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Não tem idade para sofrer do coração

Jovens entram no grupo de risco de cardiopatia. É preciso se cuidar desde cedo

Bruno Albertim/ balbertim@jc.com.br

Bruna Cabral/ bruna@jc.com.br

Semana passada, a morte do músico Rafael Torres, 24 anos, vitimado por um ataque cardíaco, trouxe a questão à tona: sofrer um infarto fulminante não é mais uma exclusividade do público classicamente relacionado a problemas do coração. Não são apenas os indivíduos maduros, com idade entre 50 e 60 anos e fatores de risco acumulados ao longo da vida, as únicas vítimas. O coração já mata os jovens do Brasil. O pior: eles quase nunca desconfiam que estão no grupo de risco. Não se previnem. São pegos de surpresa. “Há cerca de 30 anos, só morriam de infarto agudo do miocárdio os mais idosos. Mesmo minoria, os casos de jovens cardiopatas são cada vez mais freqüentes”, diz o cardiologista pernambucano Hilton Chaves que, não raro, se depara com jovens infartados em emergências do Estado.

Diretor científico da Sociedade Brasileira de Cardiologia, Dário Sobral diz que os casos com gente abaixo dos 30 anos têm chamado a atenção. “Não temos ainda no País uma pesquisa ampla a respeito. Mas a experiência é suficiente para indicar essa nova realidade”, diz ele, apontando que os riscos para o coração começam a se instalar cada vez mais cedo na rotina da população. Entre eles, o estresse da vida contemporânea, gatilho responsável por entupir algumas das artérias dos jovens.

“Tinha as taxas em ordem, não fumava, não estava acima do peso. Apenas o estresse pode explicar o infarto que sofri aos 33 anos”, conta o comentarista esportivo Beto Lago. Como ele, o advogado Marcus Vinícius Alves também infartou. Com apenas 25 anos. “Mudei radicalmente meu estilo de vida para continuar vivo”, diz ele, sobrevivente e fora das estatísticas que apontam a morte de 300 mil brasileiros vítimas do coração a cada ano.

“As doenças cardiovasculares são as que mais matam no mundo inteiro”, diz Hilton Chaves. Um mal de proporções gigantescas que se explica por pequenos hábitos cotidianos. De acordo com a pesquisa Infoheart, realizada em 52 países, envolvendo mais de 26 mil infartados, entre os fatores de risco que justificaram mais de 90% dos ataques cardíacos estavam tabagismo, diabete, hipertensão arterial, baixo consumo diário de frutas e vegetais, além de sedentarismo e sobrepeso. Problema grave no mundo inteiro, a obesidade já é considerada a epidemia do terceiro milênio pela Organização Mundial de Saúde. Cerca de 40% da população brasileira está acima do peso.

Para o coração, a gordura mais nociva é a visceral, entre os órgãos na altura da cintura, como os intestinos. “Pessoas que acumulam gordura nessa parte do corpo, formando os chamados pneuzinhos, são as que têm maior propensão a problemas cardíacos”, explica Hilton Chaves.

Segundo o Sistema Único de Saúde, 18,7% da população do Recife com idade entre 15 e 24 anos têm excesso de peso. E engordam mais com o passar dos anos: o número de gordos é de 42% entre os que têm de 25 a 49 anos. A alimentação inadequada e o sobrepeso costumam caminhar juntos com outros problemas, como hipertensão arterial e falta de atividades físicas. No outro extremo do sedentarismo, contudo, está mais um erro. “Exercícios em excesso podem provocar hipertrofia do coração, verificável em jovens halterofilistas”, diz o cardiologista. Difícil destacar um entre os fatores de risco, mas os médicos dizem que o tabagismo é dos mais nocivos. Aumenta o colesterol ruim.

Ainda que mais discreto do que a gordura no abdome, outro fator de risco já é mencionado entre a classe médica. “Quando recebemos jovens infartados sem os indicadores mais comuns de risco, não podemos deixar de desconfiar de cocaína”, diz o médico Hilton Chaves. “Sobretudo quando são de classe média e alta. Muitos custam a admitir o consumo”, diz ele, lembrando que a droga provoca arritmia cardíaca. Segundo estudos do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas, o uso de cocaína passou de 0,5% para cerca de 2% entre os jovens do Brasil.

O que mais leva jovens à cirurgia cardíaca, no entanto, não é o infarto. Muitos precisam ter válvulas substituídas devido à febre reumática. “No Brasil, é um problema sério de saúde pública”, diz a cardiologista Sandra Matos. “A doença se apresenta como uma amidalite. Quando não é tratada, migra para outros órgãos”, explica. Entre eles, o coração, principalmente. É o caso do estudante Lucas Canuto, 16. Algumas semanas após usar antibióticos para a garganta, começou a sentir dores na perna. Quando voltou ao médico, já apresentava uma inflamação e um sopro no coração. Tinha somente seis anos. Não precisou de válvulas artificiais. O tratamento adequado – 10 anos tomando injeções de bezetacil – evitou o implante. Corações de jovens e adolescentes estão sob risco. E as bactérias, nem de longe, são as únicas ameaças. O perigo mora sobretudo nos hábitos da vida contemporânea. Até no excesso de manteiga do seu pão.