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A fumaça do crack

O tratamento de choque dado pelo prefeito de São Paulo, João Doria, aos dependentes de crack reunidos na região conhecida como cracolândia, na capital paulista, retomou de forma polêmica um problema que se alastra pelo Brasil. Depois de saírem do antigo local por intervenção da polícia, usuários e traficantes foram se concentrar na Praça Princesa Isabel, onde quase mil usuários e traficantes passam o dia. Além da tentativa de dispersão à força, que não deu certo, o internamento compulsório, sugerido pela administração Doria, está longe de ser um consenso entre os que buscam soluções para tratar o vício e seus efeitos sociais, junto com as consequências devastadoras sobre o organismo dos viciados.

Mesmo sem a existência de cracolândias, o consumo de crack em Pernambuco é uma chaga de graves proporções. O cruzamento de estatísticas demonstra que há uma relação direta entre a quantidade do entorpecente em circulação no estado e as taxas de homicídios e crimes contra o patrimônio. Noutras palavras, o crack é o principal motivo do quadro de violência com dimensão de guerra que assusta o cidadão. Pelas estimativas da Secretaria de Defesa Social (SDS), cerca de 70% dos roubos a pedestres miram o telefone celular da vítima, por ser essa a moeda de troca mais comum para a aquisição da droga, como destacamos em matéria publicada hoje no JC. O efeito sobre a coletividade pode ser mortal: em maio passado, mais da metade dos homicídios pode ter sido cometida devido ao tráfico.

O consumo da “pedra” não é menos perigoso por aqui, embora talvez seja menos chocante, por falta de uma praça aberta de consumo como as cracolândias paulistanas. Nos depoimentos colhidos pela reportagem, no entanto, é visível a destruição de indivíduos cujas vidas perderam o sentido – afastando-se da família, abandonando a própria dignidade para ver o ingresso na criminalidade como único caminho para manter o vício.

Surgida na década de 1980 nos Estados Unidos, chegando ao Brasil nos anos 1990, o crack, derivado da cocaína, afeta sobretudo indivíduos socialmente vulneráveis, de baixa renda, pouca escolaridade e, em muitos, casos, sem moradia. Em segundos, a fumaça inalada atinge o cérebro e substitui a dor da existência por um estado de euforia que pode durar alguns minutos – seguido da queda na depressão que alimenta o gatilho de desespero por mais pedras.

Em Pernambuco, a fumaça do crack avança, deixando um cheiro forte de medo e morte. O drama está presente em quase todos os municípios. Profissionais de saúde e assistência social concordam com as autoridades policiais que buscam, juntos, fazer mais que uma atuação profilática, e enfrentar tanto a insegurança dos viciados, prisioneiros da dependência química, quanto a violência provocada pelo comércio da droga. Para a maioria dos que lidam com essa calamidade pública, é preciso impedir a entrada do crack e promover ampliações e melhorias na rede de atendimento aos acometidos pelo vício.