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Os super-heróis de carne, osso e exoesqueleto

O personagem Tony Stark, da Marvel, era um mimado playboy e inconsequente, fabricante de armas, até criar um exoesqueleto capaz de lhe dar superpoderes: nascia o Homem de Ferro, um dos mais populares super-heróis das histórias em quadrinhos e do cinema. Na vida real, contudo, uma ideia assim não precisa acabar em uso militar: há quem tenha batalhas mais graves pela frente. É o que acontece com a pesquisa envolvendo a equipe do brasileiro Miguel Nicolelis, neurocientista da Universidade de Duke, na Carolina do Norte, Estados Unidos. Seu experimento com exoesqueleto comandado por ondas cerebrais para o tratamento de paralisia total (paraplégicos com antigas lesões na medula espinhal), cujo mundo tomou conhecimento na abertura da Copa do Mundo de 2014, no Rio, finalmente mostrou os primeiros resultados animadores. Um grupo de oito pacientes está com Nicolelis há dois anos. Alguns recuperaram movimentos da perna e controles de bexiga e intestino. Houve caso até mesmo de recuperação da vida sexual. A seguir, trechos de uma entrevista que Nicolelis concedeu ao jornal Folha de S. Paulo, na semana em que anunciou os primeiros resultados. Que venham os heróis de verdade.

DEPOIS DA COPA

Desde o início, nosso plano era continuar seguindo os pacientes. Começamos o treinamento no final de 2013. Tivemos uma grande surpresa em julho de 2014, totalmente inesperada. Um mês depois da Copa, começamos a notar que os pacientes estavam tendo recuperação de movimentos, contrações musculares abaixo da lesão, o que ninguém esperava em lugar nenhum do mundo. Também estavam relatando melhoria de sensibilidade. Uma paciente chegou e falou: “Eu fui à praia e senti sol na minha perna”. Eu olhei para a médica, a médica olhou para mim. Como é possível isso? Sentir o sol queimando pela primeira vez em 14 anos, depois de uma lesão?Quando se tem uma lesão diagnosticada como clinicamente completa da medula espinhal, abaixo dessa lesão não há movimentos, e a pessoa não tem sensibilidade do seu corpo. Nossos pacientes tinham lesões em diferentes níveis. Durante anos, eles tinham feito exames neurológicos e não havia mudança na sintomatologia da lesão medular abaixo da lesão. Então, nós refizemos o exame neurológico e começamos a contatar colegas pelo mundo.

CHOQUE

No trabalho que estamos publicando, relatamos a melhora até o final de 2014, oque já foi surpreendente.Mas essa melhora não parou. Ela continua até hoje, não atingiu um platô ainda, está continuando a crescer. No final de 2014, já notamos uma melhora de sensibilidade corpórea de cinco segmentos da medula, mais ou menos metade do tórax, para baixo da lesão. Então, alguns pacientes que tinham lesão baixa começaram a ter sensibilidade no períneo, nas pernas e começaram a poder contrair voluntariamente os músculos das pernas, do quadril. Foi um choque, ninguém esperava. Estamos seguindo os pacientes até hoje. Vamos ter um outro trabalho como relato do final de 2014 até junho de 2016.

NOVO PARADIGMA

É surpreendente ver os registros quantitativos; registramos as atividades individuais dos músculos. A musculatura não estava fazendo nada e, de repente, uau! Temos as medidas de força que os pacientes produzem comas pernas. Isso vai mudar a conduta dos pacientes com lesão medular, criar um novo paradigma.

PACIENTES

São oito pacientes originais, que foram seguidos até o final de 2014. Um dos pacientes mudou de cidade em 2015 e teve que sair do projeto; continuamos com sete. Em dezembro de 2014, metade do grupo, por causa dessas mudanças, foi reclassificado de paralisia completa para paralisia parcial. Uma mudança assim nunca foi relatada na literatura de lesão medular, com esse número de pacientes. Há relatos espontâneos, com um ano, menos de um ano de lesão. Depois de um ano e meio, quando a gente considera o paciente crônico, resultados de melhora dessa magnitude não achamos em lugar nenhum. Agora, em junho, todos os sete já foram reclassificados. Essa melhora não é só sensorial e motora. Outra coisa muito surpreendente é que a melhora é também visceral. A melhora visceral é paralela à melhora sensorial e motora. Os pacientes tiveram melhora de função cardiovascular. Todos experimentaram melhorada função intestinal tremenda e também do controle da bexiga, conseguindo segurar a urina. A falta de controle esfincteriano é uma condição que traz sérios agravantes, inclusive infecções urinárias. No grupo, o número de infecções urinárias caiu.

CEREBRAL

A combinação de colocar os pacientes de pé, com robôs, com todas as técnicas exo [como o exoesqueleto], mais o uso da interface cérebro-máquina como feedback tátil rico, levou o cérebro a liberar esse processo de reorganização cerebral, que chamamos de plasticidade, ou seja, reorganizar e reinserir o conceito de caminhar. Se sabia que isso tinha sido quase eliminado. Em 2013, começo de 2014, se pedia para o paciente: “Pense que você vai andar agora, pense que você está mexendo as suas pernas”. E nada acontecia coma atividade elétrica do cérebro. Era como se o cérebro não registrasse mais o conceito ou a representação das pernas que todos nós temos. Na medida em que a recuperação foi evoluindo, fomos vendo que a atividade cerebral foi mudando. Hoje, quando se coloca o paciente no robô e eles imaginam o movimento das pernas, se vê a atividade cerebral. SURPRESA

Quando, em 1999, publicamos o primeiro trabalho, eu John Chapin (que iniciou a pesquisa) não achávamos que [a interface] seria uma ferramenta terapêutica. A descoberta de que se pode induzir uma melhora clínica é totalmente inesperada.

TREINAMENTO

As nossas sessões de treinamento eram extremamente intensas, como nunca foram feitas nessa área. A pessoa tinha que realmente imaginar, usar o sinal elétrico do cérebro para controlar ou um “avatar” de si mesmo ou o exoesqueleto ou o robô fixo. Além disso, tinha que interpretar o feedback tátil, o que foi chave. Nós criamos uma ilusão do tipo ilusão do membro fantasma, que é comum em amputados. Os pacientes começaram a relatar: – “Nossa! Eu acho que estou andando”. Só que eles estavam de pé e parados. Isso foi uma descoberta empírica.

OLÍMPICO

Fico mais orgulhoso é que tudo isso foi feito aqui. Claro que teve colaboração internacional [um mural mostra 156 pessoas de 25 países, 5 continentes]. Meus grandes amigos abriram suas patentes, trabalharam de graça, nenhum cientista sênior recebeu. Mas tudo isso foi pago pelo governo brasileiro, foi realizado no Brasil e começou em Natal. Sem um projeto do CNPQ, não teria acontecido. Os pacientes são brasileiros, a equipe de reabilitação é toda brasileira. Tem roboticista e engenheiro brasileiro. A Nature resolveu dar destaque porque achou que realmente é um marco na medicina e na neurociência. É uma contribuição para demonstrar para o mundo inteiro que a ciência brasileira é capaz de fazer de competir com qualquer lugar do mundo. É um presente. Gente de todo mundo visita o nosso laboratório de neurorreabilitação robótica, sem igual no mundo.