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Esgotados, mas na luta incessantes pela vida

Não somos super- -heróis. Estamos muito cansados; não temos o poder de resolver tudo. Mais do que cansados, estamos com muito medo. Medo por nós; medo por vocês. Então, por favor, fique em casa, respeite as medidas de isolamento. Use máscara.” As palavras são de Fabíola Constant, médica do Hospital Correia Picanço (no bairro da Tamarineira, Zona Norte do Recife), que fez um emocionante relato durante participação de campanha, lançada na quinta-feira (18), pela Secretaria Estadual de Saúde (SES), nas redes sociais para conscientizar a sociedade pernambucana durante estes dias de um amargo (e necessário) lockdown — a única forma que temos de fazer cair a circulação do novo coronavírus e salvar vidas. Diante desta nova explosão de casos da covid-19, os profissionais de saúde estão mergulhados na exaustão e completamente esgotados. Mas não largam a missão de deixar suas casas por nós e de se multiplicar em plantões (quase sempre consecutivos) para salvar vidas.

“Estamos todos muito cansados, trabalhando no limite. No início da pandemia, tudo era novidade; estávamos com muita garra. Agora, um ano depois, não conseguimos mais dar tanta carga horária. Uma prova disso é a dificuldade para abrir novas vagas de terapia intensiva (UTI) por pura falta de equipe para compor esses leitos. Diante desse déficit, a gente se vê imersa em momentos que precisamos dobrar plantões. Já aconteceu várias vezes comigo”, relata a médica Beatriz Fried, 25 anos, que trabalha atualmente em três hospitais que oferecem assistência a pacientes com sintomas do novo coronavírus. Para ela, são imensos os efeitos dessa tragédia sanitária na saúde mental dos trabalhadores de saúde. “Sabe a sensação que temos? A de que todos os dias a batalha é perdida. É um sentimento de desespero. Imagine uma sala de UTI com três médicos e 30 leitos, todos ocupados. A gente não consegue parar. Todo plantão meu tem óbito”, lamenta Beatriz. Ela conta que, para lidar com esse trabalho duro noite adentro, precisou recorrer à terapia, assim como milhares de colegas. “Eu comecei a ter um quadro de Burnout (sindrome caracterizada pelo estado de tensão emocional e estresse provocado por condições de trabalho desgastantes). Precisei de apoio porque eu não me dava a permissão de parar, de deixar de lado a minha missão”, acrescenta.

Pelo menos 27 mil dos 325.315 mil infectados pelo novo coronavírus em Pernambuco, em um ano de pandemia, são trabalhadores de saúde. Aqueles que já estão com o esquema completo da vacina (cerca de 135 mil no Estado) se dizem mais aliviados por terem uma preocupação a menos: um risco menor de se infectar durante os cuidados com o paciente. Ainda assim, diante da subida de casos da covid-19 nos últimos dias, eles admitem que tem sido difícil manter o controle emocional. “Fora o aumento do número de doentes, a gente precisa lidar com outros receios. Vivemos a ameaça de desabastecimento de medicamentos para os pacientes com covid-19. Corticoide, por exemplo, só há algumas apresentações, assim como anticoagulantes. Ou seja, estamos com a segunda onda da pandemia estourada e cansados mentalmente. Imagine o que é ter praticamente todos os doentes de UTI em ventilação mecânica (no respirador). Isso sobrecarrega demais as equipes”, diz o médico intensivista Carlos Eduardo Ferraz, 37 anos, que atua em UTIs covid de três hospitais.

Para ele, o testemunho desse desenrolar da pandemia, aliado à sobrecarga de trabalho que afeta as relações sociais, é acompanhando, às vezes, por um sentimento de impotência — ou uma sensação de que o potencial agressivo da covid-19 sempre está a um passo à frente da medicina. “Em uma das UTIs onde trabalho, estava um paciente de 37 anos, saudável, sem fator de risco para a doença. Ele começou a evoluir bem, e até chegamos a programar a retirada do respirador. Quando eu estava indo embora, no fim do plantão, ele apresentou piora, mostrando sinais de uma embolia pulmonar massiva. Sofri muito. Em 13 anos de formado, nunca sofri tanto como naquele dia. O sentimento que tive foi de, mesmo após nadar tanto, morrer afogado”, completa Carlos.

