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“Tudo depende do combate ao mosquito”

De acordo com a evolução dos boletins, vemos que os números do zika e da microcefalia continuam a crescer. É possível dizer que vivemos ou estamos próximos do pico do problema? Ou, se não for o caso, quando atingiremos esse ponto máximo?
Evitamos fazer previsões, pois sabemos que os instrumentos técnicos para fazer esse tipo de análise são imprecisos. Enquanto a gente trabalhar com o número de casos acumulado, eles sempre vão crescer. Segundo uma avaliação preliminar da própria Secretaria de Saúde de Pernambuco, nós já passamos do pico de ocorrências de microcefalia no estado. Não é possível saber ainda sobre os outros estados. Não dá para saber quando isso vai acontecer. Quando pensamos na situação de Pernambuco, é mais fácil pensar que o número de casos subiu muito rapidamente e já começou a cair, mas tudo depende do sucesso das estratégias de combate ao mosquito. Esse é o grande instrumento de prevenção para que a gente não volte, dentro de alguns meses, a um novo aumento de casos.

E em relação ao Sudeste?
Para o Sudeste ainda não é possível fazer previsão. Com as informações que temos, o Nordeste foi a região com maior circulação do zika em 2015. Esperamos que todo o esforço dos governos e da sociedade para reduzir os focos do mosquito, possa funcionar para que a circulação do vírus no Sudeste não seja tão intensa quanto foi no ano passado no Nordeste. Mas ainda não é possível ter a medida do impacto dessas ações.

E quando será?
Pelos instrumentos que temos hoje, pela possibilidade de fazer comparações, provavelmente o indicador mais útil que temos seja o número de casos de dengue. Ainda não tivemos tempo para que as medidas adotadas produzam redução da dengue porque trabalhamos com dados de algumas semanas anteriores. Trabalhamos hoje com dados de ontem. Esperamos que agora, entrando março, comecemos a ter capacidade de comparar o que está acontecendo ao que era esperado. Temos visto a dengue, como todo ano aumentando. Vamos precisar comparar a curva deste ano com a dos anos anteriores, isto é, o número de casos a cada semana, para saber se conseguimos ter uma ascenção menor que a média histórica.

As estatísticas indicam que o maior número de casos está no Nordeste. Como o Ministério da Saúde vê essa relação? Há programas e ações específicas para a região?
O Ministério vem adotando medidas de caráter nacional e, claro, escuta as secretarias estaduais e municipais, pois elas realizam as ações de prevenção e controle. Quem tem a possibilidade de adaptar as medidas nacionais às diferentes realidades são essas secretarias. Nós sabemos que o trabalho está muito intenso em todo o Nordeste e em Pernambuco, em particular, há mais tempo que os outros. Mas quem pode lançar mão de programas específicos são estados ou municípios.

Um dos grandes debates é se o Brasil tem condições de ofertar suporte para atender as crianças com microcefalia. Sabe-se que foram divulgadas iniciativas na área da saúde. O que tem sido e será feito do ponto de vista educacional e de capacitação de profissionais para melhorar a rede de apoio às vítimas e combater o mosquito?
Na saúde posso dizer que existe uma área do Ministério, a Secretaria da Gestão do Trabalho da Educação na Saúde, que já colocou à disposição diversas iniciativas de capacitação, especialmente com o apoio da Universidade do SUS (Una-SUS) e da Fundação Oswaldo Cruz. Há várias iniciativas para capacitação à distância e outras para telessaúde testadas inclusive na Paraíba. E a área de atenção à saúde tem reforçado a orientação aos profissionais da rede pública. Foram feitos protocolos que são verdadeiros manuais para atendimento a crianças e apoio às famílias. Na área da educação, há um enorme engajamento também, especialmente pensando na possibilidade de as crianças de ensino fundamental e médio levarem informação para serem agentes de mudança em casa. Iniciativas também têm ocorrido no ensino superior, principalmente nos cursos da da saúde. Mas sabemos que esse trabalho não acontece em todos os lugares porque são situações heterogêneas. O que podemos dizer é que o Ministério da Educação tem participado de forma intensa do esforço e tem interagido com as secretarias estaduais e municipais. Essa foi a orientação dada pela presidente da República.

Há recomendações para que mulheres evitem engravidar nesse momento. Qual é o impacto desse surto sobre as taxas de natalidade do Brasil e como esse fenômeno é analisado pelo governo?
Não sabemos se haverá impacto nem o tamanho dele, porque há um tempo de cerca de nove a 10 meses que separa o conhecimento da ocorrência da epidemia de algum possível impacto. Em outubro e novembro de 2015 se começou a falar de microcefalia, então é possível que lá em agosto, setembro, surja algum efeito. Existem as informações que são divulgadas nos boletins com números de casos notificados de microcefalia e outras que não, mas cada estado tem essas informações. Há um sistema nacional sobre o número de nascidos vivos a cada mês, semana, mas esse sistema tem uma defasagem. Ainda estamos trabalhando com informações de crianças nascidas em 2015. Essa é uma características do sistema. Existe um prazo para que as informações sejam incluídas, que não é o mesmo prazo que as notificações de microcefalia. Às vezes, há crianças que nasceram fora dos hospitais, cujas informações demoram mais para ser enviadas.

Muitos especialistas questionam a eficácia de programas de combate ao mosquito nos últimos 30 anos no Brasil. Houve erros na condução de programas? Há previsão de alguma mudança nos métodos usados até agora?
Os programas começaram a ser desenvolvidos, inicialmente, de maneira localizada. O mosquito não estava presente na maior parte do país. Fizemos várias versões de planos e programas. Os governos foram mudando o formato do combate ao mosquito. O que é feito hoje é uma estratégia já tradicional no Brasil, que existe praticamente em todo mundo. É a orientação à população, a visita aos imóveis para a eliminação dos focos, o uso de larvicidas noscriadouros que não podem ser eliminados e o uso de inseticida para diminuir a infestação do mosquito adulto. Esse aparente insucesso possivelmente teria sido muito maior caso essas ações não estivessem em operação. Provavelmente teríamos uma infestação muito maior no país inteiro. Existem tecnologias faladas atualmente, mas praticamente todas estão em fase experimental, nunca foram testadas em larga escala. Uma das prioridades do ministério é o trabalho conjunto com grupos de pesquisa para ampliar a escala dessas intervenções. Para que uma ou várias delas, em combinação, possam ser aplicadas em grandes regiões. Estados e municípios também têm autonomia para definir estratégias diferentes, mais adequadas para sua realidade. Os métodos usados são aqueles considerados mais efetivos internacionalmente. Temos expectativa enorme de que outros métodos demonstrem maior impacto e certamente serão adotados, mas isso ainda não é uma realidade. Ainda não temos comprovação da eficácia de métodos que possam ser adotados de maneira ampla no Brasil.

Quando a população poderá ficar tranquila quanto ao zika e quando as mulheres poderão pensar em engravidar sem riscos?
É impossível dar essa resposta hoje. Nós não conhecemos ainda a dinâmica da doença em nosso país. É possível que nós tenhamos uma redução importante da circulação do vírus com a redução da infestação do mosquito e também é possível que em muitas localidades tenha havido grande circulação do vírus e já tenhamos tantas pessoas imunes que a epidemia se extingua por si só. Mas não temos como fazer qualquer afirmação ainda. Não depende apenas das pesquisas desenvolvidas, mas do comportamento natural da epidemia também. Nós não sabemos como será.