A precificação da vida humana

Reportagem: Diogo Gonçalves de Melo Fonte: Diario de Pernambuco

A má prestação de grande parte do serviço público de saúde no país evidenciada no abarrotamento dos leitos hospitalares e constante ausência de materiais e medicamentos, diariamente sacrifica o cidadão brasileiro, praticamente restando como única esperança o empenho de profissionais abnegados e vocacionados ao múnus a que se dedicam.

Outra alternativa, disponível apenas para menor parte da parcela do país, precisamente aqueles mais abastados, é a contratação de serviço particular de assistência médica, ofertada por seguradoras de saúde que, mediante contraprestação financeira, prometem atendimento médico de forma digna e humana.

É justamente contando com o compromisso, a eficiência e a idoneidade na cobertura médico-hospitalar em momentos de necessidade que mais de 47 milhões de brasileiros aderiram aos planos de saúde, segundo dados de junho/2019, divulgados pela Agência Nacional de SaúdeANS.

Ocorre que, na contramão dos constantes aumentos das mensalidades, são cada vez mais recorrentes as indevidas negativas de cobertura de procedimentos por algumas seguradoras que, não satisfeitas em pormenorizar a vida e a saúde humanas, ainda afrontam o poder Judiciário e a Função Social dos seguros saúde na medida em que, de forma consciente e deliberada, descumprem seus deveres.

Como fatídico efeito dessas atitudes arbitrárias, que mercantilizam a vida humana, a sociedade se depara diariamente com enxurradas de demandas judiciais que apenas abarrotam o Poder Judiciário. Nessa linha, levantamento divulgado pelo portal UOL, em parceria com a Kurier Tecnologia, indica que entre os anos de 2013 e 2018 o número de ações propostas em face das seguradoras de saúde atingiu a marca de 230.921 contendas em todo o país, versando mais da metade delas acerca de negativa de cobertura.

Aqui, em Pernambuco, foi contabilizada a distribuição de 18.280 ações judiciais contra seguradoras de saúde entre 2013 e 2018, garantindo ao nosso emérito Tribunal de Justiça a não honrosa 4ª colocação nacional em processamento de demandas dessa natureza.

Ao fim, o sentimento que fica aos segurados brasileiros é de que todo aparato de legislações e somatórios de esforços envolvendo agência reguladora, órgãos de defesa do consumidor e Poder Judiciário não têm se mostrado suficientes no combate às constantes abusividades praticadas por uma parte das seguradoras que, em resumo, parecem precificar a vida humana, mercantilizando bem inestimável e suportando eventual condenação judicial, em detrimento ao fiel cumprimento de seus deveres. Na sociedade em que tanto sonhamos fazer parte, não deveria haver cabimento para a mensagem de que optar pelo caminho errado torna-se compensatório!

Gostou ? Então deixe um comentário abaixo.

Clippings