocular. Agora, conta com sorriso de ponta a ponta o episódio. Quer ajudar outras pessoas a recuperar a autoestima depois da neoplasia.

A cirurgia de Jairo aconteceu em 2007, no Hospital de Câncer de Pernambuco (HCP). Quando houve a cicatrização, ele foi encaminhado para o setor de próteses da unidade de saúde, que havia começado a funcionar seis anos antes. Ao chegar, deparou-se com um laboratório que, quase como mágica, consegue fazer em alguns dias novos olhos, pálpebras, cílios e até as marcas de expressão que envolvem o olhar. O Departamento de Odontologia e Próteses Reabilitadoras atua na reconstituição de partes da face que foram suprimidas em função do câncer. A unidade, que funciona por meio de ações de pesquisadores e da verba do hospital, está em busca de doações para comprar uma impressora 3D para multiplicar e agilizar a produção das peças.

O setor desenvolve próteses oculares, para pacientes que perderam o olho; de reabilitação palpebral, de partes da face como o nariz, obturadores palatinos, para pacientes que perderam parte do palato (céu da boca); e até de partes do crânio. As peças são confeccionadas artesanalmente, com material de silicone e as habilidades artísticas da chefe do setor, a dentista Eliane Revoredo. Atualmente, são produzidas cerca de 20 a 30 próteses faciais por mês. Com a tecnologia 3D, o setor pretende incorporar uma tecnologia que já é usada, de forma prioritária, em serviços semelhantes no mundo.

“Com um scanner e uma impressora 3D, podemos fazer o escaneamento do paciente e obter um espelhamento da face dele. Com isso, irei dar apenas os retoques artísticos na peça, ganhando muito mais tempo. Algo que fazemos hoje em 15 a 20 dias poderemos fazer em uma semana com a incorporação dessa tecnologia”, explica Eliane Revoredo. O tempo é imprescindível para o setor porque, ao entregar uma prótese para os pacientes, entrega-se também muitas vezes a recuperação da autoestima e do convívio social. “Sabemos que a sociedade cobra, as pessoas olham as sequelas. A questão da reabilitação em um paciente desse é dar qualidade de vida. Ele recebe do hospital a possibilidade de reaver as funções, a estética, a volta do convívio com outras pessoas”, acrescenta ela.

É o que aconteceu com Jairo Silva. Ao receber a primeira prótese ocular, cinco meses depois da cirurgia, ele voltou a se sentir mais à vontade na convivência com amigos e familiares. “Visualmente, o impacto é menor nas pessoas. Ainda mais sabendo que as pessoas pensam que o câncer é uma sentença de morte. Hoje, tenho uma nova vida, não sinto falta do meu olho. Acho até que enxergo melhor”, diz ele. Jairo já está na terceira prótese, que tem exatamente a mesma cor do próprio olho, mas com o tempo foi perdendo a pigmentação que simulava a cor da pele dele.

“Eu guardo uma mais antiga, para usar em casa, e a mais nova uso para sair. Tem gente que brinca que só falta piscar, de tão real que é”, conta. Para ajudar o setor de próteses do HCP, é preciso entrar em contato pelos telefones (81) 3217.8025 e 3217.8084. O setor também aceita doações de cabelos, usados para fazer as sobrancelhas das peças, e de materiais usados na confecção das próteses.

As próteses, além de devolver a autoestima, ajudam na recuperação das funções do organismo em alguns casos. Não fosse por um obturador palatino, o professor aposentado Djael Andrade, 74 anos, sequer conseguiria se fazer entender por outras pessoas. Há quatro anos, ele fez uma cirurgia para retirar parte do céu da boca, em função de um tumor. Sem a prótese que recebeu assim que fez o procedimento, ele consegue falar, mas o som é de difícil compreensão pelo interlocutor. “Quando coloco a peça, ela veda toda a estrutura e assim eu consigo emitir o som perfeito. Faz muita diferença falar e ser entendido”, ressalta.

Depois da cirurgia, Djael passou 32 dias com sonda. Nesse período, toda a comunicação dele era por meio das páginas de um caderno. “Não era confortável, eu me sentia uma pessoa inútil”, diz. A doença trouxe algumas limitações, como não comer sólidos, mas a prótese auxiliou na recuperação. “Além da voz, na mastigação foi essencial. Perdi uma parte do corpo, mas hoje posso me considerar eu mesmo novamente”, conta. Entre as funções que a prótese ajuda a recuperar estão a de abrir a boca por completo, a deglutição e a obtenção de uma voz menos anasalada.

Os pacientes são encaminhados para o setor de prótese pelos médicos de cabeça e pescoço do HCP. Quando possível, o encaminhamento é feito antes da cirurgia e, ainda no procedimento, é instalada a peça. Em outros casos, é preciso aguardar a cicatrização. Cada prótese copia a anatomia do paciente no local onde será colocada. Para isso, é feita uma modelagem antes, por Eliane e a equipe, que ajuda a recuperar inclusive o mesmo volume da parte do corpo removida. “Cada prótese terá uma estrutura diferente. Fazemos o modelo em gesso, depois a reprodução estética do paciente com a cera. A cor dos olhos, o tom de pele, as manchas na pele, tudo, para poder confeccionar em silicone”, diz Eliane.

Em função do tratamento, as peças não podem ser implantadas. Por isso, os pacientes utilizam uma espécie de cola pra fixá-las na pele. Eles também precisam retirar para higienizar o material todos os dias. Nos casos de próteses de nariz e orelha, a limpeza pode ser feita a cada três dias. Cada uma delas dura, em média, quatro anos. Depois é trocada, gratuitamente, no hospital.

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