Paralelamente ao falar sobre essa intensa rotina e gigante missão, em meio ao caos nesta segunda onda de covid-19, ele faz um apelo à sociedade pernambucana. “Não neguem a doença; ela é traiçoeira. Os dados sobre taxa de ocupação das UTIs não estão sendo manipulados como muitos dizem. É tudo real. Para mim, está cada vez mais difícil chegar em casa e dizer que está tudo bem.”

Assim como Carlos, a técnica de enfermagem Juliana Félix, 36 anos, pede que a população acredite no quanto a covid-19 pode ser cruel. “Fico extremamente triste porque muitas pessoas parecem que não têm consciência. A gente vê o sofrimento do paciente e da família, que deixa um ente querido no hospital sem saber se vai recebê-lo com vida, de volta ao lar. Diante de tudo isso, como deixar de lado a proteção contra esse vírus?”, questiona Juliana, que faz parte de uma categoria que, em Pernambuco, mais adoeceu em decorrência da infecção. Dos 27.160 casos de covid-19 confirmados entre profissionais de saúde ao longo de um ano de pandemia no Estado, 27,7% (7.517) são auxiliares/técnicos de enfermagem. Pelo contato próximo diante dos cuidados com os pacientes, eles se tornam mais expostos ao novo coronavírus do que os demais trabalhadores de saúde. A estatística é certeira: nessa área, o índice de infecção, por exemplo, é cerca de três vezes maior em relação aos médicos (2.524 adoeceram por covid-19 no mesmo período, representando 9,3% do total de profissionais de saúde contaminados).

“Tento acolher ao máximo os pacientes, que se sentem sozinhos e com muitas incertezas. O que eu mais queria, neste ano de 2021, era contar milhares de vitórias. Mas infelizmente tudo está se repetindo, e a demanda não deixa de aumentar”, ressalta Juliana, que também pede que a sociedade respeite mais as medidas de proteção. “Quero que o povo nos ajude mais, usando máscara e álcool em gel, lavando as mãos. A gente nunca sabe como cada organismo vai responder ao vírus”, acrescenta Juliana.

BANALIZAÇÃO

Médico responsável por acompanhar os primeiros casos de covid-19 em Pernambuco, o infectologista Demetrius Montenegro, chefe do setor de Infectologia do Hospital Universitário Oswaldo Cruz (Huoc), lamenta que, mesmo após um ano de pandemia, ainda exista um cenário de banalização do vírus. “É triste ver pessoas acreditarem que estamos falando sobre uma doença simples. A sensação que tenho é que, enquanto não houver uma vacinação em massa, não vamos conseguir nos livrar desta situação”, diz Demetrius.

Para o infectologista, a falta de cooperação de parte da população para ajudar a deter a pandemia gera um transtorno imenso para as equipes de saúde. “Existe um desgaste tamanho no que diz respeito a tratamento. Vários pacientes já chegam dizendo o que querem tomar contra o vírus, como se estivéssemos seguindo uma receita de bolo. Eles desejam (o afamado) tratamento precoce, e já está muito bem estabelecido que não há medicações que atuem contra o novo coronavírus. Para gente, isso é lutar contra a obscuridade”, completa Demetrius.

Da mesma forma que médicos e equipes da enfermagem que atuam diretamente no enfrentamento à pandemia, os fisioterapeutas se sentem consumidos pela demanda imensa de trabalho durante esta nova explosão de casos de covid-19.

“Estou lutando desde início da pandemia contra esse vírus. No começo, queria ficar apenas numa só unidade e dar dois plantões semanas. Comecei fazendo uma mudança, saindo da casa dos meus pais para não levar risco para eles. Iniciei num hospital de campanha, onde tudo começou, e atuei em mais outros dois, além de mais dois particulares. Tudo isso deixa o nosso aspecto psicológico muito pesado; é complicado. Há dias de alegria, e outros de tristeza. É uma variação de sentimentos grande”, conta o fisioterapeuta Júlio Lima, 32 anos.

Na sala de terapia intensiva, ele tenta usar estratégias para ajudar a suavizar a carga de trabalho. “A gente faz um desenho no jaleco do colega, canta e arranca um sorriso em meio a tudo isso. Termina ajudando. A vigilância é intensa diante dos pacientes. Precisamos sempre checar tudo para evitar intercorrências. A luta é grande”, acrescenta.