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Corte no orçamento ameaça casas de apoio

Com cada vez mais dificuldades para equilibrar as contas, as prefeituras do Interior têm procurado meios para manter as mínimas condições da assistência oferecida aos pacientes que se dirigem à Capital para cuidar da saúde. Assim como o Tratamento Fora do Domicílio (TFD), as casas de apoio mantidas no Recife também têm sido atingidas pelos cortes resultantes dos tempos de crise. Quem passa três dias, uma semana e até meses longe do lugar onde vive para se submeter a procedimentos médicos tem vivido dias de incerteza. É o medo de perder o teto que, mesmo sem estrutura para receber tanta gente de uma só vez, tem garantido um pouco de paz em meio às preocupações e debilidades causadas pela doença.

No alojamento de Ouricuri, no bairro de Santo Amaro, uma placa de “Vende-se” afixada na fachada já dá a ideia do que pode vir pela frente. Quem está abrigado lá tem ouvido relatos de que vai ocorrer apenas uma transferência, já que o proprietário teria pedido o imóvel alugado ao município. Mas ninguém sabe ao certo. “Temos comida, temos dormida boa. Perder isso aqui vai ser terrível, porque é algo que ajuda bastante a gente a não desistir”, relata Rita Nascimento, que ficará no Recife até setembro acompanhando o esposo no tratamento a um câncer de garganta.

Em contrapartida, há quem aponte a superlotação como um atrapalho à recuperação. A falta de espaço faz com que alguns pacientes tenham que dormir em colchões no chão. “Se eu tivesse parentes aqui na Cidade, eu ficava lá na casa deles. Só fico aqui (na casa de apoio) porque sou obrigada, porque não tenho onde ficar”, relata a microempresária Elvia Araújo, 44 anos, que tem câncer de colo de útero. “Aqui é muito quente, não tem ventilador para todo mundo, às vezes falta água. Sempre que venho, passo dois dias muito mal aqui”, completa.

A prefeita de São Bento do Una, Débora Almeida, integrante da Associação Municipalista de Pernambuco (Amupe), explica que há prefeituras que estão repensando a decisão de manter as casas de apoio, mas sem comprometer a assistência dada aos pacientes que precisam ficar na Capital. “Há cidades que estão deixando de alugar casas e passando a fazer convênios com pousadas. Com isso, elas passam somente a pagar pelas diárias, porque tem gente que passa apenas poucos dias e tem gente que precisa ficar mais tempo”, detalha a gestora. “São custos altos, que envolvem não só as casas, mas a manutenção do transporte até elas e diárias de funcionários. Tudo está sendo revisto”, complementa.

APOIO PARALELO

Um pouco distante desse desconforto, o técnico de informática Dativo Feitosa, que acompanha a esposa, Rosângela, 45, no tratamento dela contra um câncer na região pélvica, define como providencial o apoio que vem recebendo na Pousada Interiorana Cristã, que fica no entorno de hospitais como o de Câncer de Pernambuco (HCP) e o Universitário Oswaldo Cruz (Huoc). Com capacidade para abrigar 23 pessoas, o local foi um escape para a superlotação da casa de apoio mantida pelo município de Araripina, onde eles vivem. “Às vezes tem alimentação, às vezes não tem. E as pessoas têm que se amontoar em colchões porque nem sempre tem vaga para todomundo. É sofrido ficar lá”, conta Rosângela. Além da falta de comodidade, a aposentada Edilene Cavalcanti, 61, e a agricultora Helena Amaral, 52, apontam os gastos com transporte como outro desafio para quem não tem onde ficar. “Nessas casas, a gente é que tem que bancar um táxi para ir ao hospital. Ir de ônibus, sem conhecer nada por aqui, é difícil”, explica Helena, que veio de Custódia para tratar um câncer de mama. “Quando o TFD não tem vaga, a gente tem que dar um jeito para vir para cá. Fiz a conta e dá uns R$ 300 de carro. E gastar mais dinheiro, quando chega aqui, para ir se consultar é inviável”, completa Edilene, que vem de Venturosa para se submeter a sessões de radioterapia contra um tumor na garganta.

A responsável pela Pousada Interiorana, Maria José dos Santos, 51, explica que tem sido cada vez mais difícil realizar o trabalho filantrópico. Ela deu continuidade à ação depois de vencer um câncer de mama. “Notamos que o movimento do bazar caiu, mas as doações, graças a Deus, continuam. Precisamos disso para atender às pessoas, principalmente tapando essas brechas que os municípios não têm tido condições de atender”, finaliza.