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Prêmios Nobel: uma celebração da inteligência humana

Jairo Rolim Lopes de Almeida
Ph.D. (1980): Birmingham University, UK; Pós-Doutorado (1987): University of California, Los Angeles / SPT-CEA, Saclay.

Publicação: 06/10/2016 03:00

Parafraseando um físico famoso, daqui a 200 anos ninguém saberá os nomes dos políticos atuais, talvez com alguma destacada exceção. Mas, com certeza as grandes descobertas científicas da nossa era serão sempre lembradas, assim como nos lembramos de Faraday e seus estudos da primeira metade do século XVIII, isso sem mencionar Isaac Newton e outros igualmente famosos.
Assim, se estamos assistindo esta semana a distribuição dos prêmios Nobel em todos os jornais, sendo notícia em todo o mundo, existem muitos motivos para isso. Um deles seguramente é o reconhecimento das sociedades desenvolvidas culturalmente sobre a importância das descobertas científicas que avançam a fronteira do conhecimento humano sobre o nosso universo. Daí toda essa divulgação, prêmios e, às vezes, até veneração por parte dos compatriotas desses grandes cientistas. Vale lembrar que, em geral, as pessoas vencedoras desses prêmios científicos foram bem educadas em excelentes universidades, por grandes professores e não raro por ganhadores do prêmio Nobel também. Por conseqüência, sendo quase impossível ganhar tais prêmios fora de uma academia científica bem estruturada e devidamente financiada.
Como físico e cientista, sempre acompanho com interesse a premiação do Nobel, além de outras honrarias. Desta forma, neste ano de 2016 fiquei muito feliz ao ver no noticiário que os meus orientadores do PhD, realizado na University of Birmingham – Inglaterra, os professores David J Thouless e John M Kosterlitz, haviam ganhado o Nobel de física, juntamente com o prof. Frederik D M Haldane, por suas descobertas de novas fases ou estados da matéria que surgem em supercondutores, superfluidos e filmes magnéticos finos. Trabalhos de natureza teórica que, posteriormente, tiveram seus resultados verificados experimentalmente descortinando assim um novo continente em pesquisas científicas além de possíveis aplicações em novos materiais e eletrônica.
Profissionalmente, fui muito feliz ao optar por fazer física e de ter tido a oportunidade de trabalhar com esses grandes professores. Ao ingressar na UFPE, em engenharia no ano de 1969, pouca coisa funcionava direito devido à instabilidade política da época. Assim, no ano de 1971 os professores Sergio Rezende, Maurício Coutinho, Ivon Fittipaldi e Marco Gameiro refundaram o Departamento de Física da UFPE visando critérios de excelência, tal como ele existe hoje, e atraindo bons estudantes para a área de física. Posteriormente, tive o apoio da Universidade Federal de Pernambuco para ir trabalhar com o prof. Thouless, na Universidade de Birmingham, em problemas envolvendo sistemas magnéticos desordenados, os chamados vidros de spin, em que ele e o prof. Mike Kosterlitz trabalhavam. Desta forma, participei na realização de alguns trabalhos teóricos com eles que, para minha alegria e dos meus amigos, também tiveram repercussão científica e possíveis aplicações práticas posteriores.
Também é importante lembrar que hoje em dia é muito fácil acessar informações e verificar um dos famosos trabalhos que levaram a essa premiação em física, por exemplo:
J. M. Kosterlitz & D. J. Thouless, Ordering, metastability and phase transitions in two-dimensional systems, Journal of Physics C: Solid State Physics, Vol. 6 pages 1181-1203 (1973)
Porém, na época, assim como acontece até os dias de hoje, diversas pessoas tanto pelo simples fato de não ter contato com o mundo científico quanto por simples ignorância, poderiam olhar tais estudos e indagar quais seriam suas aplicações e importância de tal descoberta. Sobre isso, há uma conversa icônica de Faraday com um ministro inglês em sua época sobre suas descobertas na eletricidade e magnetismo onde ele foi indagado da seguinte forma: “Senhor Faraday, isto tudo é interessante, mas qual é sua utilidade?”. A resposta do cientista: “Talvez, senhor, esta descoberta dê lugar a uma grande indústria, da qual o senhor possa arrecadar impostos”. E, assim, toda a indústria de comunicação de hoje deve muito ao trabalho de Faraday mostrando que, apesar da não aplicabilidade imediata, isso é um exemplo de que essas grandes descobertas mudam a vida humana e assim deverá ocorrer com o trabalho dos vencedores do Nobel de física deste ano.