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Funcionários da Hemobrás denunciam ‘revés’ da União e rebatem ministro, que quer levar fábrica para reduto eleitoral

Irritados com declarações do ministro da Saúde, Ricardo Barros, funcionários da fábrica da Hemobrás em Goiana, na Mata Norte de Pernambuco, divulgaram uma nota de repúdio às afirmações dele. Em audiência na Comissão de Assuntos Sociais do Senado na última quarta-feira (2), Barros afirmou que os profissionais “não fazem nada”. No documento, eles rebateram o ministro, que quer levar a produção do bioquímico com maior valor agregado para o Paraná, o seu reduto eleitoral , e afirmaram que ele apresentou informações equivocadas na reunião com os parlamentares. Além disso, apontaram ausência de investimento da União na unidade.

A polêmica envolvendo a Hemobrás é por causa do negócio que o ministro quer fechar com um consórcio que engloba a empresa suíça Octapharma, citada na Operação Máfia dos Vampiros, e os laboratórios públicos Butantã, de São Paulo, e Tecpar, do Paraná, além da própria estatal que tem fábrica em Pernambuco. Com isso, seria transferida a tecnologia para a produção do fator VIII recombinante, usado no tratamento de hemofílicos, para uma unidade em Maringá (PR), base eleitoral de Barros. Hoje, uma Parceria de Desenvolvimento Produtivo (PDP) com a empresa francesa Shire prevê que a produção deveria passar para Pernambuco até 2023.

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Questionado pelo senador pernambucano Humberto Costa (PT), líder da oposição, o ministro afirmou que a escolha do Paraná é “republicana” e por interesse da empresa. “Se o senhor pode levar para o seu estado a Hemobrás quando era ministro, o senhor não pode me criticar por levar para o meu estado nada. Então vamos deixar essa questão no chão”, retrucou na audiência. O petista foi esteve à frente da pasta no primeiro governoLula (PT), quando começou a intenção de ter uma fábrica assim .

O ministro afirmou na audiência no Senado, porém, que “não houve sequer um tijolo colocado na fábrica  (da Hemobrás) para o fator VIII” nem a transferência da tecnologia foi iniciada. Os funcionários afirmam, porém, que é preciso que o governo federal garanta o aporte financeiro para a construção da unidade. “O que não ocorreu e impediu a Hemobrás de atuar neste sentido por sufocamento financeiro contra o qual a Hemobrás não tem como se defender”, afirma a nota.

Os profissionais frisaram ainda que estão sendo desenvolvidas em Goiana as etapas de formulação, envase asséptico, liofilização, rotulagem, embalagem e controle de qualidade, tudo isso adaptando os blocos destinados aos hemoderivados para esse processo.

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O ministro reclamou de terem sido investidos R$ 1 bilhão desde o início da construção, em 2007, e faltarem ainda R$ 600 milhões para a conclusão da planta. O questionamento de Humberto Costa ainda enfatizou que foram liberados R$ 4,2 bilhões em emendas parlamentares este ano – e deste valor, R$ 3,5 bilhões foram para deputados federais, sendo que 108 parlamentares que haviam declarado voto pró-Temer uma semana antes da votação da denúncia contra o presidente por corrupção passiva haviam recebido R$ 1 milhão a mais que os outros. “Não me parece coerente”, reclamou o senador.

“É prejuízo que não se recupera”, chegou a afirmar Barros durante a audiência. “Duzentos e cinquenta funcionários da Hemobrás que diariamente são transportados em ônibus para a sede da empresa, lá fazem a sua refeição e retornam para não fazer absolutamente nada, porque nenhum dos seis prédios da Hemobrás terminou”, disse ainda. “Não se faz nada.”

Os trabalhadores responderam que é graças ao fator VIII recombinante que o ministério vem atendendo pessoas com hemofilia. “Com isto, não entendemos como prejuízo levar saúde, dignidade e oportunidades a milhares de pessoas com hemofilia. Entendemos como uma obrigação do Estado e nós, como empregados da Hemobrás, trabalhamos com orgulho de fazer parte desta nobre missão”, diz a nota de repúdio divulgada por eles.

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Os funcionários ainda afirmaram: “Pelo visto, Sua Excelência acredita, duplamente equivocado, que mais uma categoria na saúde também está ‘fingindo que trabalha “. Os profissionais enfatizaram que na unidade de Goiana há os processos de “qualificação de uma centena de hemocentros e serviços de hemoterapia como fornecedores de plasma para fracionamento industrial nas cinco regiões do país desde 2011”, armazenamento e triagem do plasma e gerenciamento do recolhimento de plasma em cada um dos centros fornecedores qualificados desde 2013.

“Senhor ministro, nossos empregados acordam todos os dias às 5 horas da manhã para serem transportados à nossa fábrica para, dentre outras atividades, triar plasma em salas com temperatura de 5ºC em pé durante todo o dia, tudo por prezar primariamente pela qualidade da matéria-prima e do nosso medicamento. Nossos empregados também acordam diariamente para se deslocar para todo o Brasil, longe de seus lares e famílias, para certificar a qualidade de fornecedores de plasma em todo o país. Alguns de nós, senhor ministro, passam a madrugada em aeroportos para garantir que a recepção dos nossos medicamentos seja feita atendendo os mais rigorosos critérios de qualidade de logística farmacêutica. Outros de nós acordam às 5 horas para supervisionar um sistema de garantia da qualidade que deve funcionar com constância, robustez e elevado o padrão técnico. Nossos engenheiros atuam 24 horas por dia, 7 deias por semana, para garantir que nossos sistemas de preservação de matéria-prima não falhem, preservando o plasma e sua qualidade. E tantos outros de nós, empregados da Hemobrás, acordamos às 5 horas da manhã e somos transportados para garantir que toda a administração da Hemobrás possa fluir mesmo diante do revés que é imposto a esta estatal”, desabafam na nota.

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Os funcionários enfatizaram que houve redução de despesas na ordem de R$ 18 milhões entre 2015 e 2016 e que os processos realizados na Hemobrás venceram os prêmios Outsystems Innovation Awards, em Portugal na categoria Melhor Automação de Processos, pelo Sistema de Auditoria de Hemocentros, em 2016, e Infraero de Eficiência Logística, em 2014 e 2016.

Mesmo com as reclamações da bancada de Pernambuco e dos funcionários, além de uma liminar para não suspender o acordo entre a Hemobrás e a Shire , Barros está irredutível sobre o negócio com a Octapharma. “Hemobras é Hemobrás. O ministério tem que resolver o sangue do Brasil”, alegou. “Como o Butantan não aceitou, os senhores podem não aceitar, mas nós vamos avançar”, disse ainda. “Não há nenhum prejuízo se o Estado de Pernambuco não quiser a fábrica de fracionamento em Pernambuco. Não há nenhuma exclusividade da Hemobrás nesse negócio do sangue.” O ministro explicou que, de acordo com a articulação com a nova empresa, seriam investidos US$ 301 milhões no Paraná para levar para lá a produção do fator VIII recombinante e US$ 500 milhões em Pernambuco para que o Estado fique com o fracionamento do plasma, outra função já prevista para a fábrica de Goiana.