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“É provável a terceira dose”

Diariamente o médico Eduardo Jorge da Fonseca Lima tem sido a voz que compartilha orientações importantes e que derruba mitos sobre a vacinação contra o coronavírus. Nesta entrevista, ele conversa comigo sobre eficácia (capacidade de os imunizantes prevenirem a enfermidade) e efetividade (impacto real da vacinação na redução de casos, hospitalizações e mortes) das doses disponíveis no Brasil. Além disso, ele chama a atenção para a necessidade de uma possível terceira aplicação de vacinas contra covid-19, especialmente após todos
os adultos estiverem imunizados. “É muito provável que os anticorpos diminuam seis meses após a segunda dose. Isso é uma verdade para todas as vacinas”, frisa Eduardo Jorge, que é representante regional da Sociedade Brasileira de Imunizações e integrante dos comitês de vacinação contra o coronavírus no Recife e em Pernambuco.

JORNAL DO COMMERCIO – Hoje o Brasil disponibiliza quatro vacinas para imunizar a população contra a covid-19. Quando falamos sobre eficácia, quais as semelhanças e diferenças entre elas?


EDUARDO JORGE DA FONSECA LIMA – Esta é uma pergunta que tem sido feita com frequência. As quatro vacinas disponíveis do Brasil foram aprovadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). São plataformas diferentes e, por isso, é difícil a comparabilidade entre elas. Inclusive, há um interesse da Organização Mundial
de Saúde (OMS) de se fazer um estudo que realmente compare a eficácia e a efetividade de vacinas. O que temos hoje são estudos de fase 3 para cada uma e que mostram resultados diferentes. Mas a mensagem mais correta é que todas essas vacinas cumprem o seu objetivo principal: de proteger formas graves, internamento hospitalar e óbito.
Para isso, as quatro vacinas têm eficácias comparadas, seja ela de plataforma inativada como a
CoronaVac, a de vetor viral como AstraZeneca e Janssen, como também a da Pfizer, de RNA. O
mais importante ainda é o estudo de fase real, aquele feito após a administração dessas vacinas em populações.


JORNAL DO COMMERCIO – O que esses estudos já trazem de resultados e evidências?


EDUARDO JORGE – Vamos ao exemplo da CoronaVac. O estudo da Turquia e do Chile, envolvendo mais de 10 milhões de pessoas, revelou que a vacina demonstrou uma excelente proteção, acima de 85%, contra as formas graves, que levam a internamento e a óbito. Logicamente vão existir falhas vacinas, como sempre houve com todas as vacinas. Sempre dou o exemplo do sarampo, cuja vacina é de vírus vivo atenuado, com eficácia de 95%, no mínimo, com duas
doses da tríplice viral. Ou seja, há 5% da população que tomarão duas doses e poderão ter sarampo. E por que isso não acontece? Por que não temos casos? É pela questão da imunidade coletiva. Então, esta
é outra mensagem: se a maioria das pessoas estiverem protegidas contra sarampo, não se permite que a falha vacinal existente se expresse. Assim acontece com os imunizantes contra o coronavírus: quanto mais pessoas estiveram vacinadas com CoronaVac, Pfizer, Janssen e AstraZeneca, maior será a imunidade de rebanho, maior será a imunidade coletiva. E isso vai ajudar, inclusive, que as falhas vacinais não se expressem, porque o vírus passa a circular de forma muito menor. Dessa maneira, em relação à eficácia dos quatro imunizantes, já está comprovado, nos estudos de efetividade, que eles funcionam contra casos graves.


JORNAL DO COMMERCIO – E sobre a proteção para casos leves da covid-19? Há diferenças entre as quatro vacinas?


