COVID-19 | Fonte: Jornal do Commercio

Uma sensação de tempo perdido

Fonte: Jornal do Commercio

As matérias veiculadas pelo jornal citado como “fonte” não representam a opinião do Conselho Regional de Medicina de Pernambuco (Cremepe). O clipping tem por objetivo atualizar os leitores das principais notícias referentes à saúde veiculadas no país e, principalmente, no estado de Pernambuco.

Anunciado como último recurso para conter o avanço da covid-19, o lockdown em cinco municípios do Grande Recife (além da capital: Olinda, Camaragibe, Jaboatão dos Guararapes e São Lourenço da Mata) terminou sua primeira semana com resultados pífios. Os índices médios de isolamento social não saíram da faixa dos 50% – bem longe dos 70% considerados ideais para o efeito desejado.

Não é muito difícil entender por que a população, de uma forma geral – e nas periferias com ênfase bem maior –, não se engajou no decreto estadual como era esperado. O tempo decorrido desde o início da pandemia dá uma pista. De meados de março, quando foi registrado o primeiro caso em Pernambuco, até agora se passaram pouco mais de dois meses. Tempo em que milhares de pessoas morreram, outras tantas sofreram com os sintomas do vírus, as relações sociais sofreram sérias mudanças e a economia entrou em coma profundo, exterminando milhares de postos de trabalho. Um turbilhão de incertezas, sofrimento e ansiedade que cobra um preço alto. Para muitas pessoas a sensação é de que tudo é limítrofe, que não dá mais pra aguentar.

Houve hesitação dos poderes públicos em tomar medidas mais drásticas quando o carrinho da montanha russa ainda estava no início da subida (agora estamos chegando no alto). Quando o decreto veio, encontrou uma população extenuada e descrente do que seus governantes realmente poderiam fazer por ela.

O primeiro dia do lockdown, o sábado 16 de maio, teve forte chuva, o que ajudou na restrição de circulação. No dia de ontem o temporal que caiu na Região Metropolitana do Recife também ajudou a reforçar o índice. O problema começa quando o tempo abre e, principalmente, quando chegam os dias úteis. Pela semana que passou ficou clara a dificuldade de manter as pessoas – principalmente nas periferias – em casa.

Ainda há uma semana pela frente até o final da vigência do decreto do governo do Estado (dia 31 de maio). O secretário-executivo de Defesa Social, Humberto Freire (lembrando que o titular, Antonio de Pádua, cumpre isolamento por ter sido diagnosticado com covid-19), afirmou que nesta semana a fiscalização será reforçada para fazer valer o decreto. Segundo Freire, na tentativa de atingir os 70% de isolamento social, haverá acréscimo nas equipes de rua – de 108 para 150.

A sensação é de que, de alguma forma, já perdemos. O isolamento era para ser “rígido” em duas semanas. Com uma já perdida, difícil imaginar que o atraso será recuperado na que falta.

Sinal de alerta para as entidades de controle

Situações de calamidade podem ser portas abertas para desvio de recursos públicos para finalidades, digamos, bem diferentes do socorro às pessoas necessitadas. Não é preciso ir muito longe no tempo para lembrar de um exemplo. No final de 2017 a Operação Torrentes, da Polícia Federal, desarticulou um esquema encravado no governo do Estado e que desviou R$ 450 millhões em recursos que, em teoria, seriam para ajuda às vítimas das fortes chuvas que atingiram o Estado em 2010 e 2017.

Há outra catástrofe em curso: a pandemia do novo coronavírus, uma tragédia de proporções infinitamente maiores e que colheu todo o mundo. O olho vivo nas contas por parte dos organismos de controle tem que estar mais vigilante que nunca, sob pena de os recursos não se reverterem para quem precisa e que está morrendo e sofrendo nas unidades de saúde.

Na última semana o Ministério Público de Contas de Pernambuco (MPCO) denunciou uma operação que seria realizada entre a Prefeitura do Recife e uma empresa do interior de São Paulo originalmente destinada à venda de produtos veterinários: a compra de 500 respiradores a R$ 11,5 milhões. A empresa – registrada como microempreendedora individual e que tem um capital de apenas R$ 87 mil – desistiu da transação alegando repercussão negativa para sua imagem e devolveu o valor de R$ 1 milhão que já tinha recebido. O Ministério Público de Contas avisou que a investigação seguirá, mesmo com a desistência da vendedora.

