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“Tem um médico para quem não dei obrigado”

Essa é a história de Dr. Jesus, médico cardiologista que atua no Recife e conforta antes mesmo de dirigir uma única palavra ao paciente

A mãe, Dona Adela, não sabe, mas foi um favor feito a ela que norteou a escolha do filho chamado Jesus. Ele é um médico radicado no Recife que, com o simples ato de estender a mão e se apresentar ao paciente, faz-se sinônimo de reconforto. Dona Adela saiu do México e veio criar os cinco filhos em Pernambuco em um Sertão ainda em busca de desenvolvimento.
Desembarcou no município de Petrolina, Vale do São Francisco, no ano de 1970. Aos domingos, vestia os garotos com as melhores roupas e juntos iam à missa. Eles tinham vida confortável. O pai, um engenheiro renomado, chegou dois anos antes para estruturar a família. Petrolina ia descobrindo sua vocação para a fruticultura.

Os meninos dos Livera eram pequenos quando uma separação do casal deu não só rumo como moldou o destino dos cinco filhos. Mudaram de cidade. Estudaram nas melhores escolas do Recife e tiveram condições de fazer opções profissionais. Quatro deles seguiram o exemplo do pai: são engenheiros. Jesus tinha dúvidas por onde seguir, assim como a maioria dos jovens por volta dos 17 anos. “Eu só sabia que o que não queria ser. Não queria ser engenheiro. Lembro que minha mãe sofreu muito com a separação e enfrentou problemas de saúde. Um médico amigo a ajudou na recuperação. Mamãe falou poucas vezes sobre ele, mas quando falou me marcou”, conta. Dez anos entre salas de aula, consultórios e blocos cirúrgicos, graduou-se em medicina e virou médico.

“Esse homem foi inspiração para mim. Hoje penso que tem um médico por aí, cujo o nome eu lembro, que eu não consegui dizer obrigado”, contou-me essa semana Dr. Jesus Reyes Livera em tom reflexivo. Quase trinta anos depois do vestibular, com 55 anos, Dr. Jesus é cardiologista – especialista em hemodinâmica, ramo responsável por realizar o temível exame de cateterismo, que verifica as condições de saúde do coração por meio de um procedimento invasivo.

E não é assim com todo mundo? Tem pessoas que passam por a gente e abre caminho. Outras, o pavimentam. Para Dr. Jesus, o médico de dona Adela foi a bússola; a mãe, o exemplo que deu estrutura, o exemplo e estímulo para a caminhada. Hoje só de cateterismo ele faz cerca de quinze por semana numa jornada de 12 horas de trabalho no Hospital Português, referência no estado quando se trata de tratamento para o coração.

Dr. Jesus Livera não passa desapercebido. A começar pelo nome de batimo – motivo pelo qual eu o procurei para conhecer a sua história. Notei há alguns anos e ouvi de amigos que quase sempre a chegada de Dr. Jesus para um exame é antecedida por burburinhos e uma certa sensação de conforto, antes mesmo da primeira palavra dita por ele ao paciente. “Pelo menos vai ser com Jesus”, afirmou dia desses uma mulher de seus 70 anos, acamada à espera de sua vez e levando seus pensamentos para o Jesus espiritual. Não parecia piada; a impressão passada pelos olhos dela é que esse detalhe a acalmava, reduzia temores. Nessa ocasião, resolvi andar pelo corredor para buscar outros assistidos. “É bom porque ficarei duplamente assistido. Pelo Jesus daqui de baixo e o Jesus lá de cima”, comentou outro.

Dr. Jesus confirma que são comentários frequentes. “De fato, o nome me ajudou porque dificilmente o cidadão que ouve que Jesus vem faz qualquer julgamento ruim de primeira linha. Não é minha pessoa. É a carga que o nome gera no pensamento. O sujeito pensa duas vezes antes de falar mal de Jesus”, analisa.

Por causa do nome, a rotina de Dr. Jesus é cheia de curiosidades. Há algum tempo estava ele numa sala anexa à de uma cirurgia de um homem que passava por um procedimento. Ele acordou-se no meio pela baixa dosagem de anestesia. O médico que o acompanhava pediu à assistente: “Chame Jesus”, referindo-se ao amigo. Contam que o homem apressou-se em dizer: “Chamem minha mulher porque quero me despedir”. Depois ficou engraçado. No momento ficou claro o quanto o nome Jesus tem poder.

Dr. Jesus acredita no ser espiritual homônimo. O Jesus que o Dr. Jesus crê parece ser sereno e não gosta de dogmas. Não cobra que se vá à missa toda a semana, nem que use escapulários ou similares. O médico acha que Jesus é mais presente do que pressupõem igrejas e religiões. “Ele está no ato de fazer o bem. Em viver em harmonia com a mulher, o colega de trabalho, o filho…”, teoriza. Por respeito à mãe, dona Adela, Dr. Jesus Reyes Livera pendurou no espelho retrovisor interno do seu veículo um pequeno crucifixo. “Ela deu a todos os filhos. Se eu tirar, ficará ofendida e eu respeito porque, para as mães, os filhos sempre continuam precisando de cuidados”. Dona Adela, agora com 75 anos, continua sendo hoje o que era para Dr. Jesus há trinta anos. Para o médico, isso também é divino.