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Gotas de vida doadas por desconhecidos

Cristiano começou a doar para ajudar a mãe de um amigo e não parou mais. As doações ajudaram Sofia, de 6 anos, a vencer um câncer no ouvido

Cristiano Xavier, 50, iniciou a trajetória de doador aos 18 anos de idade, quando a mãe de um amigo precisou de transfusão. Dali em diante, o motorista de caminhão transformou um ato pontual em um hábito que já dura cerca de 30 anos e até rendeu honraria na Câmara dos Vereadores do Recife, em 2019, pelas mais de 50 bolsas de sangue doadas. Para ele, um gesto de amor que alimenta a alma.

“Eu passei a ver que iria ajudar a salvar vidas e me dediquei a isso. Minha lição de vida é poder ter amor ao próximo, ajudar. Isso para mim é uma honra. Não tenho interesse em nada, faço somente por amor”. Mas o doador não para por aí. Além de disponibilizar parte do tempo para fazer o bem, Cristiano é daqueles que forma coro para convocar os amigos a também se tornarem doadores.  

“Sempre recomendei que as pessoas coloquem o amor em primeiro lugar que elas não vão sentir dor alguma. É um gesto tão nobre e eu me sinto tão bem, sabendo que aquele sangue vai favorecer vidas. O tempo que eu puder fazer as doações, farei com o maior prazer”.

Por mais simples que seja, exemplos como o de Cristiano são essenciais para salvar vidas. A pequena Sofia Martins, hoje com 6 anos de idade, é prova disso.

O que seria mais uma consulta, entre as tantas já feitas ao longo de quatro meses, se transformou em uma reviravolta. No dia 6 de julho de 2017, com 2 anos e 9 meses, Sofia foi internada e após dez dias na UTI recebeu diagnóstico para Rabdomiossarcoma no ouvido esquerdo, um tumor maligno. De acordo com o Instituto Nacional de Câncer (Inca), esse tumor faz parte do grupo de sarcomas de partes moles, e corresponde por 4 a 5% dos tumores malignos na faixa etária pediátrica, sendo o tipo mais comum na infância. Apesar de saber que algo não estava normal, o momento pegou a mãe da criança, Simone Martins, de surpresa.

“Ninguém está preparado para ver uma criança tendo o diagnóstico de um câncer”. Sem arrodeios, a equipe médica disse: “a perspectiva de cura é grande, mas a gente não sabe se sua filha vai ter resistência para suportar todo o tratamento”. O tratamento durou 1 ano e um mês, com 56 ciclos de quimioterapia e 28 de radioterapia. No período, o caroço comprometeu totalmente a audição do ouvido esquerdo e parcialmente a visão do olho do mesmo lado.

“Foi uma montanha-russa ficar presa dentro de uma UTI, ver muitas crianças indo embora”, conta Simone, de 48 anos. Entre render-se ao desalento e acreditar, ela escolheu exercitar a fé e confiar que Sofia iria se recuperar. A partir disso, uma verdadeira batalha dentro do hospital começou a ser travada por mãe e filha. O medo da despedida precoce continuou presente, claro, mas a coragem de tornar o momento menos doloroso também passou a fazer parte da rotina da bióloga. Em meio às dores que cercam uma Unidade de Terapia Intensiva, Simone começou a criar momentos lúdicos com a filha, para simular o ambiente escolar, que ela tanto sentia falta.

“Eu comecei a fantasiar Sofia e raspei a cabeça. Fazia toda a parte lúdica, ficava de máscara o tempo todo para esconder o choro. Brincava de bolinha de sabão e colocava toucas temáticas, de onça, tigre, que era por onde eu escondia minha tristeza. Quando tinha muito choro dentro da UTI, era o dia que a gente fazia mais barulho também, porque eu não queria que ela se impressionasse com os gritos”, descreve.

Após um mês e meio de quimioterapia, o cabelo de Sofia, parte do corpo pela qual a criança tem mais apreço, começou a cair. “Antes de Sofia se ver, eu queria que ela me visse primeiro. Quando ela viu no espelho pela primeira vez que o cabelo havia caído, ela deu risada e disse: ah, mamãe, eu estou parecendo o palhaço carequinha”. Mesmo com as tentativas bem-sucedidas de fazer a filha atravessar esse processo de forma menos difícil, Simone continuava sofrendo, principalmente nos momentos de aplasia – quando as defesas do organismo caem – por conta das sessões de quimio.

A mãe conta que, em alguns meses, a menina tomava de cinco a oito transfusões de sangue. As sessões são essenciais para a recuperação e só foram possíveis porque conhecidos e estranhos disponibilizaram parte do tempo para doar. Hoje, ela faz o ciclo girar e, onde chega, tenta convencer as pessoas sobre a importância de ser um doador regular, se mostrando prova viva disso.

“Às vezes, do nada, vamos ao médico e onde ela chega, pergunta: ‘você já teve algum problema de saúde quando era pequenininha, tipo hepatite? Não teve? Já pensou em ser uma heroína? Vá em um hemocentro, meus amiguinhos estão precisando do seu sangue, das gotinhas de amor’’’, diz Simone.

No dia 2 de fevereiro de 2019, Sofia recebeu alta definitiva para a retirada do cateter. Os médicos dizem que a doença está em remissão, ou seja, sob controle. Até completar 14 anos, ela deve continuar fazendo exames periódicos. Mas observou-se, através de exames de imagem e bioquímico, que não há mais nenhuma célula cancerígena nem tumor. “Eu não sei a quantidade de pessoas que doaram sangue para ela, e eu não tenho como agradecer. Eu digo que a cura de Sofia foi o amor de Deus e dentro dela circulam gotas de amor de inúmeras pessoas. Imagina sair de casa para doar para uma pessoa que você nem sabe quem é. É lindo. São anjos, super-heróis mesmo. O que substitui o sangue? Somos muito gratas.”