O tempo é essencial para os pacientes oncológicos

Com a pandemia, falta de organização em instituições de saúde prejudicam atendimento a pacientes oncológicos de PE. Profissionais criam movimento o Câncer Não Pode Esperar.

por Mariana Veltri – jornalista da SBCCP

Para finalizar o especial COVID-19, a SBCCP conversou no final de maio com a Dra. Fátima Matos, médica em Pernambuco, uma das regiões mais críticas, cujo despreparo se refletiu no elevado número de infectados. O estado ultrapassou na primeira semana de junho, a marca de 40 mil pessoas infectadas pelo novo coronavírus. O estado pernambucano contabiliza um total de 3.305 óbitos, desde o início da pandemia, em março.

Coordenadora da Cirurgia de Cabeça e Pescoço do Hospital Universitário Osvaldo Cruz da Universidade Estadual de Pernambuco (HUOC – UPE) e Cirurgiã de Cabeça e Pescoço do Real Hospital Português (RHP – Real CP), ambos referência no tratamento de COVID-19, sentiu o impacto nos atendimentos, pelo medo que as pessoas sentem de procurar atendimento e se expor ao vírus.

“O RHP é considerado um dos maiores hospitais do norte e nordeste. Temos cerca de 900 leitos e 6000 funcionários. A UPE é a única Universidade Estadual de Pernambuco. Historicamente, o HUOC sempre foi um hospital de referência para doenças infecciosas e nosso Centro de Oncologia (CEON) é um Unacon (Unidade de Alta Complexidade em Oncologia) de referência no Estado. A média mensal era de 200 a 300 pacientes por mês, atualmente se conseguimos chegar a 40 por mês é muito! Ainda não estou atuando na linha de frente, mas já fomos convocados na UPE”, informa.

Nos meses de abril e maio não houve cirurgias na UPE de cabeça e pescoço. A mesma situação ocorreu no Hospital Português. “Alguns já foram deslocados para plantões em UTI e enfermarias, outros estão realizando as traqueostomias nos pacientes com COVID e todos estamos tentando manter o atendimento dos pacientes oncológicos. Esse mês de junho é que retomaremos as atividades cirúrgicas de pacientes com tumores mais agressivos”, diz.

O governo do estado promoveu uma ação de testagem de todos os profissionais de saúde com sintomatologia. São 3 postos onde pode ser realizado o exame de PCR para COVID-19. Até 22/05, data da entrevista, foram testados 9019 profissionais, sendo 4905 positivos, 3677 descartados, 272 em investigação e 165 inconclusivos. A conduta é afastar os residentes infectados do serviço. Só devem retornar às atividades após novo teste negativo, que deve ser feito cerca de 14 dias após os sintomas.

“No SUS, temos uma escassez de EPIs e também, em muitos, a qualidade é insatisfatória, como os capotes sem a gramatura adequada (acima de 50). Grande parte dos colegas comprou seu próprio estoque de EPIs. Não houve uma preparação adequada no início da pandemia, com proibição, por parte de muitos gestores, no início, de usar máscaras no ambiente hospitalar e até no atendimento, o que ocasionou a contaminação em massa. As salas exigidas com pressão negativa são uma realidade apenas fora do âmbito do SUS”, explica.

Relata ainda que não há uma higienização adequada nos hospitais públicos, aponta uma deficiência de um fluxo adequado para o paciente chegar ao hospital e a falta de um fluxo para circulação dentro dos hospitais.

E ressalta que as diferenças são gritantes. No RHP foi instituído um fluxo para os pacientes oncológicos. Os exames de imagem são feitos em um outro ambiente e em condições diferenciadas. “A diretoria e chefia do centro cirúrgico se mostrou muito proativa na resolução dos problemas que porventura apareciam, assim como instituição de protocolos que sempre são atualizados”, exemplifica.

Na rede privada, Dra. Fátima vem utilizando a teleconsulta para pacientes de controle ou naqueles pacientes com tumores de tireoide que operou em fevereiro e março e ficaram sem endocrinologistas, uma vez que houve uma paralisação do atendimento por essa especialidade.

“Eu mesma fiquei acompanhando e os pacientes solicitaram a videoconsulta, porque todos têm medo de se expor. Os demais pacientes que apresentaram tumores primários ou recidivas foram às consultas presenciais. Levei a ideia à diretoria do hospital público e a diretoria não mostrou interesse nenhum no bem-estar e na dificuldade de mobilidade dos pacientes oncológicos, infelizmente”, conta.

Além desse cenário na saúde, a médica acrescenta que a população não respeita o isolamento social. “Sinto uma tristeza enorme, não só pelos que estão partindo agora, mas pelo caos que iremos enfrentar com os pacientes oncológicos. Pacientes muito castigados e sofridos pela doença que, subitamente, têm que interromper seus tratamentos ou não conseguem ajuda para ter acesso à rede oncológica”, lamenta.

Em relação a essa inacessibilidade dos pacientes ao atendimento oncológico, foi criado em maio, um grupo de discussão junto à Secretaria de Saúde para a criação de fluxos e ambientes hospitalares seguros e soluções para as filas que estão sendo criadas.

“Graças às recomendações da SBCO (Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica) e SBCCP (Sociedade Brasileira de Cirurgia de Cabeça e Pescoço), estamos negociando a testagem com PCR e TC de tórax 24h a 48h antes dos tratamentos oncológicos, além do isolamento em casas de apoio, com orientação dos serviços sociais. Estamos ainda no âmbito teórico, mas sou otimista por natureza e estou lutando para conseguir isso”, enfatiza.

Outro problema a ser enfrentado, é que no estado são pouco mais de 30 cirurgiões de cabeça e pescoço, dentre estes, alguns afastados por idade e por comorbidades e outros por terem contraído o coronavírus.

“Foi feita uma convocação de ‘todos’ para trabalharem na linha de frente. E o questionamento que faço: quem vai cuidar de nossos pacientes, que normalmente, ninguém quer chegar nem perto? No meu ponto de vista, a questão ética é muito gritante! Nosso contingente é pequeno e um cirurgião de cabeça e pescoço é um profissional caro para o estado. Muitos anos de formação e que trata de doenças altamente complexas. Será que o caminho é promover o esvaziamento de todos os serviços?”, questiona.

Como médica, ela enfrenta esse desafio e o de lidar também com a vida pessoal. Questionada se bateu algum medo, responde: “é óbvio que tenho receio! Principalmente pelo fato de ter um filho asmático e uma mãe de 81 anos, sozinha, que depende de mim. Estou muito envolvida nessa luta de manter o atendimento, criar fluxos, unificar filas, ajudar os colegas a se dedicar ao que realmente foram treinados. Tudo isso, mais o trabalho diário de mãe, esposa, dona de casa, ocupa minha mente e me ajuda muito. A preocupação com os amigos e colegas que também contraíram o COVID também é grande e isso também tem ocupado muito meus dias e noites”, relata.

Em seu ponto de vista, como cada colega tem enfrentado essa situação será diferente para cada um e não se pode julgar.  “Tenho um lema de vida de tirar uma lição de todas as situações. Tem sempre algo bom que a gente pode aprender. O convívio familiar mais próximo, o tempo para escutar o outro, de sentir, de olhar, realmente muda demais nesses períodos difíceis”, reflete.

Desse cenário, nasceu o “Movimento o Câncer Não Pode Esperar”, criado pelos profissionais de oncologia. “Acredito que depois de pouco mais de 2 meses de pandemia, temos que lutar por nossos pacientes oncológicos e juntamente com as demais especialidades oncológicas criar fluxos seguros para esses pacientes. Assim como outras doenças, nossos pacientes foram colocados num cantinho da sala, esperando a hora… O tempo é essencial para os pacientes oncológicos!”, salienta.

Quanto a volta à normalidade, Dra. Fátima acredita que agosto já tenha dado uma melhorada no cenário, mas que isso é relativo e tudo depende dos EPIs, adesão aos testes e cuidados nos atendimentos aos pacientes. “Num momento tão difícil quanto este, vou repetir para vocês uma citação de Rabindranath Tagore (poeta indiano): ‘Que em minhas preces eu não peça para ser protegido dos perigos, mas corajoso para enfrentá-los’”, compartilha.

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