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Itacuruba afogada na tristeza

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Cresce o uso de remédios controlados no estado. Por trás das pílulas estão pessoas deprimidas

Marcionila Teixeira
Da equipe do Diario

Ao longo de uma semana, a equipe de reportagem do Diario de Pernambuco percorreu 1.300 quilômetros de estradas no interior de Pernambuco em busca de histórias de pessoas que sofrem de depressão. Além da Tarja Preta é uma tentativa inédita de mostrar o que se passa por trás do uso por vezes indiscriminado dos medicamentos controlados no interior do estado. A série de matérias que segue até a próxima terça-feira conta casos de pessoas que têm em comum o fato de morarem em cidades com baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), cuja principal oportunidade de emprego está na prefeitura. O termo tarja preta não pode remeter apenas ao perjorativo “remédio de loucos”. Por trás dos comprimidos que podem viciar, estão pessoas em profunda depressão, mal ainda subnotificado no Brasil. Gente sofrida, que precisa de tratamento mental adequado, de mais seriedade nas políticas públicas na área de saúde.

Um olhar diz tudo. Avisa o tamanho de uma dor. Pede até socorro. Basta observar os olhos de Artemísia Paula da Silva, mulher com nome de flor, para ter certeza de que eles falam. O importante é querer ouvi-los. Aos 78 anos, Artemísia é o retrato de duas gerações que convivem numa cidade no mínimo misteriosa. Filha da Velha Itacuruba, município do Sertão pernambucano que hoje está debaixo das águas da Hidroelétrica de Itaparica, viu seu passado se afogar. Hoje se afoga em mágoas nas terras da Nova Itacuruba que a Chesf lhe presenteou. Chora pela idade avançada que lhe tirou a saúde. Chora pela herança frutificada em seu novo habitat: dois filhos alcoólatras e um outro que se matou aos 26 anos. A depressão lhe obriga a tomar tranqüilizantes para dormir. “Ninguém gosta de velho. Só tenho vontade de brigar, de chorar. Às vezes me sinto inutilizada”, desabafa.

Cidade pequena, com apenas 3.992 moradores, Itacuruba poderia ser apenas mais um lugar tranqüilo do interior do estado. Não é. Os casos de depressão surgema cada esquina. No mês passado, médicos do Conselho Regional de Medicina (Cremepe) voltaram em caravana ao município para dar início a uma pesquisa que busca desvendar os sentimentos da gente de lá. O psiquiatra Antônio Alves Neto, fiscal do Cremepe, aplicou 63 questionários na cidade, cada um com 20 perguntas sobre sofrimento psíquico. Surpreendeu-se com o que viu. “Percebemos que, deste total, 40 entrevistados apresentaram algum sofrimento mental, o que representa 63% de pessoas ouvidas com sintomas de depressão, entristecimento. Tacaratu, que fica na mesma região, mas que não foi inundada, registrou os sintomas em 47% dos entrevistados, índice bem menor”, calcula.

A depressão é um aviso de que algo pior pode estar por vir: os suicídios. Somente este ano, já foram seis tentativas em Itacuruba, de acordo com levantamento do médico José Atayde Alencar, que atende no único Posto de Saúde da Família (PSF) local. “Acho que a ociosidade, a falta de perspectiva de vida e as raízes enterradas na antiga região contribuem para o que acontece aqui. A mulher é a principal vítima. Além de não ter emprego, é obrigada a suportar os altos índices de alcoolismo do marido ou dos filhos”, reflete. O vice-prefeito da cidade, Gustavo Cabral, completa: “Os filhos cresceram vendo os pais dentro de casa, sem precisar trabalhar por causa da indenização mensal da Chesf. De certa forma isso pode ter provocado acomodação”.

O mais intrigante do pequeno município é que os suicídios já eram registrados com uma certa freqüência na velha cidade, mas tomaram “fôlego” em 1987, coincidentemente um ano após a mudança para a nova Itacuruba. “Fomos pesquisar e descobrimos que em 1949 já havia casos. Daquele ano até 2006, foram 34 episódios de suicídio que conseguimos descobrir em anotações antigas”, calcula a secretária municipal de Saúde, Solange Maria de Sá.

O médico Alencar está preocupado. “Temos também muitos registros de casamentos entre parentes que precisam ser avaliados. Isso pode explicar, por exemplo, os casos de esquizofrenia, mal que passa de geração a geração”, ressalta.

Passado – Tem dias que Efigênia Alves da Cruz, 40 anos, não quer ver ninguém, não quer conversar. Fica isolada dentro de casa. Os olhos dela parecem até mesmo com os de Artemísia. Atendem a porta sem brilho, sem curiosidade. Baiana, Efigênia conta que entristeceu ao chegar a Itacuruba, onde mora com três filhos. O marido só vem de quinze em quinze dias porque trabalha longe. “Já chorei muito depois que cheguei aqui. Foi mesmo que me jogar num buraco negro. Não tenho para onde sair. Na Bahia eu trabalhava, tinha amigos. Aqui não tenho nada disso. É diferente”, conta. Mas a dor de Efigênia aumentou mesmo há um ano. Descobriu que foi traída pelo marido. “Sinto dores de cabeça, fico agitada”. Como diria o médico da cidade, Efigênia tenta um suicídio inconsciente a cada dia. “Queria fugir de casa, sem destino. Uma vez tomei muito remédio de uma vez só”, confessa.

A Itacuruba com cara de feriado tem pouca gente na rua durante o dia, comércio quase inexistente. De noite, o aspecto é sombrio, com ruas e casas mal-iluminadas. Nada restou da velha cidade, na beira do Rio São Francisco, com terra boa para plantar e fartura na agricultura, lembram os moradores mais velhos. A socióloga Rúbia Lócio, da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), conta que a cidade lembra Custódia, também em Pernambuco, onde ela desenvolveu a dissertação de mestrado. “A cidade não foi inundada, mas o índice de apatia era gritante na época do estudo. Descobri que a população perdeu a fábrica de caroá. Quando não trabalhava na fábrica, o povo vivia da feira, da agricultura. Havia uma dinâmica no lugar. O povo hoje vive da memória do apogeu”, compara.

Taxa de suicídio

No Brasil 4,48
No Nordeste é de 3,31
Em Pernambuco é de 3,56
Em Itacuruba há um salto para 26,6

( Levantamento do Cremepe para cada 100 mil habitantes, com base no ano de 2004 )