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Zika: procura por abortivos dobrou

O Brasil dobrou a solicitação por abortivos desde o início do surto de microcefalia relacionada ao zika em outubro do ano passado. Desse período a 2 de março deste ano, mais de 1,2 mil mulheres utilizaram o serviço da ONG holandesa Women on Web (WoW), que assiste mulheres interessadas em abortar, mas moram em locais onde a prática é proibida. A informação, publicada na revista científica americana The New England Journal of Medicine, leva especialistas à conclusão de que no País o Ministério da Saúde influenciou na procura pelo aborto ao pedir tardiamente o adiamento de gravidez após relação entre o vírus e a microcefalia ser constatada.

O estudo analisou a solicitação das pílulas por moradores de outros países latinos americanos onde o aborto é proibido e o zika é transmitido pelo Aedes aegypti. Dentre oito, apenas a Jamaica não teve um aumento significativo após o surto. Pelo contrário, os jamaicanos diminuíram as solicitações em relação ao período anterior. A razão proposta pelos pesquisadores é a de que o governo jamaicano aconselhou o adiamento da gravidez muito antes de o surto apareceu. Na avaliação dos americanos, o Ministério da Saúde do Brasil agiu de forma contrária, assustando as gestantes.

Legalização

Para especialistas pernambucanos, os métodos seguros orientados e apoiados pela ONG holandesa trazem a discussão da legalização do aborto – no Brasil, o aborto é considerado crime, salvo em três casos: quando há risco de vida para a mulher causado pela gravidez, quando a gestação é resultante de um estupro ou se o feto for anencéfalo.

Isso, porque há diferença apenas social entre as que realizam a prática sem danos à saúde e àquelas que são levadas à morte. Para a grande maioria das mulheres gestantes de microcéfalos, que vivem abaixo da linha de pobreza, de acordo com o Governo, isso é impensável. Assim, quantificar o aumento da procura pelo aborto localmente é difícil porque as mulheres que estão procurando os medicamentos sequer chegam ao conhecimento do Estado.

“São medicamentos seguros, cuja consequência para o corpo da mulher, não passa de um sangramento semelhante ao de uma menstruação comum”, avaliou o coordenador do Serviço de Apoio à Mulher Wilma Lessa, serviço de abortamento legal que funciona dentro do Hospital Agamenon Magalhães, no Recife, Arlon Silveira.

De acordo com Silveira, em geral, as mulheres que passam pelo serviço do Estado têm baixa escolaridade e, comumente, não têm noção do problema. “Percebo que não conseguem prever consequências. Assim, a possibilidade de microcefalia não as faz buscar o aborto. Não são as mulheres que moram em Casa Forte e abortam com segurança. As que buscam o aborto e chegam até aqui – ou morrem – são as mesmas de sempre. Utilizam métodos mecânicos como arames e sondas, causadores de danos sérios à saúde reprodutiva”.

Apreensão

De acordo com a Anvisa, houve aumento de 40% na apreensão de remessas de pílulas abortivas entre outubro de 2015 e fevereiro de 2016, se comparado ao mesmo período do ano passado. Para se ter uma ideia, com a vigilância firme da Receita Federal em relação aos remédios, a ONG holandesa aconselha usuários a buscarem pílulas em países vizinhos.