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“Salário espiritual não tem preço”

Entrevista Wilson de Oliveira Júnior

Coordenador do Serviço de Referência em Doença de Chagas da Universidade de Pernambuco (UPE) e fundador, em 1987, da primeira associação de pacientes do mundo com a enfermidade, o cardiologista Wilson de Oliveira Júnior conversa com Cinthya Leite sobre as lições deixadas pelo maior surto de doença de Chagas do Estado (e possivelmente o maior do Brasil), ocorrido em Ibimirim, Sertão do Estado.

JC – Quais as lições trazidas por este surto? 

WILSON DE OLIVEIRA JÚNIOR – Vivemos algo realmente novo, apesar de o primeiro caso de transmissão oral da doença de Chagas ter ocorrido na década de 1930, na Argentina. A questão agora é que a frequência (desse tipo de contaminação) tem se mostrado diferente. De todos os casos novos atualmente, mais de 70% são por transmissão oral. Entre os ensinamentos que ficam, diria que precisamos incluir esse diagnóstico (de Chagas, entre as suspeitas), especialmente quando se tem uma febre prolongada. O aprendizado tem sido entender que esse tipo de contaminação tem se tornado mais comum. No Pará, a maior parte dos casos novos tem relação com o açaí, que não deve ser criminalizado isoladamente, pois qualquer alimento pode ser contaminado (com o barbeiro). 

JC – A doença sempre traz complicações para o coração? 

WILSON – Nem todo paciente desenvolve doença cardíaca. Alguns manifestam miocardite (inflamação do músculo do coração) na fase aguda (inicial), mas podem regredir. Não é claro, contudo, sabermos quais das pessoas que desenvolveram miocardite permanecerão com o problema. Esse é o grande enigma de Chagas. Berenice é um exemplo: aos 2 anos de vida, tornou-se a primeira paciente da história diagnosticada com a doença, há 110 anos, em Minas Gerais. Ela faleceu aos 78 anos e por uma causa sem relação com Chagas. Sempre mostro o retrato de Berenice aos doentes, que geralmente ficam muito ansiosos com o diagnóstico. 

JC – Como está o emocional dos pacientes deste surto em Ibimirim, no Sertão do Estado? Estão angustiados? 

WILSON – Sem dúvidas! Até imaginava que o impacto seria maior. O detalhe é que a reação à doença é subjetiva, depende de cada pessoa. Uma coisa que precisa ser ressaltada é a falta de conhecimento sobre Chagas; é uma doença invisível. É gerada pela pobreza, que gera mais pobreza. Por isso, eu me envolvo tanto com as causas relacionadas a Chagas, que precisa de mais visibilidade. Para se ter ideia, a primeira reunião da Organização Mundial de Saúde, em Genebra, sobre Chagas foi realizada apenas em 2009. Como pode? Uma doença de 110 anos… 

JC – O programa estadual de doenças negligenciadas identificou, em 2018, 40 municípios pernambucanos com barbeiro infectado. Como isso chama a sua atenção? 

WILSON – A doença de Chagas jamais será erradicada. Ela é controlada. Nem todo barbeiro tem competência para transmitir a enfermidade. Com este surto (em Ibimirim), a mídia fez uma importante divulgação de uma doença silenciosa e silenciada. Nunca vi se falar tanto, no consultório, sobre Chagas como agora. Uma coisa é certa: se baixarmos a guarda, a doença volta (a se disseminar como em décadas passadas). 

JC – Qual o papel do Sistema Único de Saúde (SUS) na doença de Chagas?

WILSON – Se há sofrimento hoje, pode ter certeza de que, antes do SUS, era muito maior. Há muita coisa a melhorar. Mas, se o SUS não existisse, precisaria ser criado. É necessário avançar, por exemplo, com a atenção básica. Cerca de 85% dos doentes com Chagas poderiam ser atendidos na assistência primária. 

JC – Por que começou a trabalhar com Chagas? 

WILSON – Eu era responsável por uma enfermaria de doenças do músculo cardíaco, e havia semanas que praticamente só atendíamos pacientes com Chagas. Essas pessoas voltavam frequentemente para se internar porque não contavam com acompanhamento (especializado). Então, montamos um serviço para elas terem alta e continuarem tomando a medicação. O problema da doença crônica é manter o tratamento, e a relação médico-paciente é o primeiro impacto. Há trabalhos que mostram que 20% das receitas de medicamentos são rasgadas antes de os pacientes chegarem à farmácia, porque houve falha na comunicação (médico-paciente). Não adianta ter um tratamento excelente se o paciente não consegue segui-lo. 

