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Hormônios, vilões da obesidade

Raramente diagnosticado, mau funcionamento das glândulas pode ser a causa da dificuldade em perder peso

Rafael Dias // Diario
rafael.dias@diariodepernambuco.com.br

Acausa pode passar despercebida. Pessoas que estão acima do peso usam de todos os subterfúgios possíveis para fazer as pazes com a balança. O arsenal inclui caminhada matinal, exercícios na academia, dieta rigorosa e muita força de vontade. Mesmo com toda dedicação, o esforço em perder os quilinhos indesejáveis não surte o efeito esperado. Perdem-se até alguns gramas, mas meses depois eles voltam: é o chamado efeito sanfona. A incapacidade em perder peso, no entanto, pode ter uma origem endócrina. Os distúrbios hormonais respondem por menos de 5% dos casos de obesidade, mas raramente são diagnosticados como fator principal, segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS). Por muito tempo, a tireóide era apontada como a vilã, mas existem outras glândulas que também contribuem para o desequilíbrio, a exemplo da supra-renal.

Além do hipotireodismo (insuficiência do hormônio da tireóide), a hiperinsulinemia e o hipercortisolismo também podem afetaro metabolismo do indivíduo e interferir na queima da gordura. No primeiro caso, há um excesso do hormônio insulina no sangue, que faz acumular altos níveis de açúcar (em forma de glicogênio) nas células, causando inchaço e a intolerância à glicose. A complicação é mais comum em pacientes diabéticos. Já o segundo se caracteriza por uma elevação do hormônio cortisol, também chamada de Síndrome de Cushing, causada por uma deficiência na glândula supra-renal, que provocam a perda de músculos e o acúmulo de gordura na barriga, ou seja, a obesidade abdominal ou visceral.

De acordo com o médico endocrinologista Luciano Teixeira, o distúrbio hormonal pode dificultar a perda de peso e também levar a complicações mais sérias. “O excesso de insulina facilita engordar. E o de cortisol leva à formação de gordura na região do abdômen. A gordura visceral aumenta os riscos de hipertensão arterial, infarto do miocárdio e osteoporose”, alerta o especialista. Para o diagnóstico da insuficiência endócrina, é feito um exame de sangue que tetecta a dosagem de insulina e cortisol na circulação. O resultado sai em dois a três dias. Segundo Teixeira, o tratamento para esses casos devem ser combinado com medicações específicas, além de exercícios físicos e reeducação alimentar. “A modificação do estilo de vida também é muito importante. O acompanhamento médico deve ser feito por, no mínimo, dois anos”, informa. “As pessoas estão percebendo que não é uma questão apenas estética”, disse.

Epidemia – O alerta é válido. A obesidade é hoje um problema de saúde pública internacional. Segundo a OMS, cerca de 1 bilhão de pessoas – equivalente a 1/6 da população do planeta – apresenta excesso de peso. Quanto ao número de obesos, a marca atinge mais de 300 milhões de indivíduos – dado três vezes maior que o registrado há 25 anos. No Brasil, a quantidade de pessoas com sobrepeso também cresce em ritmo alarmante. O pior: são os jovens as maiores vítimas. Pesquisa recente da Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) aponta que aumentou em 240% o número de crianças e adolescentes acima do peso de 5 a 17 anos nas últimas duas décadas. Entre 18 e 25 anos, 66% têm sobrepeso.

A promotora de justiça Henriqueta de Belli, 33 anos, acionou a sirene há um ano e dois meses. Ela pesava 78,5 kg e levava uma vida sedentária, com base em uma alimentação desregrada de frituras e doces. Seu problema não era distúrbio hormonal, mas ela resolveu procurar ajuda médica porque a dieta que fazia não funcionava mais. “Tentei de tudo”, diz. Hoje, a promotora pratica exercícios diários e se alimenta seis vezes ao dia. Geralmente, saladas e comida leves. Além de tomar remédios que aumentam a saciedade. O esforço valeu a pena: hoje ela pesa 58 kg. Ou seja, perdeu 20 quilos em um ano. “Dá muito trabalho, requer disciplina. Mas é melhor perder peso aos poucos que emagrecer rápido e ganhar tudo de novo”, declara.

1 – Supra-renal

O que é? Glândula endócrina localizada sobre os rins
O que faz? Diminui a absorção da glicose pelas células e libera os hormônios cortisol e adrenalina
O que o mau funcionamento pode causar? Hipercortisolismo. É um excesso do hormônio cortisol no sangue. Pode causar acúmulo de gordura (principalmente na região abdominal), cansaço, fraqueza, nervosismo e insônia

2 – Pâncreas (ilhotas de Langerhans)

O que é? Órgão do sistema digestivo cuja parte endócrina produz hormônios
O que faz? Libera insulina, que regula as taxas de glicemia (açúcar) no sangue
O que o mau funcionamento pode causar? Hiperinsulinemia. É um excesso de insulina na circulação, que faz aumentar a conversão da glicose em gordura

3 – Tireóide

O que é? Glândula endócrina localizada no pescoço
O que faz? É responsável pelo desenvolvimento e interfere no ciclo menstrual, memória, peso e controle emocional
O que o mau funcionamento pode causar? Hipotireoidismo. É uma queda na produção dos hormônios T3 (triiodotironina) e T4 (tiroxina), que pode provocar fadiga, aumento de peso e de colesterol, ressecamento de pele e depressão

Fonte: Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia