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Voluntariado afasta o crack

O Brasil representa 20% do consumo mundial do crack. Enquanto o Estado não consegue conter o avanço do uso e do tráfico da droga crack, o jeito é arregaçar as mangas. O Governo Estadual foca no tratamento. A prefeitura ensaia os primeiros passos em direção da prevenção. A sociedade civil se movimenta. Voluntários trabalham para ocupar jovens com aulas de esportes, dança, música e até meditação. Doam tempo em comunidades carentes onde os traficantes, sem dificuldade, os seduzem e os aliciam. Hoje, no Dia Nacional do Voluntário, aos beneficiados sobram a sorte e a memória de amigos que foram presos ou morreram em decorrência de dívidas com o tráfico.

Luiz Ferreira, 47, deu início à ONG Brasília Teimosa Driblando o Crack há 14 anos. Ensina futebol e cidadania a mais de cem jovens entre 5 e 20. O bairro é um dos que vêm perdendo a queda de braço contra o crack. O estigma da comunidade soma-se ao aumento dos homicídios ali, nos últimos meses. Aumento sensível, registrado pela Polícia Civil. Sem atividades gratuitas para ocupar os jovens, as ruas se enchem de crianças e jovens ociosos. “O tráfico tem um jeito próprio de seduzir. Pedem para uma criança comprar algo e dizem para ficar como troco. Ele permanece ali para ter mais ‘trabalho’ e começa a repassar drogas. Em breve, faz isso em troca de pedras de crack”, descreveu Luizinho.

É na ausência do poder público onde entra o voluntariado. O respeito com o facilitador é indiscutível. E o futebol é pretexto para gotejar conselhos. Um dos garotos, de 16 anos, participa das aulas três dias por semana. “Quando não estou lá, estou fumando maconha.” Tem experiências como crack e com a morte. “Meu amigo morreu ali, naquela esquina, e deixou um filho. Não foi o único que conheci que morreu por dívidas com o tráfico”, lembra o garoto, que deixou a escola há sete anos. Prefere não pensar que pode estar fazendo negócios como assassino do amigo quando compra droga, sempre pagando adiantado. “É ruim para a minha cabeça. Quero parar.”

No Totó, Zona Oeste da Cidade, à beira da avenida Liberdade – onde há, contraditoriamente, um presídio -, a prevenção também fica por conta de voluntários. Diariamente, na Cores do Amanhã, de duas a três oficinas são oferecidas. Todas gratuitamente. Tem aula de danças, de violão, de grafitagem, de artesanato. São 450 beneficiados. E 60 voluntários fixos. “Tem os que aparecem quando têm tempo e perguntam como podem ajudar. Uma das mães chega, cozinha para dezenas de pessoas. Vai pessoalmente ao Ceasa pedir comida para preparar a refeição”, conta a idealizadora do projeto, existente desde 2009, Jouse Barata.

Jéssika Hilário, 23, vai todos os dias ao Cores. Faz oficina de grafitagem, artesanato, percussão e karatê. É faixa roxa. Onde mora, no Curado, em Jaboatão dos Guararapes não há alternativas. “Lá as crianças ficamnas ruas, sem fazer nada. Os olhos dos meninos, vermelhos como tochas. Já conheci muitos que morreram e foram presos”. Em Sapucaia, Olinda, a situação se repete. “Se houvesse um lugar assim, a história de muitos seria diferente. Eles ficam em vulnerabilidade social. Eu já nasci rodeada dessas questões, são muitas mortes”, opina Polyana Andrade, 22, que “viaja” para o Totó pelas oficinas de artesanato e grafite.

Respirar fundo

Se não previne, o Estado tampouco é capaz de evitar as consequências do crack. O filho de Aurelina Barbosa, 60, morreu com um tiro no rosto, por engano. O bairro de Peixinhos, em Olinda, onde moram, também é dominado pelo tráfico. O alívio à dor também só chega com a atuação de voluntários. A organização Arte de Viver ensina meditação, respiração e promove qualidade de vida para mulheres que perderam filhos para a violência.

“Perder um filho é muito difícil. Pensamentos de tristeza são muito recorrentes. Na meditação guiada conseguimos sair um pouco disso, sentir menos tensão. Não falto nenhuma semana”, conta. “Sentimentos muita diferença, porque vivemos uma situação que nos deixa presa, sem querer se comunicar com ninguém. Aplicando as técnicas que nos ensinam nós dormimos e vivemos melhor”, explica outra aluna do grupo de Peixinhos, Rejane Barbosa, 49.

Aposta da Prefeitura

A Prefeitura do Recife tem dado os primeiros passos na prevenção do crack com a criação da Secod, em março de 2015. Ela é um dos eixos de enfrentamento do órgão. Aposta, inclusive, no voluntariado. De acordo com a assessoria de imprensa da Secod, foram preparados 2 mil agentes multiplicadores de prevenção às drogas. São moradores da comunidade que aprendem como ajudar os usuários e como aconselhar os que não são. A assessoria também informou que atingiu mais de 3mil crianças em rodas de diálogos promovidas em escolas e certificou 198 jovens em vulnerabilidade social, inserindo 26 no mercado de trabalho.