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Ansiedade: quando a aceleração dos pensamentos é problema

Perturbação, agitação, turbilhão mental. Estas são as sensações descritas por milhares de pessoas sobre o comportamento do cérebro e que não deve ser negligenciadas. Longe de ser normal mesmo nessa vida corrida contemporânea, o pensamento acelerado é sinal de alerta.

A dificuldade de gerenciar a mente pode ser o cerne de um mal maior: a ansiedade. Este transtorno mental atinge quase 10% da população brasileira, segundo estimativas da Organização Mundial de Saúde (OMS). O índice coloca o País como o mais ansioso da América Latina. Condição desafiante para pacientes e profissionais de saúde, traços de ansiedade podem ser percebidos cedo, principalmente, na incapacidade de gerir o agora na angústia do embaralhamento das ideias.

“Muitas vezes meu corpo e minha fala não acompanham o pensamento. É como uma tempestade”, explicou a professora Hayana Arruda, 37 anos. O descompasso entre a cabeça e o corpo traz para ela cansaço tanto mental como físico, além de perturbação, que podem desencadear uma crise de ansiedade, que no caso dele vem com a sensação de morte. “O ansioso sempre pensa se projetando muito para o futuro, com certezas fantasiosas e pessimistas”, prosseguiu. Atualmente adepta da yoga, a professora vem conseguindo segurar a ocorrência de episódios do descontrole da mente. Hayana começou a perceber que algo estava errado com ela em 2012, mas não conseguia descobrir o que era. Naquela época eram frequentes os ataques de chorofalta de ar e formigamento nos lábios. Buscou um médico para diagnosticar o que sentia e foi pega de surpresa com o parecer de ansiedade.

 Inicialmente foi tratada com remédios, mas as drogas a deixavam apática. Decidiu, então, investir em abordagens não medicamentosas hoje. Contudo, os desafios do controle emocional são constantes para Hayana diante do volume de compromissos da vida. Ela ainda não conseguiu parar de roer as unhas e, vez ou outra, acaba descontando na comida. Situações de frustraçõestambém acompanham esse processo. “Quase que na maioria das vezes a gente é frustrado. Quando o pensamento está no futuro é porque a mente está na fantasia, até porque não tem como a gente saber o futuro. Então meu trabalho de terapia, meditação e yoga é sempre trabalhar o que é real hoje. Se eu estou sem dinheiro, eu vou passar fome? Não sei. Eu tenho que conversar comigo o tempo inteiro. E isso causa perturbação mental muito grande”, explicou.

Assim como a professora Hayana, a blogueira Cuca Amorim, 33, também tem buscando tomar as rédeas da mente acelerada. “Eu sempre tive uma ansiedade fora da curva. Desde pequena sofro. Isso desenvolve para compulsão alimentar, depois maiorizinha com insônia e autocritica. Enfim, é uma série de problemas. Com a questão do meu trabalho e com a quantidade de informação e do acesso ao celular de forma constante e permanente isso deu uma piorada. Já teve dia de colocar as mãos nos ouvidos para ver se tapava porque parece que tem 500 pessoas falando comigo ao mesmo tempo”, contou.

Longe de tratos medicamentosos há alguns anos, a digital influencer adotou a meditação diária, acompanhada de psicoterapia e hipnoterapia. O desafio em estabelecer um ritmo mental mais ameno é diário. “Hoje só pego no celular (pela manhã) para desligar o despertador, depois ele fica longe de mim. Começo a manhã fazendo meditação, leitura, todo um passo a passo para tentar dar uma equilibrada. Às vezes, tenho tantas coisa para fazer que já começo a manhã com taquicardia. É como se fosse uma quantidade de coisas que termina sendo paralisante para mim”, comentou. A meta da blogueira é conciliar de forma saudável para a mente a vida conectada e a vida desplugada.

