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A medicina indígena vai à universidade

Médicos criam primeiro curso do País de especialização em saúde dos índios

Mônica Tarantino

O Brasil tem cerca de 650 mil índios. Eles falam 180 idiomas e pertencem a 220 etnias diferentes. Cada uma possui um sistema bem articulado de conhecimentos medicinais e filosóficos para explicar o surgimento das doenças e o que é preciso fazer para curá-las, o que com freqüência envolve pajelanças e uso de raízes. Pois é nesse caldeirão cultural que precisam mergulhar médicos, enfermeiros e dentistas que trabalham em áreas isoladas, como o coração da Amazônia ou o interior do Parque Nacional do Xingu, em Mato Grosso. Eles vivem em contato com costumes tão diferenciados que muitas vezes é difícil convencer o paciente indígena a ser tratado – ou pelo menos não se sentir ofendido – pela medicina “dos brancos”.

Para facilitar essas relações às vezes delicadas, pioneiros nessa área decidiram compilar os erros e acertos cometidos ao longo de 43 anos de prática no atendimento à saúde das populações indígenas para compartilhar a experiência com quem está chegando à linha de frente. O resultado desse esforço é o primeiro curso de especialização em saúde indígena do País, que começa no dia 13 de outubro.

Promovido pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o curso terá 396 horas e será ministrado pela internet. “A idéia é capacitar quem está em campo a encontrar ferramentas para lidar com as diferenças de hábitos e crenças. E, para chegar até eles, optamos pela educação a distância”, explica o diretor do curso, o médico Douglas Rodrigues. Ele é um dos criadores do Projeto Xingu, também da Unifesp, que presta assistência a três mil índios. Segundo o pediatra Marcos Schaper, outro idealizador do curso, compreender a visão dos índios sobre saúde e doença é um meio de estreitar as relações. Por isso, haverá aulas de antropologia. “É preciso conhecer o universo indígena para melhorar o entendimento com doentes e pajés”, diz.

A iniciativa chamou a atenção. Mais de mil candidatos se inscreveram para disputar as 350 vagas oferecidas. A enfermeira Vânia Rabelo, 32 anos, foi uma das selecionadas. Há três anos vivendo entre os índios kaiabi, no Xingu, ela coleciona experiências de choque de visões. “Os kaiabi, por exemplo, não gostam que se corte o cordão umbilical assim que a criança nasce. Eles crêem que isso pode prejudicar a saúde da criança”, conta.

O lançamento do curso acontece em um momento no qual estão sendo discutidas mudanças estruturais no atendimento à saúde índigena. O Ministério da Saúde decidiu tirar a função da responsabilidade da Fundação Nacional de Saúde (Funasa). Vai transferi-la para uma nova área, a Secretaria de Atenção Primária e Promoção da Saúde, que vai gerenciar o Programa Saúde da Família. A consolidação da mudança depende da aprovação de um projeto enviado à Câmara Federal. “Essa reorganização tem a ver com as dificuldades na execução dos serviços de saúde e atende reivindicações indígenas e da Comissão de Política Indigenista. É necessário melhorar indicadores como a mortalidade dessa população, que ainda equivale a padrões de 40 anos atrás”, explica Claunara Mendonça, do Ministério da Saúde.

Os técnicos da Funasa, órgão do próprio ministério, rebatem as críticas e dizem queforam pegos de surpresa pelo projeto. E reclamam que só foram chamados para o debate depois que a proposta de reestruturação estava pronta. Por enquanto, a Funasa está dando seqüência à revisão dos 48 convênios firmados com 41 entidades para atendimento de 463 mil índios de 34 distritos sanitários. Da assinatura desses contratos depende a distribuição dos recursos para a continuidade da assistência a esses povos em 2009. Em abril, a Funasa estabeleceu novos critérios para escolher as associações que atenderão os índios. Um deles é a necessidade de comprovar experiência no trabalho com índios. Por incrível que pareça, antes isso não era necessário.