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Ansiedade e depressão em meio ao estresse

Cenários político, econômico e social de incertezas. Instituições em xeque. Informações brotando por todos os lados. Imagens de vidas perfeitas projetadas nas redes sociais. Mudanças nas formas de comunicação. Discursos de ódio e embates por todos os lados. O cenário brasileiro em 2019 converge uma sequência de mudanças sociopolíticas e técnicas que podem abalar as estruturas psíquicas da população. O Brasil, que já vive um crescimento de casos de ansiedade e depressão, pode ver esse número aumentar mais e mais rápido. Por isso, provocar discussões sobre de que forma as circunstâncias atuais atingem a sociedade é uma necessidade cada vez mais urgente.

O Brasil já é atualmente o país mais ansioso e estressado da América Latina, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). Segundo o Ministério da Saúde, a prevalência de depressão ao longo da vida do brasileiro é de 15,5%. Atualmente, cerca de 5,8% das pessoas sofrem com a doença. A ansiedade, por sua vez, atinge 9,3% dos brasileiros. As mulheres são as mais ansiosas e deprimidas. A ansiedade atinge 7,7% delas, enquanto a depressão 5,1%. Já nos homens, os dois problemas chegam a acometer 3,6% deles.

Para o psicanalista e presidente da Sociedade Psicanalítica do Recife (SPRPE), Alirio Dantas Junior, existe uma preocupação na vida contemporânea sobre de que forma as novas maneiras de comunicação, informação e os relacionamentos podem estar influenciando na maneira como se constroem as representações e os afetos. Isto é, a forma como registramos e assimilamos o mundo, bem como o sentimento que essa assimilação nos desperta. “Na medida em que o mundo se torne muito mais objetivo e pragmático, o espaço para a emoção, para a representação mental, pode ser que diminua. Não quer dizer que o progresso seja ruim, que a nossa realidade seja nociva, mas quer dizer que temos a obrigação de refletir sobre ela”, explica.

Refletir sobre afetos e representações é justamente o mote para a 24ª Jornada de Psicanálise da Sociedade Psicanalítica do Recife, que acontece entre os próximos dias 27 e 28 deste mês, no Mar Hotel, em Boa Viagem. Durante dois dias, psicanalistas, psicólogos, pesquisadores e entusiastas da área irão se encontrar para debater, em diversos aspectos, como a contemporaneidade tem interferido na formulação das representações e na propagação dos afetos. A jornada será pautada em três eixos: afeto e representação; questões ligadas à sexualidade e o feminino; e a apresentação de transtornos mentais e emocionais.

Durante o evento também acontece o 20º Encontro de Psicanálise da Criança e do Adolescente. A inscrição deverá ser realizada através de depósito na conta-corrente da Sociedade Psicanalítica do Recife. Ao fazer a inscrição, é preciso enviar o comprovante e a ficha devidamente preenchida para o e-mail: sprsecretaria@uol.com.br. Informações e detalhes podem ser obtidos pelos telefones: 81 3226 0462 – 32281756 – 986090196.

Destaques

Dia 27 – Sexta-feira

9h – 10h30
Mesa Redonda
Tema: O DESTINO DO AFETO: Histeria
Palestrante Maria de Lourdes Negreiros – SPFOR

Neurose Obsessiva
Palestrante Rosinete Maria Mendonça de Melo – SPRPE

Perversão
Palestrante Maria Stela Menezes Santana – SPRPE
Coordenação Geraldo Jorge Barbosa Moura – SPRPE

11h – 12h30
Mesa Redonda
Tema: O OBJETO DO DESEJO:
Palestrante José Fernando de Santana Barros – SPRPE

Teoria Freudiana
Palestrante Tiago Durães – SPRPE

Teoria Bioniana
Palestrante Cláudia Galamba
Programação segue até 17h30

Entrevista – Alirio Dantas Júnior // Psicanalista e presidente da Sociedade Psicanalítica do Recife (SPRPE)

O que podemos entender por afeto e representação?
A representação é a maneira como nós registramos o mundo. Nós não vemos o fato, mas sim aquilo que enxergamos. Por exemplo, se você gosta de rosa, os seus sentimentos ao ver uma serão diferentes de uma pessoa que tem horror a rosa. Isso porque a rosa para você tem uma representação diferente do que para o outro. A representação é a matéria principal da atividade psíquica. Um dos elementos que dão qualidade às representações é o afeto. É como se ele desse a tonalidade do mundo, ele permite que a gente enxergue e se relacione com essas representações como coisas prazerosas, boas, ruins, agradáveis e desagradáveis.

A forma como os seres humanos têm se relacionado, por meio de novas tecnologias de comunicação, mexe com a maneira com a qual ele cria representações e afetos?
Se eu passo uma mensagem de celular, a maneira como eu me relaciono com a pessoa para a qual eu enviei a informação é diferente do que ao telefonar para ela. Não irei, por exemplo, saber a entonação da voz dela, se ela está chateada, ressentida ou alegre. Existe uma perda de um dos elementos que formam as representações. Longe de considerar o Whatsapp uma coisa ruim, pois uso bastante, mas precisamos pensar até que ponto de vista isso pode afetar a nossa vida psíquica. A nossa vida social faz parte da troca afetiva que dá colorido à vida. O uso de redes sociais é inevitável e é útil. Então óbvio que existem novas formas de representação que não são necessariamente ruins, mas, ao mesmo tempo em que adquirimos novas formas de interação e relacionamento com o mundo, nós também abrimos a possibilidade de empobrecimento dessas mesmas relações.

De que forma o atual momento pode influenciar no adoecimento da população?
Até onde a gente pode saber no momento, o aumento da velocidade da informação e as formas de comunicação aumentam também o nível de exigência e cobrança que nós temos em relação a nós mesmos e aos outros. A primeira questão gera ansiedade, e a segunda pode contribuir para um humor depressivo. Isso porque eu tendo a me tornar diminuído diante de tudo o que é imagem. A nossa vida nunca vai ser igual a um anúncio de televisão, ao virtual. O virtual não sofre as limitações do corpo físico. Nesse mundo, a vida real se torna pobre e desinteressante. O que precisamos, sempre, é refletir de forma crítica como isso nos afeta e buscar alternativas e soluções para evitar esses efeitos.

Há uma discussão, também, sobre de que forma o momento político e econômico pode estar influenciando no adoecimento. Você acredita ser possível isso?
Para nós, psicanalistas, toda forma de discriminação e preconceito é indesejável. A psicanálise é uma teoria e prática de acolhimento. É preciso entender que todo preconceito é nocivo para quem sofre e quem pratica. E nos preocupa uma retórica baseada na discriminação, no preconceito e na exclusão. Em retrocessos. A principal forma de acolhimento é o acolhimento do sofrimento do outro. Se o meu sofrimento é acolhido, eu deixo de me sentir estranho, solitário, tudo me assusta menos. Esse acolhimento cria vínculos amorosos. Por isso devemos estimular a criação de vínculos sociais, culturais, amorosos, de amizade. É o único remédio contra a violência, como disse Freud.