Acelerados e sem foco

O psiquiatra do Hospital das Clínicas e doutorando em neuropsiquiatria e ciências do comportamento pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Tiago Queiroz, reforçou que estar com a mente acelerada traz prejuízos e sofrimento para os ansiosos, gerando uma baixa capacidade de manter o foco. O médico explicou que o cérebro precisa ser treinado para determinadas atividades, mas que quando esta super estimulado de formas diferentes acaba perdendo o exercício da atenção concentrada. “Existem três tipos de atenção: a concentrada, a alternada e a dividida. Na hora que eu fico alternando muito de uma atividade para outra eu perco a atenção concentrada em determinada atividade. E, muitas vezes, isso leva a um prejuízo de desempenho”, pontuou Queiroz.

Inundado por uma multiplicidade de preocupações e problemas, o indivíduo tem prejuízo, não raro, das atividades cotidianas básicas como dormir. “Reconhecer que está com o pensamento acelerado pode ser importante porque isso pode ser o início do transtorno de ansiedade generalizada (TAG). O TAG pode trazer sintomas psíquicos além do pensamento acelerado, como excesso de preocupações, pessimismo exagerado, e também sintomas físicos como alteração do sono, principalmente insônia, aumento do apetite para doce, palpitações e sensação de falta de ar”, elencou o médico. Sair do quadro exige a diminuição da quantidade de estímulos que o cérebro recebe e que hoje tem o celular como principal vilão. Depois disso, o passo seguinte é propiciar atividades que gerem essa desconexão como atividades físicas, meditação, tempo de relacionamento interpessoal fora do espaço digital.

Contemporaneidade e excesso de informações

“Além do transtorno de ansiedade, o que pode levar a muitos pensamentos (desordenados) é o estresse. Quando a gente se submete a uma quantidade de informações e atividades que fica muito maior que a nossa capacidade de lidar com elas”, destacou o psiquiatra e professor de neuropsiquiatria da UFPE, Amaury Cantilino. O especialista explicou que todo mundo leva um determinado tempo para processar informações e resolver problemas. Quem vive um ritmo de vida mais acelerado, consequentemente, tem uma mente acelerada pelo estresse. “A nossa contemporaneidade nos oferece uma quantidade de informações e de experiências que pode ser maior que a nossa capacidade em termos de tempo para poder vivenciá-las. A quantidade de opções que se tem hoje é muito maior que o tempo que temos. O tempo continua o mesmo, sendo hoje ou há 25 anos. Com isso vamos tendo a impressão que a gente não esta participando da vida”, alertou.

Amaury Cantilino comentou que o sinal vermelho na busca por ajuda é quando o indivíduo percebe dificuldade para controlar as preocupações, tem irritabilidade, dificuldade para se concentrar, passa por brancos na mente e não consegue relaxar mesmo em momentos oportunos. “Há uma série de tratamentos disponíveis desde psicoterapiaterapia cognitiva comportamentalMindfulnessmeditação, exercícios físicos aeróbicos e também tem alguns medicamentos. Até alguns anos atrás só tínhamos medicamentos que provocavam dependência, mas hoje há remédios que tratam a ansiedade sem fazer com que a pessoa fique dependente”, afirmou.

psicoterapia é uma das abordagens mais buscadas, onde a conversa guiada vai educando a mente. A psicóloga Willa Marques também vê nos excessos da tecnologia alguns ônus desarranjos psíquicos atuais. Outro aspecto que funciona como pavio dessa “bomba” da ansiedade é o que ela chama de “geração da emergência”. “Como a gente vive na conduta do emergencial, pelo menos 90% dos casos (e ansiedade) acabam sendo tratados com medicamentos por uma coisa que é basicamente exercício de autocontrole da abstração: que é o parar. É a dificuldade que a gente tem de parar e conseguir denominar aquilo que é importante, aquilo que é circunstancial e aquilo que é emergencial. Porque a gente vive na geração da emergência. Tudo é para ontem”, comentou. A saída da emergência é reconhecer ser impossível o controle de tudo.