Editorial | Fonte: Jornal do Commercio

Um milhão de lições

Fonte: Jornal do Commercio

As matérias veiculadas pelo jornal citado como “fonte” não representam a opinião do Conselho Regional de Medicina de Pernambuco (Cremepe). O clipping tem por objetivo atualizar os leitores das principais notícias referentes à saúde veiculadas no país e, principalmente, no estado de Pernambuco.

A superação da marca oficial de 1 milhão de mortes na pandemia de Covid-19 no mundo deveria lançar um pouco de luz sobre as sombras que o novo coronavírus trouxeram ao planeta. O sofrimento de tantos seres humanos que perdemos precisa resultar ao menos em algum aprendizado. Mas é tão difícil abandonar a gravidade dessa doença quanto convencer as pessoas de que a tragédia ainda não passou. Entre as lições que ainda estamos aprendendo, está a que se relaciona com a complexa adoção de medidas de restrição econômica e distanciamento social. A civilização contemporânea possui um modo de vida tão acelerado quanto socializado, tão baseado no consumo quanto dependente dele. A freada brusca na vida de bilhões de indivíduos sacudiu o planeta, mas o fenômeno da normalização do cotidiano no meio da pandemia – o chamado ‘novo normal’ – ainda se dá em cima de mais dúvidas do que certezas. A começar da dimensão da tragédia que se abate sobre a humanidade. Embora em vários países, e dentro dos países, em diferentes níveis de incidência, os números indiquem uma tendência de redução de casos e óbitos, é imperioso não perder de vista em que ponto do deserto nos encontramos. A média de casos diários no planeta, hoje, é três vezes maior do que em abril – e se a Covid-19 levou 6 meses para matar as primeiras 500 mil vítimas, a segunda parte do primeiro milhão foi vencida em metade do tempo. O que não podemos é achar que tudo passou, quando por exemplo, no Brasil, em 24 horas, cerca de 400 indivíduos deixam o nosso convívio por causa da pandemia. Sim, é verdade que já foram mais de mil por dia. Mas é inadmissível comemorar como se o vento gelado da peste tivesse ido embora. É certo que a banalização se mistura ao senso comum na tradução da exaustação coletiva diante da privação de experiências e relações. Por isso, outra das lições da pandemia é que não devemos julgar ninguém por qualquer atitude. Afinal, cada um assume a responsabilidade e o risco por sua própria conta. No entanto, a solidariedade com o próximo inclui o cuidado preventivo que se expande da proteção individual para os outros, especialmente os mais vulneráveis de sucumbir fatalmente pelo vírus. A necessidade de cooperação em todas as facetas da existência humana, da pessoal à institucional, vem a ser outro ensinamento do ano estranho e triste de 2020. O que extrairmos de bom, ao lado da sobrevivência, há de servir para construir um mundo melhor, adiante. A esperança da vacina nos anima. Mas é forçoso reconhecer o passo lento e firme da ciência na direção de um futuro sem a ameaça da Covid-19. Por não ser milagre instantâneo, contamos o milhão de corpos que não tivemos a chance de salvar. A condição de atendimento melhorou, os protocolos também. Contudo, indícios de reincidência em locais que viram a redução do contágio, e a falta de remédio ou imunizante até aqui, fazem com que o alerta siga alto.

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