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De frente para o crack

Vidas consumidas pelo vício, de laços afetivos desfeitos, afastadas das famílias, encontram primeiro um alento, depois apoio para a árdua luta da recuperação. É assim no Centro de Acolhimento Intensivo Mulher, como o JC mostrou em reportagem de capa no domingo, 22. A conquista da esperança se interpõe aos malefícios da droga. E faz descortinar o horizonte em olhares que não enxergavam senão a própria agonia na urgência perpetuada pela escravidão química.

A reconstrução de um ser humano devastado pelo crack não é fácil. Por isso é tão importante a existência de locais de referência, a exemplo do centro na capital pernambucana, retratado pelas palavras de Ciara Carvalho e pelas fotos de Ricardo B. Labastier. O resgate da autoestima impulsiona a recuperação, em um ambiente propício. Esse ambiente é oferecido no Centro de Acolhimento, inaugurado em agosto de 2014, e que integra o programa estadual de combate ao crack, batizado de Atitude.

Mulheres grávidas que chegam ao centro podem continuar com os filhos após o parto, um estímulo para encorajar a força de vontade necessária à mudança, que não vem sem o sofrimento da abstinência. Para as que sabem o que é perder a guarda dos filhos por causa do vício, a possibilidade de ficar com a criança anima o espírito e prepara o corpo para a desintoxicação. Para a reconquista do próprio destino. Na expressão usada por uma das entrevistadas, é a descoberta da felicidade, associada a coisas simples, como ter um emprego de carteira assinada e se sentir, dignamente, mãe.

São apenas 24 mulheres na casa cercada pela natureza e de expectativas. É de se imaginar que o sucesso do projeto deve suscitar sua ampliação, na direção de uma política pública eficaz voltada para um problema social devastador, que se espalhou pelo Brasil rapidamente, inclusive em Pernambuco. O flagelo coletivo requer abordagens complementares, que juntem as pontas de políticas públicas abrangentes, incluindo a repressão ao tráfico, e de um atendimento particularizado, focado nos dramas pessoais e nas dificuldades concretas de libertação do vício. Para que o flagelo não prospere, é preciso olhar o crack e suas causas de frente.

A ampliação do leque de possibilidades é um dos principais apelos e desafios na abordagem realista praticada no âmbito de experiências como a do Centro de Acolhimento. A prevenção contra as recaídas, que são frequentes devido ao alto grau de dependência, é a aposta no desejo por autonomia. Vencer o crack é ganhar como prêmio a própria vida de volta. O êxito de projetos como o do centro de acolhimento, que em poucos meses aponta bons resultados, depende da continuidade e aprofundamento das políticas integradas, que por sua vez estão atreladas à viabilização de recursos que confirmem a decisão de assumir e cuidar do problema, muito além da criação de estruturas burocráticas e dos programas que penam para sair do papel.