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“Fugimos de tudo o que era regra sobre os vírus”

Entrevista Maria Lúcia Brito

A médica Maria Lúcia Brito, chefe do Serviço de Neurologia do HR, referência no tratamento de complicações neurológicas, esclarece as dúvidas sobre os casos relacionados a arboviroses.

JC – Surpreende ver ligação entre AVC e arboviroses?

MARIA LÚCIA BRITO – Identificamos uma curiosidade em princípio. Depois fizemos uma correlação e um despertar para a importância de questionarmos sempre que atendermos um paciente, no serviço de emergência, com um quadro de AVC. Será que ele teve alguma infecção prévia? Essa doença foi identificada? A virose pode ter sido o gatilho para essa manifestação ter ocorrido.

JC – E a esclerose lateral amiotrófica (ELA) também pode ter associação com o Aedes? 

MARIA LÚCIA – É uma doença grave do sistema nervoso central, bastante severa e que acomete o motoneurônio (neurônio motor). Pacientes chegavam para uma consulta e relatavam ser extremamente saudáveis até terem tido arboviroses. De um a três meses após a infecção, foi iniciado um quadro típico de ELA, que é muito devastadora. Desde 2015, vimos de seis a oito casos de ELA relacionados com zika e chicungunha.

JC – Além do AVC, da ELA e de outras complicações neurológicas que já sabíamos ter relação com as arboviroses, como a síndrome de Guillain-Barré, há alguma outra condição que merece atenção?

MARIA LÚCIA – Quatro pacientes que acompanhamos no HR, nesse período, apresentaram crises convulsivas em que apareceram confirmações laboratoriais tanto de zika quanto de chicungunha. Outros também tiveram miosite (mais uma condição neurológica caracterizada por inflamação dos músculos), com quase 100% dos casos associados à chicungunha.

JC – Mesmo passada a tríplice epidemia, pacientes com essas doenças continuam a procurar o HR?

MARIA LÚCIA – Todos os dias há pacientes. Atualmente é um número grande que chega com queixas de rash cutâneo (manchas vermelhas na pele), outros com febre e rash, além de um grupo que não tem sintomas expressivos. A gente supõe que esses quadros podem ser decorrentes de uma modificação do vírus, talvez uma nova cepa viral. Isso também pode sugerir que a resposta imunológica do paciente tenha se modificado diante de uma epidemia. Quando falamos dessas arboviroses, fugimos de tudo o que era regra do nosso conhecimento anterior. Todos os novos assuntos estão sendo discutidos e pesquisados para se chegar a um consenso. Agora não temos respostas. Mas teremos logo, logo.