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O pior final de uma novela

Até que seja definido e exposto com bastante clareza o roteiro da história novelesca da Empresa Brasileira de Hemoderivados e Biotecnologia, ela se candidata a empreendimento estatal incapaz de se situar dentro dos modelos de gestão pública no Brasil: faltam-lhe as características de patrimonialista, fica bem próxima mas ainda não se pode dizer que seja um exemplo de burocracia, e está longe de ser o modelo gerencial que se imaginava quando de sua criação há 15 anos para dar ao nosso País o que ele mais necessitava: a autossuficiência na produção de medicamos hemoderivados.

E porque não foi capaz de em quase uma geração identificar-se como um modelo de gestão pública nos moldes que se exige no século XXI, aí está a Hemobrás se afirmando como capítulo de uma novela indesejável não apenas para Goiana e Pernambuco aonde chegou como a primeira fábrica do Brasil e a maior da América Latina para reduzir a dependência externa do nosso País no setor de derivados do sangue. Esse era o script lá atrás, quando a população foi induzida a acreditar que dessa forma estaria sendo ampliado o acesso a medicamentos essenciais à vida de milhares de pessoas com hemofilia, a pacientes de imunodeficiências genéticas, cirrose, câncer, Aids, queimaduras.

Quando se recorre ao roteiro de quase uma geração, que deveria ter sido suficiente para consolidar a Hemobrás como um modelo gerencial, eis-nos perante tropeços burocráticos como a Portaria que retirava da empresa a responsabilidade de gerir o processamento do plasma, ou quando um ministro da Saúde com vocação bairrista na gestão Temer queria levar a produção de hemoderivados para o Paraná. Mais: o plasma colhido pela estatal nos hemocentros do Brasil era fracionado por uma companhia francesa, contudo, por conta de restrições da Anvisa, está impedida de comercializar no País. Com a portaria do Ministério da Saúde e a saída da empresa – explica a repórter Adriana Guarda – a Hemobrás passou apenas a armazenar o plasma. Sem nova empresa para fracionar a matéria-prima, bolsas de plasma estão perdendo a validade e sendo descartadas. Até agora, 100 mil já se perderam e outras 83 mil podem ir para o descarte até o fim deste ano.

Não estaria aí um primor de deslumbramentos burocráticos em uma matéria que deveria ser tratada com todo o rigor gerencial em um tempo onde não parece haver mais dúvida de que esse deve ser o modelo preponderante? Estarão nossas lideranças políticas antenadas para esse processo de desmonte de um empreendimento que colocava Pernambuco na linha de frente não apenas no Brasil mas em toda a América Latina? Imaginemos que prevaleçam os bairrismos paranaenses como já foram ensaiados ou que não seja dada a atenção fundamental para a Hemobrás em Goiana, não estaremos assim mostrando o lado mais perverso da inércia no trato da coisa pública e passando o recibo da incapacidade de uma empresa estatal como um péssimo final dessa novela?