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Ar menos poluído

O grande volume de obras em Jacarepaguá, em função da Olimpíada e do boom imobiliário recente, trouxe, nos últimos anos, uma consequência negativa difícil de observar a olho nu. A qualidade do ar foi profundamente afetada, e os índices de poluição ficaram muito acima dos do restante da cidade. Em 2011, por exemplo, quando teve início a parte pesada das construções, a quantidade de poluentes era quase o dobro da encontrada no Centro, o segundo colocado no ranking dos bairros mais poluídos da capital. Com o fim dos Jogos, a situação melhorou, e a população já pode respirar melhor. Mas, ainda assim, os limites em Jacarepaguá, e também no Recreio, estão acima dos sugeridos pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Esses dados são gerenciados pelo Instituto Estadual do Ambiente (Inea), que tem 71 estações de monitoramento da qualidade do ar, sendo 37 automáticas e 34 semiautomáticas, na Região Metropolitana. Em Jacarepaguá, há duas; e no Recreio mais uma. A avaliação do ar é feita a partir de três parâmetros: material particular total, do grosso e do fino. Entretanto, só há limites definidos por legislação do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) para os dois primeiros parâmetros. Nesses, a região ficou dentro do padrão estabelecido, entre janeiro de 2017 e março de 2018. Um cenário que melhorou após a Olimpíada, já que no período de preparação dos Jogos houve violação em Jacarepaguá, ou seja, o limite permitido foi ultrapassado.

O parâmetro considerado mais tóxico, porém, é o material particular do fino, justamente aquele sobre o qual não há legislação no Brasil. Desde 2010, a professora Adriana Gioda, do Departamento de Química da PUC, faz um acompanhamento dos dados do Inea. Os primeiros números são de 2011, depois de as estações de monitoramento serem inauguradas. Naquele ano, o índice – que considera a quantidade de micrograma por metro cúbico – em Jacarepaguá era de 32. O limite sugerido pela Organização Mundial de Saúde é dez.

– A OMS trabalha com esse número porque muita gente morre todo ano no mundo por causa da poluição no ar; são aproximadamente seis milhões de pessoas. O material particular do fino é o que mais nos preocupa, porque quanto menores as partículas, mais tempo elas ficam suspensas no ar, podendo viajar longas distâncias e penetrar com mais facilidade no nosso sistema respiratório – explica Adriana.

Os últimos dados da pesquisa da PUC são referentes a 2015. Segundo a professora, a complexidade do processamento de dados na ci-

dade inteira e a falta de investimento público explicam a demora na divulgação das médias anuais por estação. Nos números mais recentes, o índice em Jacarepaguá foi 11, assim como os do Recreio. Ou seja, quase três vezes menor que em 2011, no caso do primeiro, mas ainda acima do limite sugerido pela OMS. No Recreio também houve melhora, mas a variação foi menor. O pico foi 13, em 2014. O Inea está prestes a divulgar os dados de 2016. Neles a tendência de melhora se mantém, e não há registro de violação em Jacarepaguá.

Segundo a pesquisadora, a melhora na qualidade do ar ocorreu pela diminuição dos trabalhos pesados no Parque Olímpico onde, àquela altura, a obra já entrava na fase de acabamento. Além disso, 2011 foi o auge do boom imobiliário na região, em especial na Freguesia, quadro que foi amenizado nos anos posteriores.

– As maiores fontes de poluição são os carros. Como a obra envolve veículos pesados, a exemplo de caminhões e retroescavadeiras, a concentração de poluentes cresce muito. Além disso, a própria construção gera muita queima de combustível fóssil, e, consequentemente, partícula fina. Para piorar, Jacarepaguá conta com um polo industrial muito forte, o que contribui para a poluição. Na Região Metropolitana, só o bairro e Duque de Caxias têm essas duas influências simultaneamente – diz Adriana, salientando, porém, que extrapolar o limite da OMS não é exclusividade carioca, já que as principais metrópoles do mundo raramente ficam dentro do padrão.

Por causa da influência tão destacada dos megaeventos na qualidade do ar da cidade, a pesquisa comandada pela professora ganhou um desdobramento. Há três anos, dois dos seus alunos estão focados só nos impactos gerados pela Copa e pela Olimpíada. Em breve, Adriana espera publicar um artigo sobre esse trabalho específico.