EDUARDO JORGE – Aí é onde
entram as diferenças entre elas. Temos algumas que protegem melhor contra as formas leves.
A vacina de RNA, como a da Pfizer e a da Moderna, protege melhor contra as formas leves, em comparação com as demais vacinas. Mas o que a gente quer mesmo é que reduza internamento e óbito, sem que passemos mais vez vendo lista de 300 pessoas esperando um leito de terapia intensiva (UTI) em Pernambuco. Quando vemos hoje que as taxas de ocupação da UTIs (pública e privada) estão menores do que 50%, sentimos até um arrepio no braço; uma emoção saber que atualmente qualquer pessoa que precise se internar em UTI no Estado terá essa vaga garantida. E por que isso aconteceu? Foi pela ação das vacinas nestes últimos quatro meses. E a CoronaVac é uma grande vacina, se considerarmos o quantitativo de pessoas que a usou. Então, vamos acreditar. Isso não é um achismo, não é um sentimento. Isso são números reais, que mostraram efetividade no Chile, na Turquia e aqui no Brasil também.


JORNAL DO COMMERCIO – O que o senhor pensa sobre uma possível terceira dose de vacina contra covid-19? Vamos precisar tomar?


EDUARDO JORGE – Este é um tema atual, dos últimos dias. Temos que discutir com seriedade, baseados em evidências. É muito provável que os anticorpos diminuam seis meses após a segunda dose. Isso é uma verdade para todas as vacinas. Se o desaparecimento desses anticorpos será proporcional à perda da imunidade, não temos certeza ainda. Mas vamos tomar como exemplo as vacinas contra meningite, uma doença que, para
ser evitada da melhor forma, requer nível de anticorpos sempre elevado. Por isso é que se recomendam reforços na adolescência. Com as vacinas contra covid-19, gente também tem a certeza de que, com qualquer uma delas, após 6 meses, os anticorpos caem, segundo mostraram estudos nos últimos dias. E o que fica de imunidade? Mesmo com anticorpos baixos, ao se entrar em contato com o vírus, não se sabe ainda como a imunidade humoral ou celular vai responder; é algo que está sendo estudado. Por outro lado, um trabalho revela que aqueles com menos anticorpos parecem adoecer de forma mais rápida. Assim, há uma tendência que será bem provável que todas as pessoas imunizadas precisarão, sim, fazer uma terceira dose ou até reforços anuais. Mas aí é uma terceira dose enquanto a circulação do coronavírus ainda estiver de forma importante. Esta semana o Uruguai preconizou fazer uma terceira dose para quem tomou duas. Aqui no Brasil, o Ministério da Saúde vai estudar quem tomou as duas doses de CoronaVac. Será um trabalho com quatro braços: um grupo toma a terceira dose de CoronaVac, outro recebe a terceira de AstraZeneca e outro de Pfizer. Dessa forma, será comparada a efetividade dessa revacinação. Precisamos
ainda ampliar a imunização de primeira dose, a fim de vacinar todas pessoas acima de 18 anos e conseguir entrar, em setembro, com a população acima de 18 anos imunizada e iniciando as doses nos adolescentes, especialmente com aqueles com comorbidades.


JORNAL DO COMMERCIO – É neste momento em que a aplicação de uma terceira dose pode ser uma realidade?


EDUARDO JORGE – Quando toda os adultos, a partir dos 18 anos, forem vacinados, devemos ter um discussão baseada em evidências acumuladas. E é provável que as pessoas precisem tomar uma terceira dose, após a garantia da imunização de todos os grupos. É uma questão de tempo. Eu diria que, daqui pra dezembro, isso vai estar na pauta do dia, e as pessoas que finalizaram o esquema vacinal há mais de seis meses provavelmente precisarão desse reforço para garantir a continuidade da proteção.


JORNAL DO COMMERCIO – E quando vamos conseguir alcançar a imunidade coletiva?


EDUARDO JORGE – Se percebermos que, em Pernambuco, nas últimas quatro semanas, houve redução permanente do número de casos novos e de internamentos, notamos que estamos começando com a sonhada e almejada imunidade coletiva. Isso estatisticamente é muito mais provável que aconteça quando tivermos 70% da população imunizada, pelo menos, com as duas doses. As vacinas demonstraram que, diante da variante delta, precisamos das duas doses para proteção eficaz. Diferentemente das outras variantes, a delta trouxe maior transmissibilidade: uma pessoa infectada por ela passa a doença para quatro pessoas; na variante original, essa transmissão é para até duas pessoas. Então, fazemos um apelo: as pessoas precisam voltar, aos serviços de vacinação, para tomar a segunda dose, especialmente contra a delta.