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Outro olhar sobre as drogas

Especialista em segurança pública e políticas de drogas, Ilona Szabó, 39 anos, estuda o assunto há dez anos, tempo em que integrou duas comissões internacionais nas quais era responsável por auxiliar líderes mundiais – incluindo o ex-secretário-geral da ONU Kofi Annan – na definição de estratégias para enfrentamento do problema. Acreditando que proibir o uso de drogas é uma utopia, ela defende a adoção de políticas mais humanas, onde usuários não sejam criminalizados, dependentes sejam tratados como doentes e o mercado de drogas seja regulado. Para trazer a discussão de suas ideias à sociedade, Ilona publicou, em colaboração com a jornalista Isabel Clemente, o livro Drogas: as histórias que não te contaram (Editora Zahar – R$ 39,90), lançado no Recife, na última segunda-feira, na Livraria Cultura, no Centro. Nele, a questão é analisada com base em cinco personagens conectados pelas distintas etapas da cadeia de produção, venda e consumo de drogas. Daniel é uma criança colombiana entregue ao narcotráfico pelos pais. Irina, uma mulher que se arrisca no transporte do produto pelo marido. Mete-Bala, um jovem traficante que sonhou ser dançarino. Jaqueline, a força policial em meio a um dilema. E Cadu, um dependente que luta pela sobrevivência. Personagens que refletem a situação de milhares de pessoas envolvidas com a questão. Durante o lançamento, ao debater o assunto com o delegado da Polícia Civil Marcelo Barros e o secretário de Segurança Urbana do município, Murilo Cavalcanti, Ilona criticou a postura do governo de Pernambuco de bonificar policiais por apreensão de drogas, disse que a polícia está enxugando gelo correndo atrás de pequenas quantidades do produto e sugeriu foco na redução de homicídios.

JORNAL DO COMMERCIO – De onde veio o enredo do livro?

ILONA SZABÓ – Veio de uma trajetória de dez anos onde eu pude estar participando de duas comissões internacionais de políticas de drogas – a Comissão Global de Políticas sobre Drogas e a Comissão Latino-Americana sobre Drogas. E eu vi, durante essa trajetória, que a gente tem uma maneira de olhar para esse tema que prejudica mais a sociedade do que ajuda. A gente diz que a política de drogas causa mais danos do que a droga em si (frase de Kofi Annan). Essa é a grande constatação.

JC – De que forma isso acontece?

ILONA SZABÓ – A política de drogas é central para questões como educação, direitos humanos, saúde, sistema prisional, corrupção, homicídios, estigmatização de juventude, então afeta negativamente muitas áreas de nosso dia a dia. Eu trabalho há 15 anos com temas de violência e me dei conta de que não eram exatamente as drogas que afetavam todas as causas que me importavam, mas a maneira como lidamos com elas. Se a gente conseguisse olhar no âmbito da saúde pública, estaria reduzindo os danos.

JC– O que deveria mudar?

ILONA SZABÓ – Veja, o que é uma política de drogas hoje, no século 21? A gente precisa prevenir e retardar ao máximo a primeira idade de experimentação e evitar o abuso. Na história da humanidade, as drogas sempre estiveram presentes. A proibição é utópica, ela não vai acontecer. Então temos que lidar com as variáveis: ver como proteger da melhor forma os nossos jovens, não só com regulação, mas com informação; e como ajudar de fato as pessoas que caem na dependência, que é uma doença muito triste para o indivíduos e para suas famílias.

JC – Então, falhamos em tudo?

ILONA SZABÓ – A política atual previa a redução da oferta para aumentar o preço e diminuir o consumo. O que vimos? A oferta não foi afetada, o preço caiu e o consumo aumentou. É uma política que não passa informação de qualidade, não protege nossos jovens. A gente diz que a droga mata, faz mal, mas não explica. Não dá o contexto para as pessoas fazerem melhores escolhas. Tampouco ela foi capaz de desenvolver melhores tratamentos, maneiras de ajudar as famílias e os dependentes. Ela não cumpriu nenhum de seus objetivos e criou vários outros problemas, para quem usa, para quem não usa, para quem gosta e para quem não gosta. Então, tem que parar e ver como fazer diferente.

JC – E como fazer diferente?

ILONA SZABÓ – O primeiro ponto é deixar de tratar o dependente químico como criminoso, como fez Portugal e outros 30 países. Na prática, os medos da descriminalização não se comprovaram. No Brasil, desde 2006 os usuários não têm mais pena de prisão, mas o uso continua sendo crime e não há critérios objetivos que separem usuários e traficantes, quem define é o policial e isso não é justo. Pesquisa feita no Rio de Janeiro em 2015 indicou que foram apreendidos 12 mil usuários (com uma média de cinco gramas de maconha) e presos 13 mil traficantes (com uma média de dez gramas). Os policiais passam uma média de três horas na delegacia com essas pessoas em vez de investigar homicídios. É um desperdício de recursos. Na maior parte dos países, dependente químico é encaminhado para serviço de saúde. O uso em via pública pode ter multa, mas a posse para uso pessoal não é criminalizada.

JC – A senhora falou em regulação da droga. De que forma? Liberando o uso?

ILONA SZABÓ – Essa palavra ninguém vai ouvir da minha boca. Nem a proibição nem o libera geral são reais. Eu falo em regular o mercado. Há heroína médica, com salas de consumo, na Europa. A maconha também é muito usada de forma medicinal. Isso quebra o poder e o lucro do crime organizado. No Colorado (EUA), impostos com o produto são revertidos para educação. Mas no Brasil somos até proibidos de pensar. É preciso investir em pesquisas, em tratamentos de substituição. Também defendo penas alternativas para diferentes partes dessa cadeia. O violento tem que ficar preso, mas não todos. Cerca de 70% das mulheres são presas por envolvimento com drogas e a maioria não é violenta, mas acaba afastada do convívio com os filhos, que ficam desassistidos. Por que não usar a tornozeleira eletrônica? Políticas para egressos do sistema penitenciário também precisam ser consideradas. Quem entra, não sai melhor.

JC – Recentemente, um jovem que havia sido preso com drogas e solto por não ter cometido um crime violento matou um coronel no Rio de Janeiro. E isso tem sido cada vez mais comum…

ILONA SZABÓ – Acho que o foco da nossa política de violência tem que ser mais na apreensão de armas do que de drogas. Armas nascem ilegais, são fáceis de serem rastreadas com tecnologia. É possível identificar o ponto de desvio e punir quem desviou. Mas a gente não faz isso. E sem isso não vamos conseguir desmantelar esse monstro.

JC – Em Pernambuco, há estímulo para que as polícias apreendam mais drogas. Como a senhora vê isso?

ILONA SZABÓ – Acho um incentivo perverso, que dá margem para muitas distorções. É um foco errado que deveria ser revisto. Há hábitos que podemos não concordar, mas que não prejudicam ninguém. O foco tem que ser nos crimes organizados e violentos.