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Recomeço de vida em 3D

“Só andava de boné. Não tinha coragem de sair na rua. As pessoas zombavam de mim”, contou o jovem Alex Anrade, 23 anos, morador da comunidade Roda de Fogo, no bairro de Torrões, Zona Oeste do Recife. Aos 18 anos, em uma briga perto de casa, levou um tiro na cabeça. “Fui defender um amigo e acabei sendo atingido. Foram três disparos. Um de raspão no nariz, outro falhou e o último foi certeiro”, detalha Alex, que teve que recorrer à cirurgia para reconstruir parte do crânio com próteses customizadas feitas com impressoras 3D. Para conseguir se operar, foram cerca de cinco anos esperando na fila. Há dois meses, veio a sensação de recomeço de vida. Sinto-me muito bem. Nasci de novo. Agora, posso sair de casa sem vergonha e, também, sem escutar as pessoas dizendo ‘cabeça amassada’”, diz, sorridente.

A técnica reparadora que ajudou a devolver parte do crânio de Alex é oferecida pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em Pernambuco. O trauma causado na caixa craniana ocasiona uma visível deformação na estrutura da cabeça que pode causar limitações nas atividades diárias e vida social. A parceria já beneficiou 35 pacientes. É realizada no Hospital da Restauração (HR), no Recife, com o suporte do Centro de Tecnologia da Informação (CTI) Renato Archer, em Campinas, São Paulo, unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).

No HR, funciona um serviço e neurocirurgia e trauma amplo. Para sobreviver, parte dos pacientes que sofrem algum tipo de trauma têm que ser submetida a uma cirurgia chamada de craniectomia desompressiva. Ou seja, retirar grande parte do osso do crânio para que o cérebro possa “inhar” e o paciente tenha chance de continuar a viver. “Pacientes que sobrevivem à cirurgia ficam com um aspecto como se metade da cabeça tivesse faltando. A falta do osso em si gera uma série de sintomas, como dor de cabeça, desconforto, convulsão, dificuldade de mexer o braço e dormir”, afirma o cirurgião plástico Pablo Maricevich, que buscou a parceria em Campinas.

O ex-motoboy Cláudio Nunes, 32, antes de ter parte do crânio reconstruído com a tecnologia 3D, sentia fortes dores de cabeça. Seis meses após ter sido submetido à cirurgia, ele encontrou uma nova forma de viver. “Sei das minhas limitações. Ainda sinto um pouco de tontura, mas não tem comparação. Sinto-me dez mil vezes melhor. Parece que fui devolvido aomundo de novo”, conta Nunes, que esperou aproximadamente dois anos para conseguir fazer o procedimento, após sofrer acidente de moto.

ESPERA

Hoje, a fila de espera chega a 200 pacientes. A média para ser operado é de seis meses a um ano, por causa da demanda represada dos anos anteriores ao início da cirurgia, há pouco mais de um ano. “Se eu consultar um paciente hoje e fizer a tomografia dele hoje, mando essa tomografia para Campinas e, em duas semanas, eles me enviam o protótipo e já podemos marcar a cirurgia. Eu diria que, depois de feita a consulta, já podemos operar o paciente em duas a três semanas”, esclarece Maricevich.

PROCEDIMENTO

Graças à tecnologia 3D, é possível fazer uma reconstrução craniana com próteses feitas sob medida. Segundo Maricevich, o Estado é o pioneiro na utilização do método na Região Nordeste. Para o desenvolvimento das próteses, são utilizadas as imagens das tomografias realizadas pelos pacientes. “O paciente faz uma tomografia computadorizada, disponível no sistema público e aqui no HR também. Ela é gravada em um DVD, que é enviado para o centro, em São Paulo, e reenviado para o HR”, explica Maricevich. A partir daí os detalhes tomam formas por meio de um software que possibilita a criação de protótipos em impressora 3D do crânio defeituoso e da peça milimetricamente exata que será encaixada nessa área. “É transformada uma imagem de uma tomografia em um objeto de plástico que posso tocar e sentir”, enfatiza.

FUNCIONAMENTO

O Centro Renato Archer, em São Paulo, confecciona os protótipos e imprime. “Eles confeccionam por espelhamento. Imprime o crânio, a peça que está faltando. Não é prótese porque imprimem em plástico, ou seja, não é biocompatível”, observou Maricevich. A missão do médico é reproduzir o protótipo em uma prótese. “Tenho que confeccionar uma peça igual. Sempre peço para serem confeccionados dois moldes. Eles mandam o crânio defeituoso, a peça que está faltando e eu reproduzo em material biocompatível”, detalha o cirurgião. É utilizado um cimento cirúrgico de substância biocompatível. “Posso colocar dentro do corpo e ficará pela vida toda, sem rejeição”, garante.

SUBSTÂNCIAS

O molde da prótese é feito em, aproximadamente, dez minutos, durante a operação. É um pó, que, quando mistura, fica fluido. Com o passar do tempo fica espesso, como se fosse uma maisena, até chegar a um estágio que dá para ser modelado. “Pego a forma, modelo, fecho e, quando abro depois de alguns minutos, consigo uma peça muito parecida.”

CUSTO

Caso a cirurgia fosse realizada pelo sistema privado, o custo aproximado seria de R$ 180 mil. “Esse preço é impraticável para o sistema público”, avalia Maricevich, acrescentando que o valor praticado no Estado é 70 vezes menor: R$ 2,5 mil. Ele ainda ressaltou que o centro faz a prototipagem para qualquer paciente do SUS e não cobra pelo serviço, por ser uma unidade pública. “O serviço de neurocirurgia do HR encontrou uma maneira de oferecer essa cirurgia para pacientes do SUS com custos bastante reduzidos”, ressalta.