Na última sexta-feira (foto acima) a Polícia Federal solicitou à gestão municipal explicações sobre a compra de EPIs (máscaras, toucas, aventais e demais equipamentos para profissionais de saúde) no valor de R$ 15 milhões e que estaria em desacordo com o capital da empresa que os venderia – segundo a PF, a compra é 53 vezes maior que a capacidade da companhia de realizar uma operação do tipo. Dois casos que precisam ser rigorosamente apurados pelas autoridades e esclarecidos pelas partes envolvidas, e que acendem um sinal de alerta nos órgãos de controle para um pente fino em vários outros entes, como outras prefeituras e o próprio Estado. Possíveis irregularidades têm de ser punidas com rapidez e a recuperação de eventuais recursos perdidos é vital para ajudar doentes enquanto ainda dura a pandemia.

Filas poderiam ter sido organizadas

As cenas de aglomerações e tumultos em agências da Caixa na primeira semana do recebimento do auxílio emergencial, entre os dias 27 de abril e 30 de maio, poderiam ter sido evitadas – ou mitigadas – se houvesse um mínimo de entendimento prévio entre os poderes federal, estadual e municipais. Em entrevista ao programa Balanço de Notícias, da Rádio Jornal, na última semana, a superintendente nacional de varejo da Caixa, Simone Nunes, afirmou que o banco tinha pedido apoio a Estados e municípios, e que apenas alguns, como Jaboatão dos Guararapes, no Grande Recife, e Petrolina, no Sertão, conseguiram se antecipar e promover alguma organização nas filas. “Ao todo são 1.120 parcerias com municípios em todo Brasil”, afirmou. Alguma dúvida de que a semana inteira de aglomeração intensa disseminou ainda mais a doença entre uma população já carente de meios para sobreviver?

Pandemia nos fez esquecer que o inverno está aí

As fortes chuvas que caíram ontem sobre o Grande Recife alertaram uma população totalmente imersa na pandemia do coronavírus de que o inverno está chegando. Os últimos dois meses foram de esforços quase que totais – e plenamente justificáveis – dos governos para tentar conter o avanço da covid-19 e promover assistência para os infectados. Mas será que nesse período, e justamente pelo foco no combate à pandemia, foi perdido algum esforço no sentido de preparar os municípios do Grande Recife para um período chuvoso que, até aqui, se anuncia como rigoroso? Como se não bastasse, a temperatura mais amena ainda favorece a propagação do vírus. É apertar ainda mais os cintos porque a turbulência parece não dar sinais de que vai passar tão cedo.

Desculpas de todos os tipos

O respeito pelas regras estabelecidas no lockdown tem que partir das próprias pessoas, é claro. Durante a semana que passou, nos bloqueios montados para fazer valer o rodízio de automóveis nos cinco municípios alcançados pelo decreto, houve todo tipo de desculpas para quem foi parado. A repórter Isa Maria, da TV Jornal, relatou que pessoas disseram que estavam indo “comprar flores” ou “visitar a mãe”. Lembrando aquilo que foi dito no comentário que abre essa página: é como se parte considerável da população simplesmente não levasse a sério o fato de que precisa ficar em casa.

A importância do Atitude Cidadã

Terminam hoje as doações para o projeto Atitude Cidadã – Está em nossas mãos, do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação em parceria com o Instituto JCPM de Compromisso Social, e a mensagem que fica para governantes, empresários e sociedade em geral para os tempos vindouros é a de união de esforços em prol dos que mais precisam. E muita gente teve, por meio do projeto, a oportunidade de receber uma mão amiga no meio dessa tragédia da pandemia. Os beneficiados certamente agradecem a todas as pessoas que se engajaram na iniciativa e contribuíram como puderam: quem ajudou com muito, ajudou muito, e quem ajudou com o pouco que podia, ajudou muito da mesma forma. Tudo vale, tudo importa, todo gesto conta e é bem vindo em uma época tão difícil para todos. Que o valor da solidariedade dê o tom nesse novo mundo que virá após a tragédia. Ela há de passar.

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