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Silêncio que acaba em morte

As matérias veiculadas pelo jornal citado como “fonte” não representam a opinião do Conselho Regional de Medicina de Pernambuco (Cremepe). O clipping tem por objetivo atualizar os leitores das principais notícias referentes à saúde veiculadas no país e, principalmente, no estado de Pernambuco.

Primeiro, vieram os gritos. Do andar de baixo, Lúcia (o nome é fictício, para proteger a identidade) pensou que seria mais uma das brigas do casal que vive no apartamento de cima. Em seguida, vieram os sons abafados da agressão. A dona de casa decidiu que não poderia ficar de braços cruzados. Perguntou se deveria chamar a polícia. A resposta foi não. Mas os gritos continuaram e Lúcia resolveu acionar as autoridades mesmo assim. O caso aconteceu na manhã do último dia 22, no bairro de Tejipió, Zona Sul da capital. Na data do ocorrido, o Recife e outros quatro municípios da Região Metropolitana estavam em lockdown para evitar a disseminação do novo coronavírus. Por decreto, ninguém deveria sair de casa. Uma viatura da polícia chegou a ir até o endereço, mas o caso não foi levado para a delegacia.

Em meio à pandemia da covid-19, o silêncio das vítimas preocupa quem atua na rede de proteção. Segundo dados da Secretaria de Defesa Social (SDS), desde março, quando o isolamento social começou, o número de denúncias de violência doméstica caiu, no comparativo com o mesmo período do ano passado. Em março de 2019, foram 3.829 casos, contra 3.040 em 2020, uma redução de 21% nas denúncias. Em abril do ano passado, 3.466 mulheres denunciaram agressões, contra 2.624 este ano. A redução é de 24%. Já no mês de maio, foram 3.573 em 2019, contra 2.692 em 2020 (dados parciais, coletados pela SDS até o dia 5 de junho) , uma diminuição de 24,6% no número de casos.

Quando se analisam as denúncias de estupro, a queda é ainda mais acentuada. Em março de 2019, 198 pessoas haviam denunciado o crime, contra 123 em 2020, número 38% menor. Em abril, a redução foi de 18%, passando de 147 casos no ano passado para 121 este ano. Já maio registrou a maior queda. Em 2019, 218 mulheres procuraram as autoridades para denunciar casos de estupro, contra 130 em 2020 (dados parciais, coletados pela SDS até o dia 5 de junho), uma redução de 40,3%. Tanto os registros de violência doméstica quanto os de estupro registraram aumento em 2020 no comparativo anual em janeiro e fevereiro, meses que antecederam o isolamento social.

A tendência de queda, no entanto, não é observada quando se analisam os números de mortes de mulheres por feminicídio. Em março de 2019, quatro mulheres perderam a vida simplesmente pelo fato de serem mulheres. O número registrado foi o mesmo em 2020. Já em abril, o número quase dobrou. Subiu de 4 para 7 no comparativo entre 2019 e 2020. O aumento percentual é de 75%. A SDS não divulgou os números parciais do mês de maio, que deverão ser apresentados no próximo dia 15, junto ao balanço geral da violência no Estado.

Delegada e gestora do Departamento de Polícia da Mulher, Julieta Japiassu reconhece que pode haver subnotificação em decorrência do isolamento social imposto pela pandemia do novo coronavírus. “A gente associa que podem existir mulheres dentro dos seus lares que não estão indo registrar o boletim, por medo de se expor ao vírus e também do agressor. Um estudo da ONU Mulheres fala sobre a tendência de a mulher estar sendo agredida em momentos de isolamento. Não é a diminuição da violência, pode estar havendo subnotificação”, afirma.

Os boletins de ocorrência para casos de violência doméstica continuam sendo registrados apenas presencialmente nas delegacias. “A polícia disponibilizou o boletim pela internet para os crimes contra a honra, já que o ciclo da violência começa com xingamentos. Então, esse ciclo pode ser rompido neste momento. Não excluímos a possibilidade de incluir o registro de outros crimes no BO online também”, explicou a gestora. Segundo ela, as delegacias da mulher seguem funcionando, com plantões emergenciais também em Paulista e Jaboatão dos Guararapes, no Grande Recife.

Denúncias de violência contra a mulher podem ser feitas através do 0800-281-8187 (Ouvidoria Estadual da Mulher), do 180 (federal) e do 190 (PM).