JC – É olhar o paciente de forma integral, não é? 

WILSON – Veja só: no meu consultório, nunca entra um coração; entra uma pessoa. Não é a medicina da doença; é a medicina da pessoa. O salário espiritual de ver o paciente melhorar não tem preço.

No EndoRecife

A assistência e o acompanhamento voltados para os pacientes submetidos à cirurgia bariátrica são tema de simpósio que acontece no congresso EndoRecife, de 27 a 29 deste mês, no Summerville, no município de Ipojuca, Litoral Sul de Pernambuco. Entre os temas, a cirurgia metabólica no tratamento da diabetes e as recomendações nutricionais no pós-operatório. Também ganham destaque discussões sobre as orientações nutricionais no pós-operatório, o uso da robótica na cirurgia bariátrica e o tratamento para os pacientes que voltam a ganhar peso após o procedimento. A programação está no site da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia/PE: endocrinologiape.com.br.

Sem cigarro 

No Brasil, 428 pessoas morrem por dia devido à dependência da nicotina. Para dar suporte às que desejam abandonar o tabagismo e recuperar a qualidade de vida, o Real Hospital Português, no bairro de Paissandu, área central do Recife, oferece permanentemente atendimento gratuito com equipe multidisciplinar do Ambulatório de Beneficência Maria Fernanda. Os atendimentos ocorrem todas as sextas-feiras, às 9h. Os pacientes são acompanhados em consultas individuais com especialistas, além de participarem das sessões terapêuticas coletivas. Outras informações podem ser obtidas pelo telefone 3416-1494 (de segunda a sexta, das 8h às 12h).

Para idosos

Nem sempre é possível contar com parentes ou amigos para dar um passeio, ir ao shopping, a uma consulta médica, a um restaurante ou assistir a uma palestra. A empresa 60+ Lazer e Companhia, voltada para manter e estimular a autonomia dos idosos, oferece transporte e acompanhamento para diversas atividades. Além disso, tem aulas para idosos que desejam aprender os recursos disponíveis em smartphones, tablets, computador e que querem usar as redes sociais de forma segura. Oficinas de artes também são oferecidas. A 60+ Lazer e Companhia é administrada pela arte-educadora e cuidadora de idosos Cláudia Silveira, especialista em Gerontologia pela Unicap. Informações: 99733-1717.

Na gestação 

Começa na quinta-feira (13) o Congresso Nordestino e Pernambucano de Ginecologia e Obstetrícia, no Sheraton Reserva do Paiva, no Cabo de Santo Agostinho, Grande Recife. Entre os destaques da programação, estão as infecções que também podem ocorrer na gestação, como sífilis, HIV, varicela e arboviroses. Outro tema que será discutido é o elo entre o câncer de mama e o de colo do útero na gravidez. O evento, que termina no sábado (15), é presidido pelo ginecologista Jefferson Valença. Informações: sogope.com.br. 

Sanitaristas 

A Escola de Governo em Saúde Pública de Pernambuco está com inscrições abertas, até o próximo dia 16, para o curso de especialização lato sensu em saúde pública. São 120 vagas para profissionais com curso superior em qualquer formação e que trabalhem no SUS. O curso, que terá duração de 13 meses (304 horas de aula presencial e 76 horas de atividades de dispersão), começará em agosto. As aulas serão ministradas às quartas, quintas e sextas, das 8h às 18h, uma vez por mês. Confira o edital: portal.saude.pe.gov.br.

No arquipélago

A equipe do Projeto Boa Visão chega amanhã a Fernando de Noronha para oferecer atendimento oftalmológico a alunos do ensino médio da ilha. Durante as consultas, até a sexta (14), será verificada a necessidade de óculos de grau, que são cedidos pelo Lafepe. Se for preciso fazer algum exame adicional, os alunos serão encaminhados a um serviço de referência. O programa, das secretarias estaduais de Saúde e Educação, tem como objetivo melhorar o rendimento escolar de crianças e jovens.