Pesquisar
Agendar Atendimento

Serviços

ver todos

A paciente lendária

Natália Branco Interaminense enfrentou quatro cânceres e desafia a vida

Natália é o improvável. O quase impossível. É a revelação de que medicina nem sempre se faz com matemática. Ela é a renovação da esperança. A contemplação de uma lua cheia. Natália é universo feito de família e amigos – e eles bastam. Quando nasceu, a mãe Ana Branco disse ter proposto um acordo com Deus. “Se o Senhor mandou Natália para mim, acho justo que façamos assim: fico com 50% da responsabilidade e o Senhor fica com 50%”. Faz 26 anos. Naquele dia, souberam de uma má-formação congênita.

Desconheciam Ana e Ricardo para onde iriam e nem de longe sabiam o quanto a filha caçula seria motivo de comemoração para ambos. “Para mim, Natália é muito sortuda porque tudo nela dá certo”, afirma o pai, Ricardo Interaminense, o mesmo que deitava com ela escondido na cama de hospital para dar calor à filha (“Tomava muito banho e abraçava. Fazia porque era aquilo o que ela queria. Era pequena e falava comigo com os olhos”). Natália teve diagnóstico de meningocele, uma anormalidade na área da medula vertebral. Foi para a sala de cirurgia pela primeira vez aos cinco dias de nascida.

Mais: tinha quase dois anos quando descobriram um meduloblastoma, espécie de tumor cerebral. Recebeu tratamento de radioterapia por mais de 30 dias, prescrição impensável hoje para crianças com menos de cinco anos. O médico neurologista Hildo Azevedo informou de pronto: “A chance de sua filha não voltar bem é de 100%, mas vamos tentar porque não existe limite para o cérebro”. Tumor extirpado, seguiu para casa após 14 horas de intervenção cirúrgica e três paradas cardíacas. “O lema sobre limite passou a me guiar”, conta Ana.

“Podemos dizer que ela é um milagre”, define a neurocirurgiã Débora Brito Pinho, que começou a acompanhá-la aos dois anos. “Ela marcou e vai marcar por toda a minha vida”, completa a médica, acrescentando que sua paciente sempre foi “vibrante” e confiante, como a mãe. As sequelas das radiações foram surgindo e Natália se tornou a encarnação da surpresa. Pegou meningite e, dela, saiu ilesa. Vieram um câncer de tireóide; metástase no pulmão e um câncer de pele.

Pediatras, oncologistas? nunca. A assistência era feita apenas por neurologistas. “Dr. Hildo a chama de lendária”, lembra Ana, para quem falar de Natália virou sacerdócio, assim como fazê-la inserida numa sociedade – que, se hoje é refratária a cidadãos especiais, imagine há duas décadas. Para a família, era fundamental levar a menina à escola e ela ia carequinha, até ser “convidada a sair”. A direção informou aos sete anos que “dali não passaria”. Falava da escrita e ignorava a sociabilização.

Os cuidados com Natália, que tem autonomia sobre seu corpo, sempre foram feitos por parentes. Nada de babás ou cuidadoras. Até hoje para onde vão, a jovem vai junto, de batom, brincos delicados e cabelos bem cuidados. Se for com a irmã mais velha, Rafaela Branco, muito melhor. Elas são amigas, companheiras e inseparáveis. “Não imagino minha vida sem ela”, diz Rafaela, que assumiu há alguns anos com empenho parte das investigações e tratamentos médicos da irmã.

Inteligente, Natália hoje se dedica ao trabalho. A família é proprietária de uma casa de festa renomada do Recife e Natália é a gerente do negócio. Ganha valor representativo pela função e seu nome está na folha de pagamento. Toma onze remédios anticonvulsivante por dia, tem proximidade com assuntos infantis, mas mostra responsabilidade com o cargo. “Guarde o celular. É hora de trabalho”, reprimiu outro dia um garçom. Recepciona os convidados nos eventos e ao final pergunta: “Ficou satisfeita com a festa? Se não ficou, diga porque posso tomar providências”.

Natália sabe que é especial porque não lê nem escreve. Com condições de movimentar o corpo, rejeita filas prioritárias para deficientes, adesivos no vidro de carros, vagas em estacionamentos alegando “não precisar”. A compreensão de Natália acerca da vida é simples. E a mãe resume o que aprendeu com ela: “A humanidade está procurando a paz e o amor e pensa que eles são sentimentos palpáveis. Acho que a paz e o amor estão em pessoas como Natália”.

Esta semana bateu à porta do quarto dos pais a 1h da madrugada. Insistia em mostrar: “Olha, olha, mãe, como a lua está branquinha, branquinha, branquinha…”. Natália, a lendária paciente pernambucana que superou múltiplos cânceres, só enxerga o que há de bom no mundo.