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Crack, um perfil do usuário

Cinquenta e nove porcento dos usuários de crack que buscam ajuda nos serviços de proteção na Região Metropolitana do Recife estão trabalhando atualmente. A grande maioria é homem, tem menos de 25 anos e vínculo familiar rompido. Esses outros dados fazem parte de um novo perfil realizado por pesquisadores da Fiocruz que será divulgado integralmente depois de amanhã no auditório da instituição. Estudos dessa categoria são importantes para pautar as políticas públicas de combate à droga, mas não vêm sendo utilizados por todas as prefeituras nos últimos anos.

Conhecer os usuários permite o combate a suas vulnerabilidades e o investimento de suas potencialidades. Traumas infantis, comorbidades psiquiátricas, como a droga se expressa na história pessoal do usuário, exposição ao risco de princialmente às redes social e efetiva estão entre as várias questões que devem ser avaliadas antes de oferecer um serviço de apoio, de acordo com a doutora em Psiquiatria ela UFRGS, Joana Narvaez.

“Cada usuário tem um nível diferente de disfuncionalidade e uma especificidade. Deve-se trabalhar com esses estágios .O trabalho e a rede afetiva, por exemplo, são pilares que dão suporte a uma pessoa. Uma abstinência sem eles, sem qualidade de vida, não faz sentido. Precisam ser trabalhados”, explicou. “Já as comorbidades psiquiátricas como a transtorno de estresse pós-traumático, depressão ou ansiedade, precisam ser verificadas. A droga pode estar sendo utilizada para amenizar os sintomas.”

Narvaez realizou um estudo com a população de 18 a 24 anos de Pelotas, no Rio Grande do Sul. A pesquisa mostrou que os jovens usuários do Sul têm uma estrutura parental partida, assim como os recifenses. Lá, como aqui, o desemprego não é normalmente um fator determinante para o uso. Mas a escolaridade é. “O suporte específico para o público é importante porque os prejuízos cognitivos podem ser revertidos, em maior ou menor grau. Quando a abstinência se estende, as capacidades de resolução de problemas, a memória e a atenção, lesados, passam a voltar”.

A doutora em serviço social Iracema Frazão realizou um estudo de perfil em Camaragibe, na RMR, há três anos. Entende que o estudo revela quantitativamente a maioria dos casos, mas há situações em que o padrão não é seguido. “Encontramos na cidade um aposentado que começou a fumar crack na terceira idade.A sequência de experimentação: álcool, maconha e crack não é necessariamente uma regra, também”, afirmou. As mudanças de comportamento são o foco dessas pesquisas, de acordo com a doutora em sociologia das drogas pela Universidade de Londres, Roberta Uchôa. “Todo usuário não é o mesmo usuário. Cada pessoa é diferente. Quanto mais os conhecemos, melhor a ajuda que disponibilizamos. As políticas precisam se adequar ao conhecimento criado pela academia. Na última década tivemos um avanço com os Caps, albergues terapêuticos e consultórios de rua, mas atualmente o atendimento está padronizando”, avaliou Uchôa. A pesquisadora trabalha há trinta anos com os usuários e coordenou a realização de um perfil específico do Recife, finalizado em 2013. “Na época, não nos chamaram para conversar. Espero que façam isso agora com os pesquisadores da Fiocruz para que revivamos os acertos. A cidade já foi referência nacional nesse combate.”