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55% dos partos no DF são cesáreas

Uma associação distorcida — a de que parto normal é sinônimo de sofrimento e risco para a gestante e para o bebê — tem levado ao aumento significativo de cirurgias cesáreas na última década. A pesquisa Perfil das mães segundo tipo de parto, divulgada ontem pela Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan), mostra que mulheres jovens e de boa escolaridade costumam recorrer à intervenção cirúrgica para dar à luz. No DF, a proporção de cesáreas e partos normais é de 55% para 45%. Esse índice é muito acima dos 15% máximos recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) de cesáreas por nascidos vivos. A taxa elevada expõe a quantidade de procedimentos desnecessários, ou seja, realizados quando não há ameaça à integridade física da mãe nem do bebê.

O levantamento avaliou dados do Sistema de Informações sobre os Nascidos Vivos (Sinasc), do Ministério da Saúde, de 2000 a 2013. Os registros mostraram que houve mudança drástica no modo de nascimento escolhido pelas gestantes. No DF, até 2006, prevalecia o parto natural. Considerando média de 3,5 milhões de nascimentos, 60,25% deles foram normais, contra 39,75% de cesáreas. A partir de 2007, as taxas passam a se inverter e as cesáreas chegam a 51,89%. A taxa de evolução distrital é superior à nacional, uma vez que, somente em 2009, o Brasil registrou a inversão. O cenário só não se confirma na Periferia Metropolitana de Brasília, onde estão as cidades do Entorno, e nos estados da Região Norte, onde partos normais prevalecem.

As altas taxas de cesáreas estão ligadas às questões de rendimento e escolaridade. Mulheres com oito anos ou mais de estudo são maioria maciça no centro cirúrgico de maternidades (veja arte), em especial nas instituições privadas. A escolha, no entanto, não significa avanço. “Dos itens dos Objetivos do Milênio, da Organização Mundial da Saúde, um dos poucos que o Brasil não avançou foi no da mortalidade materna. Se cesárea fosse realmente mais segura que o parto normal, não teríamos esses dados”, afirma o diretor de Estudos e Pesquisas Socioeconômicas da Codeplan, Bruno Oliveira Cruz.

Os partos normais, por sua vez, registram queda, mas ainda são maioria entre mulheres negras e com baixa escolaridade. Das que se declaram negras, 54,03% tiveram partos normais, levando-se em consideração os 3 milhões de nascimentos ocorridos em 2013. A proporção de cesáreas foi de 45,97%. Isso ocorre porque essa faixa da população é a principal usuária do sistema público de saúde, onde há programas de incentivo ao parto normal. Entre as não negras, a relação foi de 24,55% de normal para 75,45% de cesáreas.

Fornecer informações de qualidade é fundamental para que a mulher tenha plena condição de escolher a maneira que considera mais adequada para o filho vir ao mundo. Segundo a chefe do Núcleo de Saúde da Mulher da Secretaria de Saúde, Viviane Tobias Albuquerque, criou-se uma cultura aterrorizante em torno da situação. “Existem fatores de pressão social, em que a mulher é questionada e julgada quando diz que escolheu parto normal. São perguntas como ‘por que você vai sentir dor?’”, destaca.

Foram julgamentos como esse que a estudante Layanne Grasile Scarcela, 29 anos, escutava quando planejava fazer parto normal para o nascimento da filha, Júlia, de três meses e meio. Ela conta que, desde o início da gravidez, expôs à obstetra o desejo. A médica garantiu que estaria com Layanne na hora do nascimento. “Mas ela viajou. Liguei e ela respondeu que não poderia me atender”, lembra. A estudante procurou um hospital privado, mas não havia vaga. Foi para a emergência de uma maternidade na Asa Sul. “Tenho certeza de que só consegui fazer o normal porque tinha muita dilatação”, acredita.